Em Vestido de Noiva (1943), peça de Nelson Rodrigues (1912-1980), Alaíde é atropelada no bairro carioca da Glória e, enquanto é socorrida no hospital, entra em um transe permeado por memória e alucinação. Desde muito jovem, ela é fascinada por Madame Clessi, cafetina assassinada em 1905 pelo amante adolescente que morava na casa que seus pais compraram anos mais tarde.
No quarto em que virou moça e mulher, a personagem rodriguiana encontrou um diário que alimentaria a idealização em torno de Clessi. Obcecada, ela percorreu bibliotecas e arquivos públicos em busca de jornais que lhe esclarecessem o feminicídio da cortesã e, mesmo depois de casada, jamais a tirou da cabeça como exemplo de perfeição feminina.
Assim como Alaíde, Paula (interpretada por Julia Ianina) é uma mulher de classe média, pouco mais de 30 anos, casada e com uma vida que, aos olhos dos outros, parece ter tudo em seu devido lugar. Ela é a protagonista de O Caso Lorena, peça de suspense psicológico escrita por Julia e dirigida por Carolina Manica, em cartaz no Teatro do Sesc Ipiranga, em São Paulo. Uma outra questão fundamental, a mais relevante de todas, aproxima Paula da personagem de Vestido de Noiva: a obsessão por um crime.

Em 23 de julho de 1994, Lorena Casales (papel de Camila Raffanti), uma mulher comum e até então sem qualquer traço psicótico, cortou a garganta de uma desconhecida com um pedaço de vidro em uma quermesse da Paróquia Nossa Senhora da Candelária, na zona norte de São Paulo. O crime horrorizou dezenas de testemunhas e ganhou repercussão na imprensa nacional porque, além da frieza da cena, as investigações não denunciaram uma motivação aparente da assassina, que prontamente assumiu o ato e foi presa.
A vítima, sem documentos, nunca foi identificada e se criou um mistério maior ainda em torno desta pessoa que, apesar de bem-vestida, teve um enterro de indigente. Na ficção, não houve quase ninguém que não tenha ouvido falar do “Caso Lorena”, tanto que a dramaturgia se aproveita da mítica para que os espectadores se confundam e cogitem que se trata de um fato escapado da memória. Este, aliás, é um dos trunfos do texto de Julia, o de confundir o público e fazê-lo acreditar em várias coisas, entre elas que a peça reconstitua uma história real
Paula só pensa nisto, no “Caso Lorena”, e passa dias em busca de documentos, reportagens e contatos que possam ajudá-la a decifrar o mistério. Como detetive incansável, caça pessoas na internet capazes de lhe fornecerem informações e chegou até Joana (também vivida por Camila), outra obcecada pelo crime, que lhe entrega diários e cartas supostamente escritos por Lorena.
Algumas delas foram redigidas para a filha, não identificada, que teria sido levada ainda bebê para a adoção. A obstinação é tanta que assusta Dênis (personagem de Rodrigo Bolzan), o marido de Paula, que não reconhece mais a parceira em sua angústia sobre um assunto com o qual jamais teve relação alguma.

O suspense é um gênero pouco explorado no teatro, talvez devido as suas dificuldades de encenação ou, quem sabe, porque se aplica melhor às descrições literárias ou ao realismo do audiovisual. São raros os exemplares nos palcos, e O Caso Lorena desponta com um natural curiosidade. Trata-se inegavelmente de uma peça incomum, inclusive esteticamente, e que não parece temer os riscos. Além disto, marca a estreia de duas atrizes de talento comprovado em funções que justificam o vigor da encenação. É a primeira dramaturgia de Julia Ianina e a primeira direção de Carolina Manica.
O Caso Lorena é um argumento desenvolvido por Julia no curso do Núcleo de Dramaturgia do Sesi – SP, sob a orientação de Angela Ribeiro e Silvia Gomez, duas das principais autoras da atualidade. Como um exercício, a ambição faz parte da proposta, e a então aspirante à dramaturga justifica ao criar algo que foge do óbvio. O texto, porém, é difícil de ser levado ao palco, as palavras podem facilmente se perderem ao serem convertidas em imagens e o atrevimento de uma diretora estreante é fundamental para a montagem dialogar com o teor inventivo da escrita.
Carolina é atriz e, acima de tudo, produtora, então é o tipo de profissional acostumada a querer transformar tudo o que parece impossível em realidade. Nas mãos de uma diretora menos ousada, O Caso Lorena poderia facilmente ser levantada como uma peça mais narrativa que imagética. Diante das pretensões de Julia, porém, a encenadora criou uma atmosfera fantástica que alimenta ainda mais a curiosidade do espectador e faz com que ele se sinta tão intrigado quanto Paula na busca pela compreensão do tema.

“Quando eu fecho os olhos, vejo a Lorena como se já tivesse conversado com ela. Como se tivesse sido ela que me contou cada detalhe do crime. Como se pudesse ouvir da boca dela própria como aconteceu, por exemplo, o primeiro interrogatório”, diz Paula e, assim Julia, como dramaturga e atriz, mostra o primeiro interrogatório da assassina confessa e começa a apresentar a narrativa ao público.
Através das palavras de Paula, o que significa fantasia e nunca memória, o espectador toma conhecimento de como foi o depoimento de Lorena ao delegado, também representado por Bolzan. Tanto o texto como a direção induzem o público a se colocar na mente da protagonista e, a partir das impressões dela, construir a trama.
O recurso é arriscado. Para que isso se concretize é importante que a plateia compre a curiosidade de Paula e não a considere, à primeira vista, uma desequilibrada. Isto acontece graças às interpretações de Julia e Bolzan nas primeiras cenas, que simulam até uma quebra da quarta parede. Como Dênis, Bolzan induz o público a formar uma imagem de Paula, como seria o seu rosto, os seus olhos e a sua voz, enquanto a atriz permanece na penumbra.

É o mesmo estímulo que Paula tem para construir em sua mente as figuras de Lorena e da vítima e, se voltarmos a Nelson Rodrigues, o que Alaíde usa para enxergar Madame Clessi, já, que, no começo do século 20, fotografias eram raridades.
A composição seca e econômica de Julia como Paula garante o mistério em torno da personagem, assim como Bolzan, em uma prova de versatilidade, explora a firmeza e a perplexidade seja na interpretação de Dênis, do delegado ou do Doutor Luiz Aguiar, o psiquiatra de Lorena. Neste universo enigmático, Camila Raffanti tem a difícil tarefa de explorar as contradições de Lorena e demonstra firmeza ao construir uma personagem em diferentes tons sem escorregar em extremos, até porque ela, como atriz, não deve entregar conclusão nenhuma. A tarefa cabe ao público.
Sempre que desejam minimizar a revolução dramatúrgica promovida por Nelson Rodrigues em Vestido de Nelson – os conflitos dramáticos e psicológicos da classe média expostos sob as perspectivas do presente, do passado e da alucinação – costuma-se dizer que, se não fossem a direção de Ziembinski (1908-1978) e a cenografia de Tomás Santa Rosa (1909-1956), o efeito não teria sido o mesmo.

É pouco provável, talvez Vestido de Noiva demorasse mais para ganhar a cena se Nelson Rodrigues não tivesse por perto companheiros tão inventivos, assim como aconteceu com O Rei da Vela, de Oswald de Andrade (1890-1954), mas a verdade é que o bom teatro quase sempre resulta de um trabalho coletivo. Em relação à O Caso Lorena, obviamente não se tem um texto e personagens convencionais e seria difícil transformá-lo tanto na encenação, ainda mais por uma diretora que, apesar da energia explícita, é estreante.
Além dos desempenhos de Bolzan e Camila, Julia e Carolina contaram com o olhar apurado de Kleber Montanheiro. A cenografia quase claustrofóbica, provável referência à cabeça de Paula, e os figurinos neutros em branco, preto e cinza, ambos assinados por Montanheiro, encontram comunicação imediata na ambientação onírica valorizada pela iluminação desenhada por Gabriele Souza.
Por isso, O Caso Lorena é o bem-sucedido resultado da inquietação de duas profissionais que uniram forças e, principalmente, ambições para criar algo incomum. Se desse tudo errado, Julia e Carolina já têm maturidades suficientes para saber que as suas carreiras não estariam acabadas e desafiaram a si mesmas e ao público em nome de um projeto: o de fazer uma peça diferente. E, pode-se gostar ou não, quem sabe encontrar até alguma dificuldade de entendimento, mas ali nada é parecido com aquela outra peça que você viu na semana passada ou retrasada.
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