Você está na cidade de:
Foto: Lia Maciel
Foto: Lia Maciel

No teatro, “Paixão Simples” extrapola a escritora francesa Annie Ernaux para focar em uma intensidade desmedida

Sob a dramaturgia e direção de Alessandra Colasanti, a atriz Aline Fanju interpreta personagem mergulhada no caos em versão que assume os riscos

Crítica Por Dirceu Alves Jr.

Quem tem medo de Annie Ernaux? A dramaturga e diretora Alessandra Colasanti e a atriz Aline Fanju, pelo visto, não têm. O monólogo Paixão Simples, extraído do romance da escritora francesa publicado em 1991, é o exemplo de uma adaptação teatral com inspirada liberdade cênica que não trai as palavras e o sentido do texto original.

Mesmo que surpreenda o público, principalmente aqueles que conhecem a obra da autora, a montagem, em cartaz no Teatro do Sesc Santana, em São Paulo, recria as características da protagonista sem dissipar a essência da sua personalidade. Quem está no palco é Annie Ernaux, mas o que se vê é a Annie de Aline Fanju, uma mulher brasileira movida por sentimentos atemporais e não uma francesa da virada dos anos de 1980 para os de 1990. Tal opção artística alça o espetáculo a uma contemporaneidade capaz de dialogar enfaticamente com o público feminino brasileiro. Quer dizer, não só o feminino…

Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2022, a escritora e professora Annie Ernaux, nascida Annie Duchesne há 86 anos em uma família operária do interior francês, é ao lado do conterrâneo Édouard Louis, de 33 anos, a principal representante da autoficção. O gênero, que funde autobiografia, romance e elementos sociológicos, se tornou a grande febre literária desta década.

No ano em que faturou o Nobel, a autora foi a sensação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e alavancou as vendas de seus livros, como O Lugar, O Acontecimento, Os Anos, A Vergonha e Paixão Simples, todos ótimos e lançados no Brasil pela Editora Fósforo. Em comum, eles tratam de uma mulher, a própria Ernaux, em seu processo de ascensão social em consequência do estudo e do aprimoramento intelectual e a forma com que ela se coloca em um mundo não destinado a alguém com suas origens.

Foto: Lia Maciel

Enquanto Louis se consolidou como a voz de uma juventude LGBTQIAPN+ em busca de afirmação e igualdade, Ernaux é a representante de um feminismo que derrubou barreiras pessoais depois de romper estruturas sociais – até por uma questão geracional. Por isso, Paixão Simples, a primeira de suas obras levadas ao palco no Brasil, talvez seja o seu livro mais intimista – entre os conhecidos por aqui.

Se os outros títulos confirmam que, mesmo com toda bagagem intelectual, a autora nunca se desprendeu totalmente das raízes humildes e até de um senso de inferioridade, este romance – e a peça – revela que, apesar da formação acadêmica e do refinamento cultural, o estado de paixão iguala a todos.

Foi justamente a percepção dessa intensidade que guiou Alessandra Colasanti e Aline Fanju no projeto idealizado por Pablo Sanábio, lançado no Rio de Janeiro em setembro do ano passado. Na história, Ernaux recupera o frisson de um caso amoroso vivido por três anos no fim da década de 1980 com um homem casado e estrangeiro.

Identificado como A., o sujeito monopolizou os seus pensamentos e sentidos em momentos de ausências que se sobrepuseram aos de sua presença. A protagonista, na época, já era separada do primeiro marido e tinha dois filhos crescidos e, nesta entrega unilateral, jogou no ralo a racionalidade para ficar à espera de telefonemas raros e encontros fortuitos.

Claro, como um homem casado, era ele quem telefonava – naquele tempo, não existiam celulares –, cartas não podiam ser enviadas para não caírem em mãos erradas – também não havia internet e e-mail – e os presentes eram praticamente proibidos porque poderiam virar uma confissão de culpa na fatura do banco, caso fosse investigado.

Foto: Lia Maciel

“Desde setembro do ano passado, não fiz outra coisa além de esperar por um homem, que ele me telefonasse e viesse à minha casa”. É assim que a protagonista começa o seu monólogo, diferentemente do livro, que abre com a minuciosa descrição de um filme pornô assistido pela personagem no auge da fissura.

O teatro é uma arte livre e, mesmo no caso de uma adaptação literária como esta, que exige fidelidade às palavras, quase tudo se torna possível desde que se esteja dizendo a mesma coisa. A peça Paixão Simples é aberta com o foco no aparelho de televisão da personagem que exibe um filme de sexo explícito com closes em órgãos genitais, penetrações e gemidos que, se não são ouvidos pelos espectadores, estimulam a libido. Aqui se manifesta a primeira das muitas transgressões de Colasanti e Fanju – a consciência de que nada está sendo deturbado, é apenas a diferenciação entre uma linguagem e outra.

Antes de garantir a autonomia como dramaturga e diretora, Colasanti se impõe em um terreno que domina por genética e vontade própria. Ela é filha dos escritores Marina Colasanti (1937-2025) e Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025) e mestranda em literatura, cultura e contemporaneidade pela PUC-Rio. Sabe o que está fazendo ao levar Paixão Simples ao palco e sabe do respeito que deve destinar ao original e a si própria.

A protagonista, interpretada por Fanju, pode até ser uma francesa, habitar um apartamento tipicamente europeu – cenário construído por Aurora dos Campos –, cita em uma passagem o jornal Le Monde, mas, em todos os outros aspectos, pode ser identificada como uma brasileira. Nada nela é blasé, existe uma passionalidade nos atos e nas reações típicas dos latinos e, aqui, mora a inteligência da adaptadora/diretora e da atriz em aproximar a personagem do público.

A Annie da peça não sofre segurando uma taça de vinho e com um cigarro queimando entre os dedos como uma existencialista francesa. A personagem surta, grita, se joga no chão, abre as pernas, quebra a quarta parede várias vezes para interagir com a plateia e sofre em um delicado limite tragicômico que poderia esbarrar no ridículo, mas se salva.

Foto: Lia Maciel

Se a narrativa de Ernaux é contida, distanciada, a personagem de Fanju vive o presente e quase ninguém apaixonado é comedido, então ela mergulha no caos emocional, no fogo que precisa ser apagado, na decepção não assumida que deve ser mascarada para não virar tristeza. É neste ponto que se sobressai a assinatura de adaptadora/encenadora e de intérprete em um espetáculo que escapa do óbvio. Tem ali uma loucura típica dos apaixonados, ainda mais dos apaixonados não correspondidos.

Os livros de Annie Ernaux são narrados em primeira pessoa, prontos para o teatro e, se a preguiça dominasse, bastaria Fanju se colocar diante de uma mesa e de uma máquina de escrever e começar a chorar as mágoas por um homem que lhe dá menos atenção do que ela gostaria.

A carioca Alessandra Colasanti, de 53 anos, porém, gosta da performance, do exagero e já mostrou isso em seus trabalhos de intérprete e autora, como no solo Anticlássico (2010), em que viveu uma bailarina alucinada que expõe suas experiências e amores. Paixão Simples vai bastante nesta pegada, a de Anticlássico, só que, assim como Ernaux revive o passado com o distanciamento natural do tempo, Colasanti cria a encenação tendo Fanju como um rebatedor para qualquer tipo de excesso.

Poderia ter dado errado. Não deu. Paulista de Ribeirão Preto, Aline Fanju, de 47 anos, se mudou para o Rio de Janeiro aos 17 anos e não se caracteriza como uma atriz econômica. Mais presente no audiovisual que no teatro, ela tem uma personalidade forte em cena, uma imagem que fala e uma voz que não passa despercebida – algo cada vez mais raro no teatro que banalizou a microfonia.

Foto: Lia Maciel

O conjunto destes elementos faze com que Fanju, em uma prova de maturidade, vá além da atriz-narradora que começa a peça materializando o livro em cena, da própria Annie Ernaux que escreveu a história e, sim, crava a autora como um personagem teatral. Afinal, na autoficção, entre a invenção e a memória, talvez quase nada seja tão verdade assim.

Esta liberdade, que pode ser considerada abusiva por alguns, principalmente em relação à adaptação e à direção de Colasanti, resulta em uma autoralidade que justifica a encenação. Sem comparar e apenas exemplificando, o conterrâneo Édouard Louis virou coqueluche teatral brasileira com Eddy – Violência e Metamorfose, Papaizinho e Mulher em Fuga e, nestes espetáculos, existe uma espécie de materialização do escritor em cena, nem que seja pela aproximação de uma semelhança física dos atores João Côrtes e Tiago Martelli, os protagonistas de Eddy – Violência e Metamorfose e Mulher em Fuga.

Fanju, em nada quer se aproximar de Ernaux mesmo em seus 40 e tantos anos, idade da autora na época desta paixão, e o que ela, como intérprete oferece, é outra coisa, algo que valoriza o seu trabalho. Corroborando com isto, existe o cenário kitsch, uma trilha sonora que roda Sufoco, samba gravado por Alcione em 1978, que traduz a angústia da protagonista, e até uma citação instrumental de Chorando se Foi, lambada do grupo Kaoma. No livro, Ernaux evoca o gênero musical de efêmero sucesso na virada para os anos de 1990 em uma associação ao prazer.

Foto: Lia Maciel

Na transposição de uma obra para outra linguagem tudo é possível e não há nada de mal naqueles que preferem levar a um outro veículo uma versão fiel – até porque isso pode evitar dores de cabeças com autores vaidosos que ainda não se descolaram dos seus livros. Colasanti e Fanju, com o aval do idealizador Pablo Sanábio, encararam o risco e deixaram à disposição do público um telhado de vidro que pode lhe render críticas e até cancelamentos.

A Ernaux excessiva do palco só é aceita do jeito que se apresenta porque é fruto da criatividade de duas mulheres – Colasanti e Fanju. Se a adaptação ou a direção fossem de um homem, a discussão descambaria para outros terrenos e, se Colasanti e Fanju não se travaram para mostrar Ernaux sob este desenho, significa que elas são artistas que se preocupam com as suas assinaturas. Se elas não têm medo da escritora francesa, muito menos medo têm do público.

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

Compartilhar em
Sobre
Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

Siga o crítico

InfTEATRO em números

0 peças no site
0 em cartaz
0 colunas
0 entrevistas

Receba as nossas novidades

Ao se inscrever você concorda com a nossa política de privacidade

Apoios e Parcerias

Inf Busca Peças

Data
Preço

Este website armazena cookies no seu computador. Esses cookies são usados para melhorar sua experiência no site e fornecer serviços personalizados para você, tanto no website, quanto em outras mídias. Para saber mais sobre os cookies que usamos, consulte nossa Política de Privacidade

Não rastrearemos suas informações quando você visitar nosso site, porém, para cumprir suas preferências, precisaremos usar apenas um pequeno cookie, para que você não seja solicitado a tomar essa decisão novamente.