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Foto: Vange Milliet
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José Rubens Chachá é mais artista que ego em “O Nome do Tango”, monólogo que trata de memória e política

O ator e dramaturgo, sozinho no palco pela primeira vez, busca referências na literatura e na repressão argentina para falar de apagamentos

Crítica Por Dirceu Alves Jr.

Vários elementos são incorporados à encenação de O Nome do Tango mesmo antes de a peça começar. Para assistir ao primeiro solo escrito e protagonizado pelo ator José Rubens Chachá, o espectador atravessa as ruas do bairro dos Campos Elíseos como se fizesse uma viagem a dois tempos distintos, a do passado de uma São Paulo em iminente degradação e a de um futuro distópico encarregado de destruir o que já foi belo.

Chegando ao Teatro Estúdio, o público sobe uma escada íngreme para acessar a diminuta Sala Experimental, localizada no segundo andar, e, diante das 30 cadeiras, o que está por vir logo se enquadra no indefectível rótulo das “experiências” que só serão assim em data e local específicos. Clichê do teatro? Neste caso, nem tanto, ainda mais nos dois próximos finais de semana.

O pacto entre o artista e o público começa antes de Chachá ocupar o lugar na cena. O Nome do Tango, sob a direção de Maíra Chasseraux, é um espetáculo de voyeur na busca permanente da identificação sem apelar para as obviedades. Dada a proximidade da boca de cena, o pagante pode se sentir dentro do apartamento do protagonista, o escritor Lucho Cervan. Assim que Chachá, porém, começa a apresentação é estabelecido um distanciamento desafiador que emoldura o palco como se fosse uma tela de cinema ou a janela de um vizinho observada do outro lado da calçada. Cervan não é Chachá e, desta forma, o ator e o dramaturgo se agigantam por causa do personagem.

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O recurso da “janela indiscreta” tem mais a ver com a proposta, tanto em relação à cápsula do tempo como às memórias de Lucho Cervan reduzidas a fumaça. Tudo está perto e, para o bem da ficção, deve parecer longe. É assim que o grande escritor, aos 80 e poucos anos, nominado diversas vezes ao Nobel e traduzido para idiomas praticamente intraduzíveis, se encontra no final da década de 1990, mais precisamente em 1998.

Muitas coisas, ele queria se esquecer para sempre. Estas, entretanto, são as mais difíceis de serem esquecidas. Sobre outras, as que sempre foram mais simples antes no seu dia a dia, Cervan não consegue se coordenar, como evoluir na escrita de um livro ou, pelo menos, se lembrar de que já falou com a secretária de seu editor naquele mesmo dia.

Cervan luta a cada minuto contra a demência. Os poucos telefones importantes aparecem anotados em uma cartolina pregada na parede. São os números da farmácia, do filho, Augustin, que vive na Europa, da faxineira, de Gaia, o editor, personagem absolutamente presente mesmo em sua ausência física, signos da solidão em um tempo em que para fazer uma ligação não bastava tocar em uma tela.

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O protagonista sofre apagões constantes. Ideais aparecem e somem na fração de segundos. O homem que recorreu ao surrealismo para denunciar a ditadura militar na sua obra e, se sofreu na pele, também foi conivente com o autoritarismo não consegue reter a informação urgente. A dúvida permanente sobre o título de uma canção representa de tudo isso um pouco – a relação conturbada com o filho, a incapacidade de criação literária, o passado que gostaria de apagar e a persistência em negar o adeus a tudo o que construiu ou destruiu.

Nesta multiplicidade de vetores, os significados saltam em um texto e uma encenação de múltiplos sentidos. Grande artista, acostumado a figurar entre os colegas na coletividade do palco, Chachá se coloca sozinho em cena aos 74 anos e teatraliza a solidão e o apagamento naquele que é o seu monólogo de estreia. O fato diz muito sobre a sua geração e a relação com o fazer teatral – a relevância da contracena como um ato democrático e jamais individual.

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Com cinco décadas de carreira, Chachá participou de musicais quando não era moda, a exemplo de Ópera do Malandro, de Chico Buarque, sob a direção de Luiz Antônio Martinez Corrêa (1950-1987), conheceu a consagração no Teatro do Ornitorrinco, companhia anárquica comandada por Cacá Rosset da qual foi integrante por 15 anos e, mesmo marcado como comediante, transitou por diferentes gêneros. Um de seus personagens mais famosos é a representação do poeta Oswald de Andrade (1890-1954) na peça Tarsila, escrita por Maria Adelaide Amaral, replicada na série de televisão Um Só Coração, exibida pela Rede Globo em 2004.

Se fosse excessivamente vaidoso, Chachá poderia se concentrar em suas experiências, a de um artista que viveu a ditadura militar brasileira e chegou a uma maturidade que, em maior ou menor grau, deve começar a dar sinais de limitações, para escrever uma peça. Preferiu, no entanto, ser mais artista que ego para, através de um contraditório personagem, sem brechas para o heroísmo e capaz de dispensar qualquer referência em primeira pessoa fugir do discurso autocentrado.

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Chachá cria a história de um homem que se conecta a muitos outros e busca na literatura e na ditadura militar argentina – e não no teatro e na ditadura militar brasileira – as bases para se apresentar como um sujeito que, se não chega a ser exatamente seu contemporâneo, viveu ou, quem sabe, vive dores próximas. É o personagem e o ator misturados e não o ator sobreposto ao personagem.

Em um momento de discussões acirradas em torno da defesa da democracia, O Nome do Tango e Lucho Cervan dizem muito sobre o Brasil sem explicitar a mensagem. A repressão militar argentina, que conheceu o ápice entre 1976 e 1983, é a que atingiu diretamente Lucho Cervan, e o general Jorge Rafael Videla (1925-2013) é o maior vilão da história do país e, em parte, da vida do protagonista. Sem cair no spoiler, o drama de Cervan diz respeito ao nascimento do filho, Augustin, e o destino de sua mulher, Eva Galindo, descrita sob diferentes perfis ao longo da peça por um protagonista carente de coerência.

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O Nome do Tango poderia ser um espetáculo construído pelos afetos. O intérprete veterano que escreve para si mesmo em razão da celebração das cinco décadas de carreira e chama a filha, a atriz Maíra Chasseraux, para dirigi-lo, ela que é uma estreante na função. Quem sabe, tenha sido o contrário – a filha artista que provocou o pai a escrever a dramaturgia e, para viabilizar o projeto e se desafiar, assumiu a cadeira de encenadora em uma produção da sua recém-criada Cia. Fotiá.

Não interessa. Tanto Chachá quando Maíra abriram mão desta responsabilidade para criar uma montagem que pode ser de qualquer outro intérprete, inclusive de uma atriz, com as devidas adaptações de gênero que não descaracterizariam a narrativa. O Nome do Tango é muito mais sobre os outros que sobre eles.

Nesta construção racional, Chachá e Maíra pregam um distanciamento cada vez menos visto no teatro, a separação entre ator e personagem, entre pai e filha que trabalham juntos, entre público e espectador que compartilham a tal “experiência”. É inegável que falar das ditaduras latino-americanas neste momento e, especialmente nestas últimas semanas, ganha outra conotação.

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Chachá e Maíra poderiam intuir a atualidade da discussão, mas nunca serem tão certeiros, ainda mais em relação ao calendário. Por isso, O Nome do Tango é um espetáculo urgente para compreender mais sobre memórias que devem permanecerem vivas e outras que muitos insistem em apagá-las. Chachá, ator setentão que era jovem há 50 anos, sabe bem os motivos que o levaram a se dedicar à arte da atuação e, hoje, ele e Maíra sabem por que querem levar o público ao teatro.

O Nome do Tango conecta passado, presente e futuro, ficção e realidade, como poucos espetáculos das últimas temporadas e, no meio de tanta razão, comove por estabelecer uma saudável separação do público.

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

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Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

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