Dois dos principais momentos de Gal, O Musical são embalados por Vapor Barato e Recanto Escuro. Quarenta anos separam a criação das duas canções. A primeira foi composta por Jards Macalé (1943-2025) e Waly Salomão (1943-2003) em 1971 e a segunda, assinada por Caetano Veloso, é de 2011. Apresentadas praticamente em sequência, elas comprovam a ambição da dramaturgia construída por Marilia Toledo e Emílio Boechat para o espetáculo sobre a vida e a obra da cantora Gal Costa (1945-2022), em cartaz no 033 Rooftop do Teatro Santander, em São Paulo.

A função de uma música em uma montagem deste gênero não é costurar as cenas ou contribuir para acelerar a emoção dos espectadores. No teatro, ela deve ajudar a contar a história e, assim, oferecer ferramentas para a compreensão do público, ao contrário de um show, em que não necessariamente a ordem do roteiro desencadeia uma trama. Vapor Barato e Recanto Escuro são ouvidas – e vistas – quase na reta final da peça, cronologicamente situada nos primeiros anos da década de 1990, quando Gal, deprimida, encara uma descida aos seus porões em busca do autoconhecimento.
“Oh, sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer, que eu tô indo embora”, canta Walerie Gondim, a intérprete de Gal na montagem, em uma retirada estratégica da personagem no frio de seu apartamento de Nova York. A canção, hino da contracultura dos anos de 1970, muitas vezes associada aos anseios da juventude na ditadura militar, assume um contexto intimista, completado com os versos de Recanto Escuro, carro-chefe do álbum produzido por Caetano Veloso em 2011 que alavancou Gal em sua derradeira e tão produtiva década de carreira. “Mas é sempre o recanto escuro, só Deus sabe o duro que eu dei, mulher aos prazeres, futuro, eu me guardei”, quase chora Walerie em cena, antes da guinada da artista que prepara o desfecho do espetáculo e a tomada de consciência da protagonista.
Tudo o que é visto nas quase três horas do espetáculo dirigido por Marilia Toledo e Kleber Montanheiro ultrapassa a mera homenagem ou uma revisão de sua biografia. A arrojada dramaturgia propõe um mergulho psicanalítico na mente de Gal e, como o seu passado sempre assombrou o presente e, muitas vezes, travou o seu desenvolvimento como mulher e artista. Um apoio importante na construção do texto foi o livro A Jornada da Heroína, da psicóloga estadunidense Maureen Murdock, que analisa as diferenças entre trajetórias femininas e masculinas. A questão de gênero ganha papel explícito no desenho do caráter de Gal.

Maria da Graça Costa Penna Burgos nasceu em Salvador, foi criada sozinha pela mãe, Dona Mariah (papel de Dani Cury, ótima), com quem viveu muito apegada, e só conheceu o pai, Arnaldo, de relance, no fim da adolescência. “Eu só vi o chapéu dele”, comenta Gal com as amigas Sandra e Dedé (representadas por Barbara Ferr e Bruna Pazinato). A ausência paterna jamais seria preenchida, mesmo que Gal tenha se cercado de fortes presenças masculinas, algumas delas sufocantes, e, na maturidade, talvez só tenha compensado um pouco a lacuna com a adoção do filho, Gabriel, um dos desfechos da peça.
É a partir dos contrastes de personalidade que Gal é revelada no texto de Marília e Boechat. Mulher tímida no dia a dia e sensual nos palcos, artista transgressora, mais reservada na intimidade e símbolo de liberdade que se preocupava em dar satisfações à mãe pela vida afora, a ponto de comprometer relacionamentos amorosos. Para espelhar esses duelos do inconsciente, os autores colocaram em cena três mitos sumérios, Ereskigal, Gilgamesh e Inana (representados por Badu Morais, Marco França e Fernanda Ventura), presente no palco o tempo inteiro, personificando os conflitos permanentes que agitavam Gal.

Já é um belo ponto de partida, não? Muitos são os musicais biográficos em cima de grandes nomes que chegaram aos palcos nas últimas duas décadas. Poucos se arriscam a ir além de uma cronologia óbvia ou de enfileirar sucessos do artista como se fosse um show. No caso de Gal, O Musical, poderia gerar facilmente uma confusão a presença daqueles três personagens estranhos em volta da protagonista, mas, a partir da desconstrução da obviedade, a teatralidade domina o palco e o texto deixa de ser um roteiro encenado para atingir contornos literários.
Nesta costura, a direção musical e os arranjos de Daniel Rocha proporcionam novas leituras às canções e, assim como Vapor Barato e Recanto Escuro, todas são complementares ao texto. É o caso de Vaca Profana, de Caetano, e Mãe de Todas as Vozes, de Nando Reis, no começo da peça, com mensagens feministas acentuadas para mostrar o nascimento e a rotina familiar de Gal. Logo adiante, Eu Sou Terrível, de Roberto e Erasmo Carlos (1941-2022), deflagra a personalidade da artista no enfrentamento da ditadura militar, e Baby é entoada em uma cena de múltiplas camadas dividida com Maria Bethânia (papel de Calu Manhães).
Um pouco mais óbvias, mas não menos parte da dramaturgia, são as inserções das canções Azul, de Djavan, Sorte, de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, Lua de Mel, de Lulu Santos, e Meu Bem, Meu Mal, de Caetano. Elas servem de trilha para o relacionamento com a atriz Lúcia Veríssimo (interpretada por Bruna Pazinato), que é tratada, enfim, com a devida relevância na biografia da cantora.
Para que tudo isto tenha chegado à cena com absoluto sentido existe a direção compartilhada de Marilia e Kleber Montanheiro. O principal ponto a destacar é a rara coesão de um elenco numeroso, perfeitamente encarregados de interpretar personagens e não reforçar caricaturas, como é comum em produções do gênero.

Ao contrário de Elis, A Musical e Rita Lee, Uma Autobiografia Musical, sustentados unicamente pelas ótimas performances de Laila Garin e Mel Lisboa, Gal, O Musical não se limita a Walerie Gondim – e isto não diminui em nada o trabalho da atriz e cantora. O fato de todo o elenco defender enfaticamente os personagens – a maioria conhecida do público, vale frisar – tira da protagonista a responsabilidade de mimetizar Gal e, justamente por isso, todos enxergam nela as várias fases da cantora. Por fim, o impossível, com as devidas proporções, acontece. Muitos dirão que, além de ver, ouviram Gal – o que resulta de um esforço conjunto de atuação e direção que define teatro, convencer a todos de uma verdade que é mentira, mas precisa parecer verdade.
Gal cantava para fora, mas falava para dentro. Quem teve a oportunidade de conversar com ela alguma vez sabe que a dicção perfeita da intérprete, capaz de ressaltar cada sílaba, evaporava na boca da pessoa física. Walerie aproveita bem mais esta contradição para a composição da personagem e, em grande parte, é uma Gal introspectiva ou, melhor, é quase sempre a Gracinha, exceto nas cenas em a personagem se faz cantora.
O mesmo cuidado é verificado no restante do elenco. Edu Coutinho e Théo Charles, por exemplo, representam Caetano Veloso e Gilberto Gil sem os cacoetes ou as caricaturas vocais empregadas por aqueles que desejam imitá-los. Como Maria Bethânia, Calu Manhães é mais impressionista e, mesmo nos gestos, parece econômica, ao contrário do que é visto em evocações à cantora. O mesmo pode ser dito quanto aos atores Ivan Parente na pele do empresário Guilherme Araújo (1936-2007) e Vinicius Loyola, que se divide entre Tom Zé e João Gilberto (1931-2019). Chamam atenção ainda as interpretações de Bruna Pazinato para Lúcia Veríssimo e de Dudu Galvão como o diretor de teatro Gerald Thomas. A caracterização dos dois poderia cair facilmente na superficialidade, mas existe um entendimento de postura que limpa o excesso.

O ambiente do 033 Rooftop já serviu de cilada para algumas montagens ali vistas. Marília e Montanheiro, entretanto, íntimos do espaço, afinal já trabalharam lá outras vezes, criaram uma encenação em três palcos que não dispersa a atenção do púbico, favorecida pelo cenário de Carmem Guerra. Tal divisão, inclusive, é o segredo para a presença dos personagens dos deuses Ereskigal, Gilgamesh e Inana. Tal como o clássico cenário de Tomás Santa Rosa (1909-1956) para a montagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues (1912-1980) em 1943, com seus três planos, tudo está lá ao mesmo tempo, mas se transforma em elemento narrativo diante do foco da iluminação, desenhada por Gabriele Souza.
Também assinados por Montanheiro, os figurinos são de um cuidado exemplar, principalmente por atravessar décadas com características próprias de cada período. Muitos vestidos famosos usados por Gal, que talvez só fãs percebam, são reproduzidos com uma aparência que os fazem parecer iguais aos originais. Pequenas sutilezas chamam a atenção, como a camisa solta de Walerie na cena na adoção de Gabriel, próxima as que a cantora usava nos seus últimos anos.
Quem escreve aqui viu o primeiro show de Gal Costa em 1984 (Baby Gal, no Ginásio do Gigantinho, em Porto Alegre) e, desde então, perdeu só um dos seus espetáculos por questões alheias a sua vontade. Como profissional, já escreveu até críticas de alguns e reconhece ter pecado pela emoção e supervalorizado alguns pontos ou ter sido exigente demais em outros que com o tempo perderam sentido. Logo, escrever sobre Gal, O Musical foi uma tarefa quase deixada de lado diante da fartura da temporada paulistana, mas, diante da inventividade do espetáculo, o jornalista falou mais alto que o fã e, modéstia à parte, acreditei que o registro seria, digamos assim, interessante.

Gal, O Musical se encerra com O Quereres, canção composta e lançada por Caetano Veloso em 1984 e só registrada, sem grande repercussão, por Gal onze anos depois no álbum Minha D’Água do Meu Canto. A opção reforça a importância dada por Marília Toledo e Emílio Boechat à dramaturgia, consentida, claro, por Montanheiro, e endossa a ambição de não montar uma mera biografia.
Os versos de oposições em primeira pessoa resumem os caminhos adotados por Gal, O Musical em uma produção que compartilha os princípios da trajetória da artista que a inspirou. Mesmo que muitos sempre tenham insistido em afirmar o contrário, Gal Costa, na maior parte de sua carreira, não foi uma artista óbvia. Seu musical biográfico faz jus a esse histórico e não é.
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