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Literatura e futebol ganham casamento festivo no teatro para crianças

Em ‘É Goool! Mirabolâncias Futebolísticas’, o grupo Catarsis, de Jundiaí, capricha no teatro narrativo, em tempo de Copa do Mundo, encenando três divertidas histórias literárias ligadas ao universo do esporte das multidões e ampliando o tema para questões como pertencimento, preconceito e direito a brincar

Crítica Por Dib Carneiro Neto

A camada mais transbordante e facilmente identificada do espetáculo É Gool! Mirabolâncias Futebolísitcas, em cartaz só por mais dois domingos no Sesc Pinheiros, é sua temática ligada ao futebol, justamente neste mês em que (quase) todas as atenções se voltam para “torcer pelo Brasil” na Copa do Mundo da Fifa. A mais nova atração da experiente companhia interiorana Catarsis Arte para Infância e Juventude, de Jundiaí, no entanto, vai além do senso de oportunidade e do timing perfeito. Fora dessa época de euforia mundial em torno da bola, o espetáculo certamente também sobreviverá, porque fala, como o próprio grupo define, “da imprevisibilidade da vida, do desejo de pertencer e da importância de garantir espaços para brincar”. E, além disso, convenhamos, futebol sempre será um tema atraente para crianças, não importa se é ou não ano de Copa. Mesmo quem não gosta de jogar, tem em si uma memória afetiva, recente ou não, ligada ao coletivo, à família reunida, à rua colorida, às peladas no campinho, aos campeonatos na escola. A peça transcorre de uma forma tão honesta e sincera, que acessa tudo isso na plateia de todas as idades.

Foto: Pedro Amora/Divulgação

Atrativo extra é o fato de É Gool! apoiar-se inteiramente na literatura. Três textos literários, de autores muito diversos – Jorge Amado, Ilan Brenman e Santuza Abras -, ganham status de dramaturgia, em que narrativa vira ação dramática pelas mãos competentes do diretor Marcelo Peroni e seu elenco colaborativo. Um prato cheio para escolas que se disponibilizem a mostrar para os alunos como um tema único pode ser abordado por linguagens diversificadas. É só querer que se percebe claramente como cada história é narrada com palavreados diferentes, vocabulários distintos, cadências complementares, ritmos variados. Uma história com jeitão mais clássico e retrô, outra mais coloquial, outra mais formalista – e assim os estilos se descortinam, lado a lado com a diversão e o entretenimento. Tão raro ver no mesmo espetáculo essa convivência entre linguagens literárias distintas.

Foto: Pedro Amora/Divulgação

Valorosa é também a escolha por incluir o público em tudo, desde o início, quebrando a quarta parede. O elenco, um a um, entra em cena e se apresenta: nome, posição na partida e função no espetáculo. Contam quem são os três autores das três histórias. Avisam que usarão termos futebolísticos bem específicos, como esquadra, score, tento, gol de placa, gol de bicicleta… Tudo como um prólogo tático, em forma de conversa, uma boa prosa entre artistas e plateia, o que deixa o espetáculo bem mais próximo, íntimo, como um abraço, um afeto, um calor na comemoração de gol. E é lindo ver como essa escolha da encenação colhe frutos imediatos, como quando a menina da segunda história finalmente é aceita no time de marmanjos e faz seu primeiro gol. É comovente ver a reação efusiva das pessoas, aplaudindo e gritando suas alegrias extravasadas, seus apoios à conquista cavada pela personagem e ao fim do preconceito. Assim como é incrível ver como pais e filhos, mães e filhas, explodem nas poltronas suas admirações irrestritas, diante de uma foto de Pelé ou da craque Marta.

Foto: Pedro Amora/Divulgação

Se essa proposta de estender planejadamente a plateia para o palco cai como uma luva de goleiro na aconchegante sala do terceiro andar do Sesc Pinheiros, em que as dimensões favorecem a proximidade, por outro lado a concepção cenográfica do espetáculo se acomodará melhor quando a companhia estiver em cartaz em outro palco mais amplo. Ali tudo parece apinhado demais, apertado demais, tendo em vista a grande quantidade de elementos cenográficos, sobretudo caixotes, e adereços como bolas, bandeiras, flâmulas e até um pedaço de rede de gol fazendo as vezes de painel ou ‘fundo de tela’. Falta respiro visual para o espetáculo nesse palco pequeno do Sesc Pinheiros.

Ponto positivo vai para a presença de Silvanny Sivuca fazendo música ao vivo no palco, com trilha original, ainda que quase escondida em um cantinho escanteado, justamente pelas limitações do pequeno palco. Na trilha, predominam as contagiantes batucadas eletrônicas, que se harmonizam com canções clássicas do universo futebolístico nacional, prontamente identificadas pelo público. Isso dá um molho a mais ao clima festivo que se instaura nessas mirabolâncias narrativas conduzidas com talento por um elenco carismático, descontraído e versátil, que se multiplica em vozes e personagens com muita propriedade e técnica. São eles: Rafael Ambrosin, Carol Ferretti (revezando em sessões com Ana Paula Castro), Aline Volpi e Vladimir Camargo.

Esse último, na pele de um síndico intransigente na terceira história, tem momentos hilários, mas alguns ajustes no tempo do personagem fariam a trama avançar mais rapidamente e terminar com um pouco mais de impacto. A virada do personagem – de chato a amigão – demora demais a acontecer e, quando acontece, carece de mais força e menos caricatura. Esse ator, aliás, veterano na companhia, também assina os figurinos da peça, que não podem ficar sem menção, pela alta criatividade, sobretudo nos trechos em que tudo é trabalhado em preto e branco, incluindo uma bola personificada em… Carmen Miranda. São figurinos com humor, inteligência e renovação. Golaço.

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

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Dib Carneiro Neto

Dib Carneiro Neto

Jornalista, dramaturgo e crítico teatral. Começou a escrever críticas sobre teatro infantil em 1990, na revista Veja São Paulo. Foi editor-chefe do caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo (2003 a 2011). Atualmente, edita o site e canal do youtube Pecinha É a Vovozinha, que ganhou o Prêmio Governador do Estado em 2018, na categoria Artes para Crianças, além de menção honrosa no Prêmio Cbtij. Por sua peça Salmo 91, ganhou o Prêmio Shell de dramaturgo em 2008. Em 2018, ganhou o Jabuti pelo livro Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela.

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