Não existe ator sem memória. Não apenas pela impossibilidade de decorar o texto, porque isso é o de menos. Recursos como o uso do ponto, humano ou eletrônico, por mais que sejam questionáveis, estão aí para contornar a situação. Um ator sem memória se torna incompleto já que, desde os primórdios das teorias do russo Constantin Stanislavski (1863-1938), é sabido que através de experiências pessoais nascem os personagens e as composições específicas de cada intérprete.
Uma Velha Canção, Quase Esquecida, texto da autora irlandesa Deirdre Kinahan dirigido por Domingos Nunez no Teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo, é mais uma peça sobre atores e, que preguiça, muitos poderão pensar. São tantas as histórias levadas ao palco sobre conflitos de artistas e suas egolatrias que, muitas vezes, disfarçam uma baixa autoestima que os afasta da vida real. Neste caso, porém, temos uma peça que aborda questões humanas e jamais fica restrita a um universo limitado. Se não há ator sem memória, não há indivíduo sem memória.

James O’Brien, o velho diagnosticado com o mal de Alzheimer, papel defendido por Genézio de Barros, é um artista inconformado com a iminência do esquecimento. Pode ser a perda das próprias lembranças ou a referência do seu trabalho para o público que, durante décadas, o alimentou com sonoros aplausos. Para que isso não aconteça, ele escreve tudo o que ainda se recorda e, registradas, suas vivências ganham um caráter eterno que conserva a sua história para quem se interessar. “As mãos de mamãe, os olhos de Sara, a Rua Emmer, Danny, está tudo aqui, escrito aqui”, diz James, diante das folhas de papel.
A questão é que James O’Brien – e, aqui, mora a grande sacada da dramaturgia de Deirdre Kinahan – é um ator, vaidoso com sua trajetória sim, mas poderia ser um médico orgulhoso por ter cuidado de vidas, um professor feliz por espalhar conhecimentos ou um engenheiro satisfeito com suas contribuições urbanísticas. Volto a repetir, não existe indivíduo sem memória.
Justamente por equiparar James O’Brien a um sujeito comum é que Deirdre Kinahan construiu uma dramaturgia tão sensível quanto primorosa, mas profundamente arriscada de não funcionar porque se torna absolutamente dependente dos dois protagonistas. É teatro humano que precisa de humanos.

Falo aqui de dois atores porque, no palco, James é um duplo, o velho à beira da demência e o jovem, representado por Iuri Saraiva, protagonista de uma biografia em vias de ser apagada. Domingos Nunez, diretor da Cia. Ludens, que pesquisa e produz espetáculos baseados na dramaturgia irlandesa desde 2003, tem uma trajetória difícil de ser dissociada da valorização dos intérpretes escolhidos a dedo, e seus espetáculos, independentemente dos temas, comprovam isto.
Em Pedra nos Bolsos (2006), de Marie Jones, Nunez comandou Marco Antônio Pâmio e Rubens Caribé (1965-2022), que se revezavam em quinze personagens, e, em Dançando em Lúnassa (2013), de Brian Friel (1929-2015), colocou as atrizes Clara Carvalho, Denise Weinberg e Sandra Corveloni à frente de um poderoso elenco. Do mesmo Friel, ele montou O Fantástico Reparador de Feridas (2009), com Caribé, Mariana Muniz e Walter Breda, e Balangangueri, O Lugar Onde Ninguém Mais Ri (2011), de Tom Murphy (1935-2018), teve mais uma vez Denise, junto de Tatiana Thomé, Fernanda Viacava, Mario Borges, Renato Caldas e Helio Cicero, entre outros.
Em Uma Velha Canção, Quase Esquecida, a responsabilidade é dobrada, não só por se tratar de uma peça sobre atores que precisa deles para ser sustentada. Genézio de Barros, de 75 anos, em meio a tantos nomes de sua geração, é uma escolha natural e de profundo reconhecido as suas qualidades técnicas.

Profissional em atividade desde o final da década de 1970, ele teve trabalhos de destaque no Grupo Tapa, como Rastro Atrás (1995), de Jorge Andrade (1922-1984), e Ivanov (1998), de Anton Tchekhov (1860-1904), o autor russo de quem já tinha feito A Gaivota (1994), sob a direção de Francisco Medeiros (1948-2019).
Na década de 2000, ele se destacou em Longa Jornada de um Dia Noite Adentro, clássico do dramaturgo Eugene O’Neill (1888-1953), com Cleyde Yáconis (1923-2013) e Sérgio Britto (1923-2011), e na comédia A Flor do Meu Bem-Querer, de Juca de Oliveira (1935-2026). De volta ao Tapa, trabalhou em Doze Homens e uma Sentença e ainda brilhou no monólogo O Monstro, encenado por Hugo Coelho em cima do conto de Sérgio Sant’Anna (1941-2020), tudo isso nos anos de 2010.
O grande risco de Nunez era a escalação do representante de James na juventude. Em um mercado achatado em que os profissionais não encontram oportunidades para uma atividade contínua e o exercício da versatilidade, Iuri Saraiva tornou-se uma exceção com uma carreira diversificada e constante nos palcos e no cinema.

Carioca criado em Brasília e radicado em São Paulo, o ator de 37 anos chamou atenção na peça Hollywood, texto de David Mamet dirigido por Gustavo Paso em 2018. Em seguida, participou de A Catástrofe do Sucesso (2019), de Tennessee Williams (1911-1983), sob o comando de Marco Antônio Pâmio, com quem voltou a trabalhar no mesmo ano em Jardim de Inverno, versão do romance Revolutionary Road, de Richard Yates (1926-1992), que lhe valeu um prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).
Entre clássicos, como O Dilema do Médico, de Bernard Shaw (1856-1950), Álbum de Família, de Nelson Rodrigues (1912-1980), e Mary Stuart, de Friedrich Schiller (1759-1805) revisitado por Robert Icke, e peças contemporâneas, a exemplo de Adulto, de Fran Ferraretto, em 2025, Saraiva veste e se despe dos personagens com uma facilidade típica de quem pratica o ofício. Esta disponibilidade lhe credencia a enfrentar James O’Brien, além de personagens de suporte, dois deles femininos.
Se é para falar do enredo, James O’Brien atravessa seus dias em uma casa de repouso e, durante um concerto real ou imaginário – os músicos Aline Reis, Mafê e Vinícius Leite estão em cena –, ele começa a investigar a própria história. A infância e a adolescência em Dublin, uma paixão homossexual reprimida na juventude, os primeiros passos na carreira ainda na Irlanda, no Teatro Abbey, e a mudança para Londres em busca da solidificação profissional são as passagens antigas trazidas à tona.

O amor por Sara Walsh, sua mulher por muitos anos, é tão fundamental quanto a vida dedicada à arte. “Se eu a esquecer, estou perdido. Se eu a esquecer, então definitivamente não quero mais existir. Eu definitivamente não quero mais existir”, afirma James, agoniado.
Ele descreve as roupas, os joelhos da companheira, o encontro dos dois enquanto ele protagonizava A Importância de Ser Prudente, peça de Oscar Wilde (1854-1900). Passeios pelas praças, pelo Soho, por Covent Garden são momentos de uma paixão que não pode virar fumaça e se perder no ar. “Meu Deus, eu quase perdi a Sara. Não posso esquecê-la. Não posso deixar que esse rosto se desvaneça, que o rosto da Sara se desvaneça”, diz James.
O teatro é um imenso exercício de memória. É a memória que faz os atores e as atrizes decorarem os textos e criarem os seus personagens. O espetáculo em si coloca à prova essa capacidade e provoca o espectador a perpetuar as lembranças em sua mente, já que, como reza o clichê que de clichê não tem nada, nenhuma apresentação é igual a outra.

O teatro é efêmero e, ao contrário do filme ou do disco, jamais será reproduzido. Tudo pode acabar ali, inclusive o trabalho do ator e a percepção do espectador, que morrem todos os dias para renasceram amanhã.
Em uma fase de excesso discursivo e experimentalismos nos palcos, os grandes personagens estão em falta para o desenvolvimento profissional de atores e atrizes – e para a satisfação do público de guardá-los em mente.
A dramaturgia de Deirdre Kinahan dirigida por Domingos Nunez oferece esta rara chance não só a Genézio de Barros e Iuri Saraiva quando ao público, a de que, daqui a alguns anos, o dueto dos grandes atores ainda poderá ser lembrado e a cena seguirá viva na memória de alguém que se emocionou com um grupo de artistas naquela sessão.

Uma Velha Canção, Quase Esquecida carrega alguma familiaridade com In on It, o clássico recente do dramaturgo canadense Daniel MacIvor. No Brasil, a peça ganhou direção de Enrique Diaz, que chegou a contracenar com o ator Emílio de Mello em substituição a Fernando Eiras, da dupla original. É o jogo entre dois atores atropelados pela vida que se torna uma experiência rara para a plateia.
E, assim, nas palavras de James, escritas por Deirdre Kinahan, fica simbolizada a vida de James O’Brien e a relação de todos com o teatro: “Mesmo quando a memória falhar, mesmo quando a mente falhar, o mundo que eu amo, aqueles que eu amo continuarão a vagar, continuarão a viver, continuarão a cantar nas profundezas das minhas artérias”.
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