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Foto: CAIO GALLUCCI
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“Oleanna”, sob a direção de Daniela Stirbulov, amplia debate para diferenças sociais e o sistema de cotas nas universidades

O clássico contemporâneo do dramaturgo David Mamet possibilita uma leitura atualizada que ultrapassa a questão feminista e o assédio sexual

Crítica Por Dirceu Alves Jr.

Em uma entrevista a este que vos escreve, em outubro passado, a diretora Daniela Stirbulov, de 39 anos, disse que, para ela, não existe o meio-termo ao transportar uma obra para o palco. A ideia sempre é chutar a porta para ressaltar questões que, com o olhar de hoje, são claras em um texto criado tempos atrás.

Neste caso, a artista falava de O Mercador de Veneza, peça escrita por William Shakespeare no final do século 16, que, protagonizada por Dan Stulbach, voltou ao circuito em abril do ano passado e, desde outubro, em São Paulo, pode ser vista no Tuca. Sob o comando de Daniela, a história do agiota judeu Shylock foi adaptada para a década de 1990 e se tornou um dos espetáculos mais comentados da temporada. Pontos para o teatro que rende tão pouca discussão ultimamente!

Foi na mesma década de 1990, precisamente em 1992, que o dramaturgo estadunidense David Mamet, hoje com 78 anos, escreveu Oleanna, que pode ser vista do Espaço de Convivência do Teatro Vivo, na capital paulista, em encenação de Daniela. Considerado um clássico contemporâneo, o texto teve pelo menos duas montagens significativas no Brasil. A primeira, protagonizada por Antonio Fagundes e Mara Carvalho em 1996, com direção de Ulysses Cruz, e outra, conduzida por Gustavo Paso, com o ator Marcos Breda e a atriz Luciana Fávero, em 2015. Além disto, em 1994, Mamet levou a peça aos cinemas com William H. Macy e Debra Eisenstadt no elenco.

A trama mostra o embate entre a estudante universitária Carol (interpretada em alternância pelas atrizes Julianna Gerais e Lara Mendes) e o professor John (papel de Velson D’Souza), que, prestes a receber uma promoção, se sente ameaçado pelos questionamentos da aluna. Ela não tem acompanhado bem o conteúdo das aulas e, reunida com o mestre no gabinete dele, trava um duelo verbal que culmina em acusações de assédio moral e sexual.

Foto: Caio Gallucci

Carol encaminha ao comitê de avaliação da faculdade uma queixa contra o comportamento arrogante de John – o que, segundo ela, dificulta a compreensão das matérias. “Você me acha pedante. Sim. Eu sou. Por natureza, por nascimento, por profissão, não sei… Estou sempre procurando um paradigma para…”, afirma John. A aluna encara o professor: “Não sei o que é um paradigma”. Ele responde: “É um modelo”. “Então, por que você não pode usar essa palavra?”, rebate a jovem, em uma das passagens emblemáticas.

Três décadas depois, o tema do assédio sexual é bastante discutido e condenado, mas, naquele tempo, excessivamente naturalizado, gerava poucos debates. O assédio moral, então, nem constrangia quem o praticava. Era regra. O romance A Marca Humana, lançado em 2002 pelo escritor Philip Roth (1933-2018), foi uma rara abordagem, também ambientada no meio acadêmico, publicada uma década depois de Oleanna.

Quatro anos antes, na vida real, um escândalo tinha abalado a Casa Branca, colocando em lados opostos o então presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky. As questões em torno do politicamente correto entraram com força na pauta e, depois do começo do século 21, nada mais seria como antes. Na maioria dos casos, para o bem.

Só que Daniela Stirbulov não se conforma com o que aparece explícito no texto e seu jeito de chutar a porta é enfatizar questões que estão ali, óbvias, mas esta obviedade só salta diante uma compreensão apurada dos novos tempos. Oleanna é uma peça estadunidense, com personagens provavelmente nascidos e criados nos Estados Unidos e nada disto foi alterado pela diretora. A questão é que, encenado no Brasil, o texto automaticamente ganha outra ambientação e novo sentido para as problemáticas.

Desde o fim da década de 2000, o Brasil passou por uma revolução no ensino superior com a criação e consolidação da lei de cotas raciais que permitiu o acesso às universidades para jovens que, antes, dificilmente teriam chances de chegar ao ensino superior. Muitos deles, pretos, vindos de classes mais baixas e com uma base educacional menos sólida, enfrentaram um choque no espaço elitista. Os professores, brancos, com uma formação erudita demais e pouco dispostos ao debate, aprenderam a lidar na marra com um aluno menos passivo e a reavaliar métodos para não falar sozinho em sala de aula e acreditar que, caso o estudante não o acompanhe, o problema não é dele.

Carol é representada por uma atriz preta, quer dizer duas, uma a cada noite – na sessão avaliada, a personagem foi defendida por Lara Mendes –, enquanto John é o estereótipo de uma elite branca, quase loira, de olhos claros e de uma suposta educação que parece tratar bem a todos, mas humilha alguns sem alterar a voz. Na ânsia de cravar a sua identidade, a aluna excede alguns limites que percebeu recentemente que poderia testá-los, aqueles mesmos que Jonh, seus pais, avós e bisavós, excedem desde que se conhecem por gente.

A encenação de Daniela para Oleanna é radicalmente oposta à de O Mercador de Veneza. A diretora pouco precisa fazer alterações para alcançar os objetivos. A década de 1990 foi ontem, e os ajustes para novas leituras se adequam sem operações cirúrgicas. Na versão de Shakespeare, são muitos os elementos, incessantes as mudanças, marcante a trilha sonora, e o público tem que prestar a atenção a tudo porque este tudo complementa o texto.

Foto: Caio Gallucci

Em Oleanna, tudo é mínimo. São apenas cinquenta espectadores em duas fileiras de 25 cadeiras com a ação desenvolvida no centro, no caso a reprodução do gabinete de John, em um lugar que nem um teatro é, o que colabora para o realismo da montagem. O telefone fixo que toca diversas vezes acusa até certo estranhamento em 2026, mas está ali com uma função dramática, a de sublinhar um pouco do conservadorismo de John.

Não existe o distanciamento do palco e da plateia. O espaço de convivência do Teatro Vivo se torna uma espécie de site specific, local montado para aquela experiência. O cenário concebido por Carmem Guerra se adapta às necessidades da trama, facilitando a movimentação dos atores, e os figurinos de Allan Farc são usados de forma tão objetiva que completam as mudanças de cena e a passagem do tempo

É como se todos os espectadores fossem jurados que, apoiados naquela observação, poderão entender melhor as posturas dos personagens e julgá-los em acusações ou defesas. A ambientação lembra a de Real Politik, peça de Daniela Pereira de Carvalho, dirigida por Guilherme Leme Garcia e Gustavo Rodrigues, que estreou há dois anos em São Paulo. Os atores Augusto Zacchi e Pedro Osório encenavam o texto em um conjunto de escritórios da Avenida Faria Lima.

No clima cada vez mais tenso entre John e Carol, ninguém é santo. No final das contas, nenhum deles está certo – a sacada da dramaturgia de Mamet levada ao extremo nesta montagem. Os dois estão dispostos a fazerem valer os seus interesses, e, se aqueles defendidos por John ficam claros desde o começo – receber a promoção, comprar uma casa para a família e seguir a vida burguesa –, os de Carol são revelados aos poucos.

A estudante não entrou na briga sozinha. Está amparada por coletivos feministas e antirracistas que, como ela deixa claro, não só a orientam, mas, quem sabe, determinam os próximos passos a seguir neste conflito e podem até manipulá-la. Esta leitura só é clara de uma década para cá e, assim, a Carol desta encenação é muito menos vítima que as anteriores e pode, inclusive, apresentar um caráter mais falho. Pode querer fazer justiça e pede uma reparação, mas usa métodos que podem aproximá-la daqueles que oprimiram tantos em um passado recente.

Para ampliar o texto de Mamet e reforçar as intenções de Daniela é fundamental uma boa dupla – e este seria o perigo de Oleanna, caso as interpretações não alcançassem sustentação. Velson D’Souza, de 42 anos, surgiu na cena paulistana na metade da década de 2000, participou de musicais de pequeno porte, integrou a Cia. da Revista e viveu nos Estados Unidos entre 2011 e 2021. Por lá, estudou The New School for Drama, em Nova York, trabalhou em montagens off-Broadway, entre elas uma de A Gaivota, de Tchekhov, e no cinema – a sua formação original conquistada em graduação na Faap, em São Paulo. De volta ao Brasil, ganhou espaço nos elencos dos musicais Silvio Santos Vem Aí! e Jersey Boys.

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É surpreendente o seu domínio, a sua maturidade em cena e, principalmente, a embocadura para trazer à tona palavras que poderiam cair facilmente em um maniqueísmo. Também tradutor do original de Mamet, Velson D’Souza reforça a humanidade de John, algo fundamental para que a leitura da diretora não se desestruture diante da postura nada vitimizada mantida por Carol quase a peça inteira. John, errado ou não, é resultado de uma educação estruturada por décadas que não considerava possível ser questionado e se mostra desarmado para tais desafios.

Julianna Gerais estudou na EAD (Escola de Arte Dramática), da USP, tem tido experiências constantes no audiovisual e deve defender Carol com bravura. Na sessão avaliada, Lara Mendes, maranhense de 26 anos, atriz e cantora, com engajamento na cena musical, apresentou uma Carol enérgica, dúbia e capaz de manter o ritmo do intenso diálogo com o parceiro sem perder o fôlego. Em sua composição, a atriz intercala uma proximidade e um afastamento psicológico, como se fosse orientada a se afastar do foco para retornar com mais força, o que valoriza Carol e colabora para borrar a sua personalidade.

Por trás deste apurado dueto é inegável o rigor de Daniela como diretora. Nenhum espetáculo fica de pé apenas com propostas arrojadas estéticas. É preciso texto e atuação. Se O Mercador de Veneza pode ser visto com ressalvas devido a uma irregularidade nas interpretações – afinal, lá são doze atores e atrizes, o que dificulta uma unidade –, em Oleanna, a diretora foi fundo com os protagonistas. Mérito de um talento que despontou e já pode ser considerado referência na hora de ser escolhida uma peça para ser assistida. “Ah, tem uma nova montagem de Oleanna em cartaz?”, vai falar um. “Dirigida pela Daniela Stirbulov, a mesma de O Mercador de Veneza?”, comentará outro. “Então, vou assistir!”, dirá um terceiro.

O interesse do público em teatro se forma através da admiração pelo trabalho de atores e atrizes, mas também por causa dos diretores. Muitos daqueles que gostaram de O Mercador de Veneza poderão procurar Oleanna ou outro de seus futuros espetáculos em busca daquele “sei lá o quê” que torna marcante uma experiência teatral. Tomara que Daniela jamais se esqueça disto.

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

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Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

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