Em março, o escritor francês Édouard Louis esteve no Brasil e passou pelo Rio de Janeiro para conferir o espetáculo Mulher em Fuga. A peça, baseada em dois de seus livros, Lutas e Metamorfoses de uma Mulher (2021) e Monique se Liberta (2024), estreou em janeiro em São Paulo e, depois de temporada na capital fluminense, faz três apresentações no 34º Festival de Teatro de Curitiba, no último fim de semana da mostra de artes cênicas.
Protagonizada pela atriz Malu Galli e pelo ator Tiago Martelli, a montagem chega em maio a Belo Horizonte, deve ser vista em junho nas unidades do Sesc de Guarulhos e Santo André e, em julho, será a vez de Porto Alegre. A dramaturgia leva a assinatura de Pedro Kosovski e a direção ficou por conta de Inez Viana. Em cena, mulher oprimida por abusos constantes desde a juventude que impediram a formação de uma identidade própria.
Na história, Monique é a mãe de Louis, que, agora um escritor reconhecido, se reaproxima dela para ajudá-la no processo de libertação dos relacionamentos tóxicos. A personagem, aos 55 anos, deixa o terceiro marido, que, como os outros dois, era violento e alcoolista e, pela primeira vez, enfrenta uma caminhada com as próprias pernas, mesmo que conte com o apoio do filho.

O adaptador Pedro Kosovski fala do caráter provocativo de transformar a literatura do autor francês em dramaturgia. Para ele, o texto teatral precisa dar movimento às palavras e acompanhar a ação emocional na forma de diálogos. “De alguma forma, em Monique se Liberta, o filho se torna um aliado da mãe porque no livro anterior, Lutas e Metamorfoses de uma Mulher, ainda existe um peso do machismo e da misoginia na relação deles”, diz Kosovski.
Louis gostou muito do que viu no Teatro Sesi Firjan, no Rio, e aprovou a transposição de sua literatura para o palco. Saiu da peça profundamente comovido com o resultado, tanto que, no saguão, telefonou para a mãe a fim de compartilhar a emoção. Entre os tantos elogios que fez um é especialmente envaidecedor. Louis comparou o desempenho de Malu Galli às intensas e vigorosas performances de Isabelle Huppert, uma das maiores estrelas do teatro e do cinema francês. “Ele falou no telefone: ‘mãe, tem uma grande atriz te representado no Brasil’”, conta Inez. “Acho que Louis não tinha a dimensão do que poderia encontrar por aqui e se surpreendeu.”

Malu ainda fica tímida quando tal referência é lembrada por Inez e Martelli. Com modéstia, ela comenta que comparações são sempre perigosas e podem gerar uma expectativa excessiva nas pessoas, mas garante que o mote do espetáculo é mostrar uma mulher que teve a juventude e os sonhos roubados e isso gera grande identificação no público. “Eu tenho tido retornos impressionantes cada vez que converso com as pessoas na saída do teatro”, afirma. Martelli completa a fala da colega de cena. “Estamos falando de um sistema que se repete em diferentes países e contextos sociais, e as experiências de Monique são próximas às de muitas brasileiras.”
Dois exemplos do reflexo deste espelho, um em São Paulo e outro no Rio, foram impactantes para a intérprete. Na capital paulista, assim que terminou uma sessão, Malu encontrou uma espectadora no saguão do Teatro Raul Cortez que lhe disse, emocionada: “Eu sou a Monique, tenho uma vida igual a dela”. A atriz, consciente de não pode opinar sobre as realidades que desconhece, encarou a interlocutora e disse “você me promete que vai sair dessa?”.

No Rio, uma outra mulher revelou que estava passando por uma situação parecida. “Eu só falei para ela sair fora logo porque existe um limite muito tênue entre o sair fora e o nunca mais sair”, diz Malu. “Até porque, daqui a pouco, pode ser tarde demais e ela não conseguir mesmo sair, afinal, os números de feminicídios são absurdos no país.”
Para a atriz, a sua composição da personagem foi menos inspirada no contexto social do que pode parecer. Malu encontrou a essência de Monique através do seu lado emocional – algo que pode ser comum mesmo àquelas mulheres que não vivem em condições de pobreza. Um dos elementos mais fortes é a questão da maternidade, que transformou a vida de Monique e de tantas outras, sejam elas europeias ou brasileiras. “A maternagem não deveria ser uma função somente da mulher e, claro, tinha que ser naturalmente compartilhada com os maridos, porque só assim elas não precisariam abrir mão dos sonhos.”

No ano passado, Malu viveu uma fase de grande popularidade ao interpretar a personagem Celina Junqueira da novela Vale Tudo, da Rede Globo. Ela era irmã da poderosa empresária Odete Roitman (vivida por Debora Bloch) e, mesmo em universos tão distintos, a atriz encontra pontos em comum entre a socialite carioca e a sofrida moradora da periferia francesa. “São duas mulheres que não são donas da própria vida e tiveram as suas histórias roubadas pelos outros”, compara. “Celina nunca conseguiu fugir da opressão familiar, enquanto Monique lutou três vezes pela liberdade, mesmo que tenha caído nos mesmos erros.”
Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.



