São 115 cenas em 65 minutos de espetáculo. Elas duram 60, 30, 15, 10 e chegam até a rapidíssimos 5 segundos, contando tramas com começo, meio e fim e personagens desenvolvidos em tempo cronometrado.
Parece vídeo do Tik Tok, mas trata-se de Veias Abertas 60 30 15 seg., montagem da Aquela Cia., com dramaturgia de Pedro Kosovski e Carolina Lavigne e direção de Marco André Nunes, sobre as fraturas do continente latino-americano. A peça, em cartaz desde junho do ano passado, será vista na sexta (10) e sábado (11), no Sesc da Esquina, dentro do 34º Festival de Teatro de Curitiba.

A atriz Carolina Virgüez e os atores Hugo Germano (em substituição a Matheus Macena) e Rafael Bacelar se dividem entre os personagens da performance que tem como ponto de partida o livro As Veias Abertas da América Latina, do escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). A obra, publicada em 1971, reflete sobre as explorações sofridas pelo continente ao longo dos séculos através do domínio de portugueses, espanhóis, ingleses, holandeses, franceses e, claro, os estadunidenses em um cenário de miséria e submissão. Pode ter vindo a independência. O espírito de colonizador e colonizado, porém, se manifesta de outras formas.
O projeto Veias Abertas 60 30 15 seg começou a ser idealizado em 2024 com o objetivo de ampliar um pensamento do coletivo carioca que já tinha trabalhado bastante em cima do Rio de Janeiro e do Brasil. E, nessa época, nem havia Galeano. O ator Matheus Macena comentou em um encontro sobre uma obra inteira produzida por músicas de um minuto. Houve um disparo na cabeça dos criadores. Por que não transformar essa ideia em linguagem teatral? “As histórias da América Latina são descontinuadas e a gente precisava radicalizar na fragmentação, acelerando o tempo para mostrar uma ideia de exploração”, fala Kosovski, sobre a curta duração das mais de cem cenas.
Fundada em 2005, a Aquela Cia. ganhou reconhecimento com as peças Cara de Cavalo, Caranguejo Overdrive e Guanabara Canibal, todas com premissas que transitaram entre o documental e o performático. “A história é cíclica e a cada momento esta peça ganha novos significados”, aponta o diretor Marco André Nunes. “A cena em que um personagem do Rafael é cravejado de balas, por exemplo, pode receber outra leitura depois da chacina nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio.”

O livro As Veias Abertas da América Latina serviu como uma mediação para as vivências do elenco chegarem ao palco. Não é uma adaptação ou uma releitura de Galeano e sim uma nova maneira de repensar o que foi abordado em seus escritos há mais de 50 anos – o auge das repressões militares na América Latina. Se as ditaduras hoje podem ser outras, e mentalidades conservadoras têm avançado nos países latinos, inclusive entre os jovens, Veias Abertas 60 30 15 seg. dispara cenas – as tais 115 – que mostram as dores e delícia de ser latino-americano. “Nós procuramos mostrar que, ao mesmo tempo, a gente dança e busca evidenciar as belezas do que somos”, diz o diretor.
A ação se passa em uma aula de dança de salão. Bacelar é um soldado, Germano, o funcionário de uma fábrica e Carolina interpreta a professora de dança. Cinco aulas desenvolvidas ao som de cinco ritmos – salsa, bolero, mambo, samba e punta – vão revelando as histórias de uma América Latina que se salva em pequenas alegrias.
A atriz Carolina Virgüez, de 65 anos, nasceu na Colômbia, vive no Brasil há 46 anos e comenta pela própria experiência as diferenças estabelecidas entre os brasileiros em relação aos outros países da América Latina. “Para a gente se reconhecer é preciso se conhecer e, para muita gente, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador é tudo um bolo só”, afirma. “Nós somos a América hispânica que não é a mesma do Brasil.”

A artista, que saiu de seu país aos 19 anos, conta que levou muito da sua visão sobre fatos históricos para os ensaios, entre elas a do Massacre das Bananeiras, ocorrido em 1928, em Ciénaga, povoado próximo à cidade de Aracataca. Aquele que foi considerado o maior movimento trabalhista do país até então acabou com o assassinato de 2.000 operários pelo exército colombiano para defender os interesses de uma empresa estadunidense. “Fico feliz de recuperar essa história porque, quando eu era criança, a gente ouvia que era assim que tinha acontecido e ponto”, diz Carolina. “Com a passagem do tempo, os debates podem vir à tona.”
O espetáculo Veias Abertas 60 30 15 seg estreou em junho no Sesc Pompeia, em São Paulo, e seguiu para o Rio de Janeiro, no Sesc Copacabana, em agosto. Em janeiro, chegou ao Chile, no Festival Santiago a Mil, e deve, em breve, confirmar sessões na Colômbia, Venezuela e Portugal. “A gente apostou alto na fábula para chegar ao teatro documental e passar pelo melodrama, gênero genuíno da América Latina, sem a dureza do livro ou dos discursos de esquerda”, afirma Nunes. “Até porque Galeano não fala só de mazelas, mas de resistência, enfrentamento e pulsão de vida.”
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