Você está na cidade de:
Foto: Caio Gallucci
Foto: Caio Gallucci

“Feliz Ano Velho – O Musical” amplia a história de Marcelo Rubens Paiva para um tempo em que questões daquela época voltaram a ser temidas

Com direção de Gustavo Barchilon e dramaturgia de Marília Toledo, o espetáculo dilui a noção cronológica e, apoiado em trilha oitentista, cria conexão com a juventude.

Crítica Por Dirceu Alves Jr.

Houve um tempo em que biografias eram raras. Não era qualquer vida ou fatos elementares que motivariam a escrita de um livro. Autoficção, se existia, não tinha esse nome ou alcançava repercussão. Era inimaginável pensar que algum dia passagens de uma história pessoal costuradas a um contexto social ou político virariam um estilo literário que, apesar da qualidade de alguns autores, reflete o narcisismo contemporâneo e reprime a liberdade ficcional.

Diante deste cenário, o lançamento de Feliz Ano Velho em 1982 representou algo diferente e inovador. A tragédia em si é impactante. Um rapaz de 20 anos, que tocava guitarra, jogava futebol e estudava engenharia agrônoma, mergulha em um lago e fica paraplégico. O pai dele, ex-deputado, era considerado um “desaparecido” do regime militar, sua mãe, uma dona de casa que se tornou advogada, cobrava a responsabilidade do governo e, como o protagonista, milhares de garotos e garotas tentavam enxergar um futuro em um país que caminhava para a redemocratização.

Parece que você conhece estas histórias de outros livros e filmes? Naquele 1982, todas estavam apenas em Feliz Ano Velho, que, para completar o caráter transgressor, trazia personagens que amavam livremente, fumavam maconha e curtiam música em um país sob um regime autoritário. Só que o protagonista, Marcelo, de 20 anos, aquele que ficou paraplégico depois de mergulhar no lago, contou essa história em livro sem um tom de autopiedade e criou um retrato geracional daqueles que nasceram ou cresceram impactados por 1964.

Foto: Caio Gallucci

Feliz Ano Velho estourou nas livrarias e, no ano seguinte, chegou ao teatro em uma dramaturgia de Alcides Nogueira encenada por Paulo Betti que projetou atores e atrizes como Marcos Frota, Lilia Cabral, Denise Del Vecchio e Adilson Barros (1947-1997). Em 1988, a versão cinematográfica, dirigida por Roberto Gervitz, ganhou as telas em um filme que, quase quatro décadas depois, soa desconectado da obra que o inspirou. Esteticamente datado, parece mais um videoclipe em longa-metragem protagonizado por Marcos Breda, Malu Mader e Eva Wilma (1933-2021).

No país que quer ser do teatro musical demorou para Feliz Ano Velho virar um derivado do gênero e o que se pode dizer é que, felizmente, o tempo foi sábio. Sob a direção de Gustavo Barchilon e com dramaturgia escrita por Marília Toledo, Feliz Ano Velho – O Musical reúne os ingredientes do livro sem escorregar no saudosismo, no discurso político ou em excessivos heroísmos. O espetáculo, em cartaz no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo, carrega a principal qualidade da obra literária desenvolvida por Marcelo Rubens Paiva nas décadas seguintes: a partir de um fato íntimo e pessoal, ele minimiza a sua personalidade a um extremo que o faz ficar identificável a qualquer pessoa, o caminho oposto daquele que se vê nas atuais autoficções.

Em Ainda Estou Aqui, o seu livro que inspirou o filme de Walter Salles, vencedor do Oscar em 2025, Eunice Paiva, antes de ser Eunice Paiva, é uma mãe disposta a tudo para criar os filhos depois que uma desgraça ameaça destruir a sua família. O Novo Agora, seu mais recente livre, é sobre o Marcelo que virou pai em uma idade que já poderia ser avô e os contrastes e maravilhas em relação a sua educação e aos modelos de um mundo totalmente diferente do que era há três ou quatro décadas.

Foto: Caio Gallucci

Assim como no livro, Feliz Ano Velho – O Musical é, obviamente, sobre o mesmo Marcelo, mas, principalmente, sobre um rapaz cheio de energia que precisa reinventar um futuro, porque aquele que lhe estava reservado não existe mais. E, focando no mesmo futuro, pelo menos no daquele Marcelo que mergulhou no lago em 1979, Feliz Ano Velho – O Musical encontra o seu diferencial como espetáculo.

A história, desta vez, começa revista pelo próprio Marcelo nos dias atuais, sessentão, confortável dentro do possível em sua cadeira de rodas, escritor consagrado em um programa de entrevistas para a televisão. O recurso serve como um prólogo para a introdução da história e, se neste começo, Paiva é representado pelo ator Bruno Garcia, cabe ao ator Hugo Bonèmer interpretá-lo ao longo da peça, tanto na euforia da juventude quanto no sofrimento imediatamente seguinte ao acidente.

Da mesma forma que Barchilon e Marília decidiram que Feliz Ano Velho – O Musical não seria um espetáculo sobre o acidente, mas sim sobre a reconstrução de uma jornada pessoal e profissional, a noção de tempo é diluída de um jeito quase enganador para o público. Nada na narrativa abandona o contexto do começo da década de 1980, mas em momento algum, mesmo nos figurinos, isto é explicitado.

Foto: Caio Gallucci

Sutilezas como as gravações simultâneas de cenas projetadas ao vivo, com as câmeras de vídeo-tape que despontavam naqueles tempos, podem ser associadas aos celulares de hoje e mínimas são as citações datadas, como a do tênis da marca Bamba e à da ex-atriz Lídia Brondi como símbolo sexual. Mesmo as cenas que enfocam a ditadura e a prisão de Rubens Paiva (também interpretado por Garcia) não são localizadas com exatidão no tempo o que, bate na madeira, não deixa de simbolizar um perigo ainda iminente.

O grande desafio de Barchilon e Marília era a definição de uma trilha sonora. Encomendar a composição de canções originais seria um risco desnecessário, capaz de descaracterizar o conjunto da obra. Recorrer aos clássicos do pop rock dos anos de 1980, sob a direção musical de Carlos Bauzys, foi realmente a solução mais sábia. Mesmo que para as novas gerações, digo aqueles nascidos em 2008 ou 2010, por exemplo, estes temas possam parecer “música de velhinho” não é nada tão fora de execução que eles não possam ter ouvido por aí em uma festa, graças às preferências dos maduros que insistem na juventude.

É bonito ver canções bastante conhecidas ressignificadas como é o caso de Cuide Bem do seu Amor, dos Paralamas do Sucesso, entoada por Heloísa Périssé, no papel de Eunice, ao lado do leito do filho. Os momentos de maior dramaticidade ficam por conta de Que País É Esse?, da Legião Urbana, com a atriz e cantora Matilla tomando a frente do coro, e O que Será? (A Flor da Terra), de Chico Buarque, conduzida por Périssé, no enfrentamento dos militares.

Foto: Caio Gallucci

Da mesma Legião aparecem Tempo Perdido, Será e Geração Coca-Cola, o enérgico número coletivo de abertura, Cazuza é representado por O Tempo não Para e, indiretamente, por Vida, Louca Vida, composição de Lobão, e a banda Ira! é revivida com Flores em Você. Sexo, do Ultraje a Rigor, Doce Vampiro e Mania de Você, de Rita Lee, e Aa Uu, dos Titãs, são destaques da trilha bem elaborada que, mesmo quando destoa do contexto da época, caso de É Preciso Saber Viver, canção composta por Roberto e Erasmo Carlos em 1968 resgatada pelos Titãs somente três décadas depois, se justifica como dramaturgia.

É nítido o amadurecimento como intérprete de Hugo Bonèmer na pele do jovem Marcelo. O ator, conhecido por musicais como Hair (2010), Rock In Rio (2012) e Ayrton Senna (2018), equilibra a fragilidade e a revolta, a tristeza e uma relativa ironia e canta bem – o que, como proposta, não é exigido de todo o elenco, mas enriquece o resultado, no caso de um protagonista. Heloísa Périssé acerta ao sobrepor a emotividade materna para desenhar a determinação de Eunice e se garante nos números musicais justamente por colocar a atriz à frente da cantora. Bruno Garcia, por sua vez, encontra mais espaço para se projetar como intérprete do Marcelo maduro que como o deputado Rubens Paiva, que, talvez para não pesar no drama, parece diluído na narrativa.

Surpreendente é a qualidade do elenco coadjuvante, não só pela eficiência do time como pela experiência e o reconhecimento dos nomes escalados. Ingrid Gaigher é cativante em cada uma das suas aparições e consegue se firmar como a mocinha de uma peça em que há pouco espaço para tal posto. João Côrtes, Mateus Ribeiro e Renan Mattos (como o editor Caio Graco) em participações pontuais são presenças destacadas.

Foto: Caio Gallucci

Correndo por fora e com força natural, a atriz Tuna Dwek chama a atenção principalmente na cena em que representa a avó de Marcelo, e o ator Luciano Mallmann é uma presença simbólica que transcende o signo. O artista cadeirante aparece como um apresentador de televisão, um militar e o médico que trata do protagonista e serve de voz para as mensagens encorajadoras. Completam o elenco Abrahão Costa, Bibi Tolentino, Giselle Lima, Lázaro Menezes, Lia Canineu, Sabrina Korgut e a já citada Matilla.

Na década de 1980, o livro Feliz Ano Velho levou milhares de jovens às livrarias em busca de uma obra de identificação imediata e capaz de refletir angústias comuns. Parte deste sucesso foi transferido para a adaptação teatral, lembrada por muita gente daquela geração até hoje, e se o filme não obteve a repercussão esperada se deve a uma estética excessivamente fria que congelou as expectativas.

Feliz Ano Velho – O Musical tem tudo o que costuma agradar aos fãs do gênero e deve atrair um público jovem que não tem o hábito de frequentar teatro. Depois das apresentações em São Paulo, o espetáculo começa temporada em janeiro no Teatro Riachuelo, no Rio, e deve correr o Brasil durante o próximo ano inteiro.

Foto: Caio Gallucci

Lá, em 1983, o livro e a peça aproveitavam um caminho aberto com a contracultura literária e teatral, que, nos palcos, tinha entre seus representantes o grupo Asdrúbal Trombone, dirigido por Hamilton Vaz Pereira, e mostrava uma vida real que, apesar dos pesares da época, podia ser boa. O teatro musical brasileiro, consolidado nas últimas duas décadas, tem infinitas qualidades, mas carrega um caráter escapista que privilegia excessivamente o entretenimento em detrimento da mensagem.

Se o final feliz é obrigatório no gênero, o espectador pode comprar seu ingresso descansado porque Marcelo Rubens Paiva segue reescrevendo muito bem o seu futuro e nenhuma tristeza vai pegá-lo de surpresa antes dos aplausos. Feliz Ano Velho – O Musical é contagiante, emotivo e, pode se dizer, em alguns momentos, até surpreendentemente leve sem ser fútil.

Não é show e não é biografia, apesar de inspirado em um romance biográfico. É uma história com dramas pessoais, viradas dramáticas, forte contexto político, superações e retrocessos, sexo e alguma diversão, mais ou menos como é a vida real e, diante dos jovens, isto pode fazer uma grande diferença e estimular reflexões. Ainda mais em um tempo em que voltamos a discutir e temer questões que assustavam naquela época.

Foto: Caio Gallucci

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

Compartilhar em
Sobre
Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

Siga o crítico

InfTEATRO em números

0 peças no site
0 em cartaz
0 colunas
0 entrevistas

Receba as nossas novidades

Ao se inscrever você concorda com a nossa política de privacidade

Apoios e Parcerias

Inf Busca Peças

Data
Preço

Este website armazena cookies no seu computador. Esses cookies são usados para melhorar sua experiência no site e fornecer serviços personalizados para você, tanto no website, quanto em outras mídias. Para saber mais sobre os cookies que usamos, consulte nossa Política de Privacidade

Não rastrearemos suas informações quando você visitar nosso site, porém, para cumprir suas preferências, precisaremos usar apenas um pequeno cookie, para que você não seja solicitado a tomar essa decisão novamente.