A Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, se transformou na noite de 30 de março em uma espécie de Praça da Apoteose, o tradicional ponto dos desfiles das escolas de samba do carnaval carioca. Para a abertura da 34ª edição do Festival de Teatro de Curitiba, que se realiza até 12 de abril, o carnavalesco, pesquisador e cenógrafo Milton Cunha criou o espetáculo Samba: As Escolas e suas Narrativas, inspirado em suas pesquisas de mestrado e doutorado.

Cunha participou pela primeira vez no festival no ano passado como mestre-de-cerimônias da abertura e, encantado, aceitou o convite para comandar um enredo sobre o show que há mais de um século encanta foliões de várias partes do mundo no Rio de Janeiro. Quase 50 componentes de escolas de samba do Grupo Especial, como Beija-Flor, Mangueira, Portela e Viradouro, entre eles o veterano Mestre Ciça, que vai reger a bateria, contaram a história de cada segmento de um desfile, como a ala das baianas, dos ritmistas, passistas, mestres-salas e porta-bandeiras.

O espetáculo de abertura revela a tônica desta edição que pretende ser uma celebração em torno da vida e da arte. O festival, dirigido por Fabíula Passini e Leandro Knopfholz, deve reunir 200.000 espectadores em mais de 300 espetáculos e 2.000 artistas e técnicos estarão na capital paranaense para exaltar a resistência e o prazer da atividade teatral. “Nós queremos mostrar que existem motivos para vibrar sim”, diz Fabíula. “Vamos comemorar as realizações de um momento em que todo mundo está remando contra a maré.”
Com montagens de todas as regiões que serão apresentadas em teatros, espaços culturais, ruas e praças da capital e região metropolitana, o festival ainda recebe atrações internacionais, como Brase, performance do coreógrafo Edivaldo Ernesto, que vem de Moçambique, e Bailarinas Incendiadas, da Argentina. “Eu tive a oportunidade de ver apenas o vídeo deste último e fiquei impressionada”, afirma Fabíula. “A peça traz uma discussão de gênero a partir da história de bailarinas da Ópera de Paris que morreram queimadas em cena em meados do século 19.”
A Mostra Lúcia Camargo, a vitrine principal do evento, tem a curadoria assinada pela pesquisadora Daniele Sampaio, a atriz e produtora Giovana Soar e o crítico Patrick Pessoa, que selecionaram destaques dos palcos brasileiros em 2025. Tim Maia – Vale Tudo, O Musical, de Nelson Motta, sob a direção de Pedro Brício, A Sabedoria dos Pais, comédia dramática de Miguel Falabella protagonizada por Herson Capri e Natalia do Valle, Dois Papas, peça em que os atores Celso Frateschi e Zécarlos Machado interpretam, respectivamente, o Papa Francisco e o Papa Bento XVI, e Piracema, nova coreografia do Grupo Corpo, estão entre as atrações programadas para o Teatro Guaíra.

A estreia nos palcos do comentarista esportivo Walter Casagrande Jr. em Marca do Pênalti, monólogo dirigido por Fernando Philbert, nos dias 3 e 4, promete levar ao Guairão as vitórias e as superação do ex-jogador de futebol. “Eu não sou ator e não posso interpretar personagem algum, até porque respeito o ofício dos artistas”, avisa Casagrande. “Então, sou eu mesmo que subo no palco para contar as minhas histórias, desde a infância, o auge nos gramados, o meu passado com as drogas e até a sorte de estar vivo aqui.”

Sucesso em São Paulo e no Rio, Mulher em Fuga, com a atriz Malu Galli e o ator Tiago Martelli dirigidos por Inez Viana, ocupa o Guairinha nos dias 11 e 12. Trata-se de uma adaptação dos livros Lutas e Metamorfoses de uma Mulher (2021) e Monique se Liberta (2024), do francês Édouard Louis. Vale destacar a presença na grade de Reparação, que, sob a direção de Carlos Canhameiro, recria um caso de estupro na década de 1980 sob o ponto de vista de clientes e funcionários de um salão de beleza. A peça, com Daniel Gonzales, Fabia Mirassos e Luiz Bertazzo, entre outros, chega ao Sesc da Esquina nos dias 31 e 1º.

Recém-premiado com o Shell de melhor ator, Eduardo Moscovis apresenta nos dias 4 e 5 no Teatro Paiol o monólogo O Motociclista no Globo da Morte, escrito por Leonardo Netto e dirigido por Rodrigo Portella. “É um texto que trata de um comportamento masculino que a gente abomina, mas propõe uma reflexão sobre o quanto estamos tão agressivos que nem percebemos,” explica o ator.
O mesmo Portella acaba de receber o Prêmio Shell por (Um) Ensaio sobre a Cegueira, adaptação do romance de José Saramago (1922-2010) protagonizada pela Grupo Galpão, que ganha a cena nos dias 31 e 1º no Guairinha. A presença da companhia mineira representa outra marca da curadoria deste ano: a valorização de coletivos brasileiros em atividade há décadas. “Pensamos em dez grupos longevos que, a despeito das intempéries políticas e econômicas, sobrevivem e impõem renovações estéticas e de representação”, justifica Daniele Sampaio.
Radicados no Rio, os integrantes da Armazém Companhia de Teatro apresentam Dias Felizes, do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), nos dias 3 e 4 no Guairinha. Muita expectativa é gerada pelo grupo cearense Carroça de Mamulengos, que será visto nos dias 1º e 2 no Teatro Bom Jesus com Histórias de Teatro e Circo – Três Gerações de Arte Brincante. O elenco, tradição viva do espírito mambembe, reúne desde um bebê de oito meses até um artista de quase 80 anos.
Os pernambucanos do Magiluth ocupam a Ópera de Arame nos dias 8 e 9 com o provocativo Édipo Rec, que, sob a direção de Luís Fernando Marques, reconta a tragédia grega de Sófocles de um jeito inusitado. A Ópera, que volta a receber produções do festival depois de uma década, também é o espaço escolhido para as sessões de A Máquina, nova montagem dirigida por João Falcão, desta vez protagonizada pelo Coletivo Ocutá, nos dias 4 e 5.
Dos coletivos paulistanos, vale prestar atenção em A Boca que Tudo Come Tem Fome (Do Cárcere às Ruas), da Companhia de Teatro Heliópolis, e Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo, do Coletivo Negro, programados respectivamente para os dias 2 e 3 no Teatro José Maria Santos e os dias 7 e 8 no Sesc da Esquina. Já do Rio de Janeiro, as apostas são Veias Abertas 60 30 15 Seg, inspirado no livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano (1940-2015), da Aquela Cia., e Vinte!, dirigido por Maurício Lima, premiado com dois Shell, o de melhor dramaturgia e música. O primeiro espetáculo sobe ao palco do Sesc da Esquina nos dias 10 e 11 e o segundo ocupa o Teatro Cleon Jacques nos dias 2 e 3.

O Fringe, a vitrine paralela da mostra curitibana, inspirada no Festival Internacional de Edimburgo, recebe centenas de peças divididas em mostras temáticas, várias com entrada franca. Duas delas despertam curiosidade desde o anúncio. Sob a direção de Elias Andreato, Perda Maior é protagonizada por Alex Slama, Zé Guilherme Bueno e Patrícia Vilela, também autora do texto, que será conhecido nos dias 8 e 9 no Teatro Paulo Autran. Bueno ainda divide a direção com Miguel Arcanjo Prado do drama Visita a Domicílio, peça do argentino Alberto Romero com os atores Juan Manuel Tellategui e Cícero de Andrade, que estreia entre os dias 7 e 9 no Teatro Paiol.
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