Talvez todo trabalho de ator seja, no fundo, um exercício contínuo de mudar de método. Ou adaptar-se aos métodos. Especialmente para quem vem de mundos que nunca foram pensados para nos conter.
Comecei o ano lendo Mudar: método, de Édouard Louis, sentado numa espreguiçadeira à beira da piscina e tomando uma Margarita às 10 da manhã. Abrir o livro, que há tempos estava na minha estante pedindo pra ser lido, foi como abrir um espelho que eu não sabia que estava precisando. Um livro escrito por um homem gay que atravessou classes, armários, violências simbólicas e concretas, e que decidiu usar a própria vida como material de pensamento. Não como confissão barata, mas como ferramenta política, estética e existencial. Um livro que fala de origem, mas também de ruptura. De pertencimento e de exílio. De mudar para sobreviver.
Durante muito tempo, me aprisionei no sonho de ser o galã da novela. Não por vaidade apenas, mas por sobrevivência simbólica. Ser desejado, aceito, visto. Um colírio da Capricho. Um corpo possível dentro de um sistema que raramente oferece espaço para corpos desviantes sem pedir algo em troca. Mas galãs não podiam ser gays, pelo menos não naquela época. Era o começo dos anos 2000. Com a idade ou maturidade, fui entendendo que aquele sonho também era uma jaula. E que talvez meu trabalho no mundo fosse outro: criar, provocar, tensionar, contar histórias que não cabem no intervalo comercial.
Esse movimento é, muitas vezes, solitário. Auto produzir é também se auto sustentar emocionalmente. Mas há uma sorte imensa quando, no caminho, encontramos pessoas que acreditam nos temas, na arte e no teatro como propósito e não apenas como produto.
Minha curiosidade sempre foi meu método. Desde criança, eu acreditava que o impossível era possível, desde que eu desse um jeitinho. Uma poltrona da vó, um sapato do pai e um vestido da tia bastavam para inventar uma história. Talvez eu nunca tenha parado de fazer exatamente isso. Apenas troquei os objetos, os cenários e as urgências.
Édouard Louis escreve algo que eu venho tentando entender há quase dez anos de análise. Como conquistar nosso próprio espaço? É preciso se moldar ao que o mundo espera de um artista? Ou inventar outros mundos possíveis? Quais são as minhas referências? Como cheguei até aqui? Só a análise deu conta das muitas vozes que explodem aqui dentro. Só ela me ajudou a compreender as caixinhas, as escolhas, os medos, os “sins”, os “nãos” e os infinitos “talvez”. Foi ela que me ofereceu alguma paz, mesmo que acompanhada de um whisky noturno e da cobrança de exames periódicos. Simoni Boer, mestra da faculdade e dos palcos, me disse uma vez que artista precisa de um vício. Como lidar quando se tem vários? Talvez criando. Talvez fazendo teatro.
O livro também me fez lembrar das mulheres que me trouxeram até aqui. Minhas maiores referências de força, ética, coragem e imaginação vieram delas. Mulheres do teatro, da vida, da cena. Mas isso fica para outro texto. Elas merecem um capítulo próprio.
Escrevo tudo isso de um hotel em Beverly Hills. Um lugar improvável para alguém que nasceu onde as oportunidades eram bem raras. Qual o caminho que me fez chegar até aqui? Não sei. Falo de mudanças, ano novo, livro, teatro, monólogo e me perco. Minha cabeça é assim. Mas sempre alguma coisa sai depois. Ainda escreverei meu livro de memórias, mudanças e métodos. Mas por enquanto preciso saltar. Do alto do precipício. Vou fazer um monólogo, que para um ator, é se jogar num abismo desconhecido todos os dias. Meu primeiro solo teatral, depois de 23 anos de profissão. Tenho medo de altura, mas imagino que o bungee jump deva ser delicioso. Minha dose de adrenalina começa em 24 de janeiro, quando estreio Aqui, Agora, Todo Mundo. Uma temporada intensa de troca, risco e coragem para contar uma história urgente.
Essa estreia acontece no momento mais especial da minha vida: celebro a paternidade com meu marido, Rafael, com a chegada do nosso filho, Leonardo, por meio de um processo de barriga solidária fora do país. Um papel que vai mudar tudo. Inclusive o ator que eu sou.
A vida de Édouard Louis se parece muito com a minha.
Talvez porque mudar de método seja, antes de tudo, uma forma de continuar vivo.
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