Queda de Baleia ou Canto Para Dançar Com Minha Morte
Críticas
É uma performance comovente e repleta de alma.
(British Theatre Guide, Edimburgo, Escócia)
Altamente não convencional e profundamente pessoal,
é diferente de qualquer outro espetáculo que já vi. (…)
A sinceridade, a fisicalidade e a presença de palco cativante de Longo
tornam esta performance memorável.
(The Student News, Edimburgo, Escócia)
Longo assume os papéis tanto de quem vive o luto
quanto de quem é objeto dele… quebrando a solenidade com desvios lúdicos. (…)
Rigorosa em sua recusa em transformar o luto em uma história
linear ou organizada.
(The Scotsman, Edimburgo, Escócia)
A maturidade corporal da atriz ao representar os vários estágios de um corpo
nos faz ter certeza: é um solo de muitas Brunas.
(Jessica Moreira – Morte Sem Tabu – Folha de São Paulo)
O teatro mais disruptivo de São Paulo acontece dentro de um cemitério.
(Esther Miranda – São Paulo Secreto)
QUEDA DE BALEIA OU CANTO PARA DANÇAR COM MINHA MORTE é um espetáculo sobre a morte e, sobretudo, sobre a vida. A partir da morte do pai da atriz e criadora Bruna Longo, a obra investiga o tabu da morte na vida cotidiana, o desaparecimento dos ritos fúnebres nas sociedades capitalistas ocidentais e os mecanismos de medo, silêncio e negação que nos afastam da experiência da finitude.
Realizou três temporadas na Capela do Cemitério do Redentor, em São Paulo, entre 2025 e 2026, e foi indicada ao Prêmio APCA 2025 na categoria de Melhor Atriz. Em maio de 2026, integrou a programação da Virada Cultural de São Paulo e, em agosto, foi apresentada no Edinburgh Festival Fringe, na Escócia. Em outubro, segue para o Festival de Artes Vivas, em Cali, Colômbia.
Os adultos atormentados
pela ansiedade da morte
não são pássaros estranhos
que contraíram alguma doença exótica,
mas homens e mulheres cuja família e cultura
falharam em tricotar as roupas protetoras adequadas
para que resistissem ao frio gelado da mortalidade.
(Irvin Yalom, Psiquiatra)
A dramaturgia por Bruna Longo
“Dia 26 de julho de 2022, às 01:52 da manhã, meu pai morreu. Ao meio-dia seguinte iniciou-se o velório. Às 16:00 seu corpo foi colocado dentro do jazigo da família no cemitério do Araçá, em São Paulo, capital.
O que se seguiu foram dias de burocracias em bancos, cartórios, seguros. Dias que viraram semanas, meses. Nenhum convite a qualquer rito de passagem de uma realidade a outra. De filha a órfã. Todos os paradigmas mudaram subitamente. Nenhum tempo ou espaço para a elaboração. Nada. Não venho de uma família com crenças religiosas. Sou atéia, materialista. Não via, de imediato, nenhum caminho satisfatório para a elaboração da maior dor que já senti na vida.
Dois dias depois da morte do meu pai, passei a usar o barro desse luto como material para meu trabalho. Iniciei o único caminho que a mim parecia possível para essa elaboração. Meu templo é o teatro, minha liturgia é a pesquisa artística, minha reza é a dramaturgia. E esse é o germe deste espetáculo.
Desde a estreia de QUEDA DE BALEIA OU CANTO PARA DANÇAR COM MINHA MORTE em 26 de julho de 2025 (aniversário de três anos da morte do meu pai), minhas primeiras percepções e sensações foram se confirmando e ganhando novas camadas a partir de dezenas de depoimentos, conversas e encontros com o público. Pessoas de diferentes idades, histórias, nacionalidades e experiências compartilham comigo suas perdas, seus medos, seus silêncios e, muitas vezes, a dificuldade de encontrar um espaço onde possam simplesmente falar sobre a morte. Aos poucos, fui percebendo que aquilo que eu havia vivido como uma experiência profundamente íntima também encontrava eco em muitas outras pessoas. A necessidade de falar sobre a morte parece estar apenas aguardando um convite.
A morte é, para nós ocidentais, talvez o último tabu intransponível. Não falamos sobre ela. Não sabemos lidar com ela. No entanto, ela é também a única certeza inevitável. Num período histórico em que guerras, tragédias coletivas, violência, epidemias e pandemias são noticiadas em tempo real como nunca fora possível, e que a indústria cultural capitaliza em cima desses temas com espetacularização, a morte cotidiana se transformou em um assunto velado.
O processo de morte foi higienizado, burocratizado. O avanço da ciência e da medicina prolongou nossas vidas, mas também mudou a forma como morremos. Não se morre mais em casa, mas em hospitais – lugares onde se busca vencer a morte, muitas vezes prolongando o inevitável. Ritos fúnebres são cada vez mais rápidos, padronizados e industrializados, como o boom de cremações comerciais.
A hipervalorização da juventude não quer nos deixar lembrar que morremos. Nós, homo sapiens sapiens. Sempre esquecemos o último sapiens do nosso gênero. Somos humanos que não só sabemos, mas sabemos que sabemos. Para muitos historiadores e antropólogos, o nascimento da cultura humana como a entendemos está ligado ao luto.
A morte inspirou os primeiros ritos humanos, os primeiros hieróglifos, as primeiras histórias contadas em volta da fogueira. O nascimento da filosofia, da religião, da arte. Elaborar o luto inaugura quem somos, e, ao renunciarmos a isso, renunciamos a uma angústia metafísica essencial. Não falar da morte não a afasta, apenas a torna mais temerosa.”
