Por 25 anos, Filumena Marturano nunca chorou. Pelo menos, diante daquele que um dia ainda seria o seu marido, Domênico Soriano. Ela não podia demonstrar nenhuma fraqueza perto do homem – como muitas mulheres acreditam que não podem até hoje para não perderem crédito no ambiente em que for.
Filumena sempre foi o que se chama de pé de boi. Trabalhou como escrava para o sujeito que a atirou de um bordel na juventude, mas nunca a assumiu como esposa. Festeiro e garanhão, Soriano vivia fora em longas viagens de negócios recheadas de diversão. Era Filumena quem segurava o tranco nas empresas que ele herdou da família nestas ausências. Para o macho, era uma resposta de gratidão.
Moribunda, Filumena recebeu a visita de um padre para lhe dar a extrema-unção. Vai bater as botas, coitada, pensou Soriano. Que tristeza, que alívio – até porque a jovem Diana já ronda o território e exigiria ser a dona da casa. O padre foi taxativo: “Case in extremis com essa pobre mulher, é o último desejo dela. Sele esse laço com a bênção de Deus”.

Parecia uma questão de duas horas – e ela morreria. Domênico Soriano se casou para enviuvar. Filumena Marturano, enfim, ganhava o reconhecimento de esposa legítima e, com isso, os três filhos dela, criados longe dos olhos de Soriano, conquistariam garantia legal de futuro.
Só que tudo não passou de uma farsa, e Filumena Marturano (interpretada por Sandra Corveloni) passou de pobre-coitada com o pé na cova para a esperta que manipulou Domênico Soriano (papel de André Garolli). Ela se fingiu de quase-morta e, agora, o homem, que sempre se considerou um sabichão, solta fogo pelas ventas por ter sido enganado pela mulher que saiu da pobreza por sua causa e a quem ofereceu tantas oportunidades. Você já ouviu esse discurso?

É nas muitas maneiras que discursos como este podem ser interpretados, sejam nas relações familiares, amorosas ou profissionais, que o espetáculo do Grupo Tapa, dirigido por Eduardo Tolentino de Araujo, salta da mera diversão para uma reflexão sobre o papel da mulher da sociedade que não se limita ao terreno matrimonial. Em cartaz no Teatro do Sesi, em São Paulo, a peça do italiano Eduardo De Filippo (1900-1984), assim como Filumena, pode parecer bobinha, ingênua, mas de bobinha não tem nada.
“Não me venha falar na malícia de toda mulher”, imortalizou Gal Costa (1945-2022) nos versos escritos por Caetano Veloso para Dom de Iludir. Filumena conseguiu o que sempre quis e, no que dependesse do agora marido, jamais levaria por livre espontânea vontade, assim como uma empregada na relação com o patrão que busca à força os seus direitos. Teve como cúmplice a velha e humilde Rosália (a atriz Maria do Carmo Soares), a “verdadeira empregada da casa”, que viu Filumena crescer no cortiço onde morava, e, para completar a camaradagem trabalhista, conta com a vista grossa de outro criado, o cocheiro Alfredo (o ator Walter Breda), sempre às voltas com o patrão.

Filumena Marturano foi escrita em 1946, na ressaca da Segunda Guerra, quando a Itália amargava as consequências da destruição do conflito mundial. Nada se fala de política ou violência, mas tudo está nas entrelinhas. A personagem-título é uma das tantas mulheres que precisou ir à luta, com as armas disponíveis, para garantir a sua sobrevivência e a dos filhos. Tanto faz se na Itália, na América ou no Brasil.
Ela tem três, Michaele, Ricardo e Umberto (vividos, respectivamente, por Ivan Nobrega Felipe Souza e Ruiz Angellus), cada um com um perfil diferente, e que, na cabeça dela, não precisam passar necessidades já que Soriano esbanja tanto o que tem. Na hora da revelação, Filumena é lacônica. Um deles é seu filho – não interessa qual, até porque filho é tudo igual, diz a recém-casada.

No Brasil, Filumena Marturano é uma peça pouco conhecida do dramaturgo Eduardo De Filippo, mais lembrado por Sábado, Domingo e Segunda (1959), sobre o cotidiano de uma família napolitana, e A Arte da Comédia (1964), que trata das relações entre artistas e políticos. No ano passado, o diretor Marcelo Lazzaratto montou em São Paulo A Grande Magia, de 1948.
Filumena Marturano é mais citada por uma tragédia: a morte da atriz Yara Amaral (1936-1988) no naufrágio da embarcação Bateau Mouche, no Rio de Janeiro, a poucos minutos do réveillon de 1989. Na época, a artista protagonizava a peça no Teatro dos Quatro, na capital fluminense, contracenando com José Wilker (1944-2014) sob o comando de Paulo Mamede. O papel foi assumido por Nathalia Timberg em dez dias, mas a carreira não foi além daquela temporada. Talvez tenha ficado um pudor da classe em revisitá-la. É uma explicação já que, inegavelmente, o texto oferece dois grandes personagens, um feminino e outro masculino, capazes de agradar a qualquer intérprete.

Com o olhar certeiro, conquistado pela intimidade junto a seus atores e atrizes, Eduardo Tolentino de Araujo explora o que de melhor e genuíno Sandra Corveloni e André Garolli têm a oferecer. Os dois trabalham com o diretor há três décadas e, irrepreensível nas escalações, Tolentino quase sempre decodifica mensagens que vão além do texto na presença de seus artistas.
Sandra tem a alma de mulher do povo, simples na raiz, batalhadora na essência, determinada nos objetivos. Assim, solidificou uma carreira que já lhe rendeu louros impensáveis, como o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2008 pelo filme Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, vivendo uma diarista às voltas com os filhos no limite da lei. Na pele de Filumena, pode ser doce e manipuladora sem parecer, uma pessoa que percorre atalhos e estes até se parecem justificáveis. Vindo de Sandra, tudo se acredita.

Garolli é inegavelmente um galã nato e de talento e, mesmo quando desvia do perfil, é sempre um galã. Fortalece a decepção de Domênico Soriano, inconformado com o golpe na posição abalada de macho alfa, além de ressaltar o peso da passagem dos anos e o sentimento de decadência daqueles que, mesmo lutando contra, sabem que já viveram dias de mais abundância.
Em meio ao domínio de Sandra e Garolli, no time coadjuvante, Maria do Carmo Soares e Walter Breda são mais que a sombra daqueles a quem servem. Com experiência e tarimba no jogo cênico, encantam a plateia com uma habilidade que foge da caricatura trivial comum de ser depositada nos criados.

Entre o trio de filhos, os estereótipos se sobressaem mais entre Nobrega e Souza, enquanto Angellus vai na esteira da dupla. Com menos possibilidades, Luísa Ferrari (Diana, a noiva), Mari Teixeira (a criada Lucia) e Daniel Volpi (o advogado Nocella) completam o time sem destoar na afinação.
O cenário de Flávio Tolezani reproduz a casa burguesa e cafona que se esquiva de uma certa decadência e, principalmente, o desenho de luz, criado por Wagner Pinto, multiplica os espaços e o tempos. Mesmo mais convencionais, os figurinos de Marianna Baffa colaboram para a atmosfera da segunda metade da década de 1940.

Em um tempo em que o engajamento é cobrado até dos postes, o Grupo Tapa é macaco velho o suficiente para ter a certeza de que sempre soube se posicionar sem precisar ser explícito – e dane-se quem não quiser entender. O coletivo fundado em 1979 no Rio de Janeiro e sediado desde 1987 em São Paulo atravessou diferentes correntes do teatro brasileiro e, mesmo diante das mais impositivas, se manteve firme nas convicções. A melhor resposta de Tolentino para todas elas foi o apuro formal e o rigor técnico de suas montagens e, junto disto, vem a mensagem devidamente captada há mais de 40 anos.

Filumena Maturano pode ser incompreendido por aqueles que desejam bandeiras explícitas, mas é um espetáculo que fala de um tipo de feminismo que coloca as mulheres como senhora de suas ações. Neste caso, elas são dominadoras, mesmo disfarçadamente, em relação a homens que pensam que são fortes e acabam tragados pelo ego. A peça trata de insubmissão pessoal, social e trabalhista, manipulações que justificam os fins e, mais uma vez, de mulheres que comandam o desfecho da história.
No final da peça, Filumena chora na frente de Soriano. E ele, pai de três filhos, nos braços da companheira de uma vida toda, também.
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