Duas indiscutíveis referências de uma geração insubstituível, os compositores Chico Buarque, 81 anos, e Caetano Veloso, 83, construíram uma obra de características diferentes. Enquanto Chico sempre foi um letrista narrativo, Caetano elabora suas canções com uma linguagem discursiva e imagética.
Terceiro elemento fundamental deste time de autores que despontou na década de 1960, Gilberto Gil, de 83 anos, sempre foi o mais livre, seja nas temáticas abordadas ou na musicalidade, terreno este em que ele sempre se sobressaiu aos ilustres colegas sem alimentar qualquer rivalidade. Quanto às letras, Gil construiu uma obra independente, protegida de comparações, que transita entre reflexões filosóficas ou hedonistas, poéticas canções de amor e políticas e, entre elas, letras narrativas ou discursivas.
Entre suas composições narrativas uma das mais conhecidas é Domingo no Parque, obra-prima de um jovem artista de 25 anos lançada no 3º Festival da Música Popular da TV Record, em 1967, e premiada com a segunda colocação. O primeiro lugar foi de Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, o terceiro ficou com Roda Viva, de Chico, seguido por Alegria, Alegria, de Caetano.
A composição de Gil tornou-se um sucesso e clássico do emergente movimento tropicalista ao contar a trama de um triângulo amoroso – o rei da brincadeira, Jozé, o rei da confusão, João, e a musa Juliana – que acaba em tragédia. Um argumento de roteiro pronto para ser desenvolvido, capaz de gerar filme, série, novela ou peça, uma história que só dialoga com outra linguagem agora, quase 60 anos depois da apresentação naquele festival.

O responsável pela tarefa é o diretor Alexandre Reinecke, que ainda assumiu a função de dramaturgo e montou Domingo no Parque, Um Musical Brasileiro, espetáculo em cartaz no Teatro Claro, em São Paulo, depois de uma gestação de três décadas. Vale ressaltar que, em meados da década de 1990, mal se produzia musical no Brasil. Era um empreendimento solitário de dois ou três encenadores, e a indústria consolidada a partir dos anos de 2000 com produções originais ou derivados da Broadway parecia uma perspectiva delirante.
Reinecke, que nem tinha chegado aos 30 anos, era apenas um ator que desejava ver Domingo no Parque em cena para, talvez, apenas atuar. Foi escrevendo aos poucos, parou, retomou e aqui estamos. Somente nos primeiros anos de 2000 começaria a construir a sua ascendente carreira de diretor que, acumulando um sucesso atrás do outro, a maioria no território da comédia, chegaria a 2025 somando 59 peças assinadas. Desde 2002, Reinecke dirigiu, entre outros, Beatriz Segall (1926-2018), Elias Andreato, Denise Weinberg, Dan Stulbach e Reynaldo Gianecchini e, no momento, tem em cartaz, a comédia Toc Toc, que pode ser vista no Rio de Janeiro, e o drama Um Dia Muito Especial, que retorna a São Paulo neste fim de semana.
Domingo no Parque, Um Musical Brasileiro é sua 60ª peça e a primeira no gênero musical, um projeto concretizado com o sabor de estreia embalado por toda a energia de uma “primeira vez” e movido pelo sonho, com a responsabilidade de quem tem uma estrada e a euforia de quem debuta em uma empreitada. É assim que Domingo no Parque, Um Musical Brasileiro deve ser visto e até admirado, como o resultado da obra de um diretor que sempre se mostrou mais intuitivo que cerebral e comemora uma maturidade sem perder o frescor.
A história criada por Reinecke coloca a música e os personagens de Gil na Salvador do começo da década de 1970, período brabo da ditadura militar comandada pelo general Emílio Garrastazu Médici (1905-1985). O feirante Jozé (interpretado por Alan Rocha) é um tipo ingênuo, pacífico, criado pela avó, uma mãe-de-santo (papel de Adriana Lessa), e que teve os pais desaparecidos por questões políticas. Ele só pensa em tocar a vida, ganhar dinheiro na sua barraca e, de coração mole, se apaixona com a mesma rapidez que as frutas amadurecem.

Depois de anos, ele reencontra o amigo João (representado por Guilherme Silva), operário da construção civil, adepto da farra e de cabeça-quente, daqueles que por onde passa deixa um rastro de pólvora. Os dois cresceram no mesmo bairro e, no fim da adolescência, João engravidou Juci (vivida por Badu Moraes), com quem se casou e, aos trancos e barrancos, os dois criam o filho, um garoto de 7 para 8 anos. A afinidade do passado volta a conectar Jozé e João, que, mesmo em meio às visíveis diferenças, se reaproximam.
O tímido Jozé se encantou com uma cliente que faz compras em sua barraca, a cantora Juliana (papel de Rebeca Jamir), que lhe convida para assistir ao seu show uma noite dessas. Como precisa de um empurrão, o feirante convida João para acompanhá-lo. Para a surpresa de todos, o operário sangue-quente namorou a moça no passado e, como se casou com Juci mais por hombridade que paixão, sente o coração acelerar novamente.
Juliana, por sua vez, incapaz de ficar indiferente às injustiças cometidas pelo governo, é uma militante política e, mãe de um menino de 8 anos, sente culpa por colocá-lo em risco ao participar das ações partidárias. Ainda mais porque “ele não tem pai”.
Várias pontas começam a ser alinhavadas para culminar na tragédia urbana descrita por Gil na canção e, em um domingo, em um passeio no parque, o rei da brincadeira vê Juliana em uma roda gigante com o rei da confusão, uma rosa e um sorvete na mão. O espinho da rosa fere Jozé, e o sorvete gela o seu coração.
Sob a direção musical de Bem Gil, Domingo no Parque, Um Musical Brasileiro é embalado por um quarteto precioso de instrumentistas que faz toda a diferença, Bruno Di Lullo (baixo), Daniel Conceição (bateria e percussão), Gabe Fabbri (arranjos e regência) e Mano Jotta (violão, guitarra e cavaquinho).

A maior parte das canções apresentadas, cerca de 20, na íntegra ou parcialmente, renovam sonoridades e se tornam um dos principais atrativos da montagem. Surpreende a teatralidade de algumas versões, como as de A Novidade, Pessoa Nefasta e solo de Badu Moraes em Preciso Aprender a Só Ser. Badu é uma intérprete de grande força cênica e capacidade vocal que confirma aqui o seu talento.
Entre os números coletivos, Cálice, parceria de Gil e Chico, ainda vai encontrar a dose certa de emoção para promover o impacto cênico pretendido, assim como Canção do Subdesenvolvido, de Carlos Lyra (1933-2023), deve crescer ao longo da temporada em sua dose de ironia e crítica social.
Das canções escolhidas, apenas Retrato em Branco e Preto, composta por Tom Jobim (1927-1994) e Chico Buarque, destoa do repertório, tanto pela intenção de registrar as apreensões dos personagens Mãe Preta, Juci e Jozé como pela representatividade nula em relação a Gil.
Quanto aos intérpretes, se Badu Moraes carrega naturalmente o brilho de estrela, os demais colegas no time protagonista mesmo que não se destaquem com a mesma intensidade constroem bem seus personagens. Guilherme Silva desenha com firmeza o caráter explosivo de João, abrindo camadas para aflorar uma frustração acumulada diante das suas decisões de vida. São pontuadas as cenas em que ocorrem as suas transformações de caráter, e Silva conduz com sensibilidade uma tênue virada no personagem depois que conhece o filho de Juliana.
Alan Rocha interpreta a ingenuidade de Jozé, jeito simples e infantil, que mostra a inabilidade diante de situações básicas de um adulto. O esforço em sublinhar essa inocência, entretanto, faz parecer abrupto demais o desfecho do personagem. Até por se apresentar sempre tão frágil e até covarde, o ato – quer dizer, o crime – cometido por Jozé surge deslocado da construção psicológica do personagem e seria mais coerente se atribuído a João. Só que, assim, a história seria outra.
Rebeca Jamir, que se destacou em As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão e O Bem-Amado Musicado, dirigidos respectivamente por Sergio Módena e Ricardo Grasson, dosa os ingredientes dramáticos e musicais com sensualidade e talento. A atriz promove um distanciamento de Juliana sobre Jozé que reforça o caráter fantasioso da paixão do rapaz e chega ao seu auge nas cenas com João e Juci em que entra em questão a figura do filho. Presença pontual, Adriana Lessa atua muito mais como uma entidade que permeia a ação, e a sua melhor cena, na reta final, é quando canta Iansã, parceria de Gil e Caetano, o anúncio do desfecho trágico.

Como dramaturgia, Domingo no Parque, Um Musical Brasileiro é mais resolvido em seu primeiro ato, mesmo que sobrem momentos dispensáveis de humor – o que é natural na linha criativa de Reinecke. O segundo ato, mais denso e curto, acelera demais os acontecimentos, e problemáticas importantes para a conclusão são esvaziadas. O debate político e social, por exemplo, reforçado pela cenografia criada por Marco Lima, é pouco aprofundado e este seria um canal que geraria maior conexão com os dias atuais.
Domingo no Parque, Um Musical Brasileiro, porém, tem um grande mérito se comparado a outros exemplares do gênero. Apesar do tema falar de assuntos sérios, como repressão militar e feminicídio, é um musical leve em suas características e sem a pretensão de se aproximar de um similar da Broadway. Está mais preocupado em contar uma história que montar cenas para exibir o virtuosismo do seu elenco e, por isso, se mostra brasileiro. É um reflexo direto e saudável de Reinecke ser um estreante e ter montado Domingo no Parque como se fosse uma de suas tantas peças só que, desta vez, emoldurada por uma trilha sonora que ajuda a contar a história.
Entre as suas contribuições futuras, Domingo no Parque, Um Musical Brasileiro pode inaugurar uma tendência para o mercado tão saturado dos musicais, quase sempre apoiados em biografias. Assim como a literatura é fonte constante de inspiração para o audiovisual e o teatro, as canções brasileiras podem render estimulantes dramaturgias e, assim, teríamos novidade.
Em 1994, o cineasta Cacá Diegues (1940-2025) realizou o filme Veja Esta Canção, formado por quatro episódios baseados em canções de Jorge Ben Jor, Caetano, Chico e Gil. Deste último, o tema escolhido foi Drão, que, nas telas, retratou a separação de um jovem casal interpretado por Pedro Cardoso e Debora Bloch. De onde veio esta, tem outras tantas e podem sair propostas interessantes.
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