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“Nós, Os Justos”, de Kiko Rieser, é uma peça pronta para dialogar com o público em história de assédio, machismo e traumas no mundo empresarial

Sem categoria Por Dirceu Alves Jr.

É cada vez mais raro uma dramaturgia contemporânea não se prender a conflitos e personagens com chances de soarem datados em pouco tempo. Nós, Os Justos, texto escrito e dirigido por Kiko Rieser, em cartaz no Teatro Itália, em São Paulo, surge como exceção marcada pela carpintaria que desenvolve a ação sem recursos facilmente perecíveis.

A trama de Nós, Os Justos, com delicados ajustes, pode se passar em 2026, em 1950 ou daqui a três décadas sem perder a essência. Boa parte das chamadas pautas urgentes, como assédios sexual e moral, machismo, traumas psicológicos e racismo, alimenta a história e, aqui, reside o maior trunfo do texto: tratar de temas atuais com um enfoque atemporal e universal.

Foto: Ronaldo Gutierrez

O cenário é uma empresa privada e quatro funcionários se envolveram em um enredo que cresce em progressão geométrica. Já se tem aqui um interessante desenho de história capaz de prender a atenção do público. Desenvolvê-lo com uma relativa isenção e inteligência para que não seja uma peça efêmera é que são outros quinhentos. Rieser, em um atestado de maturidade, separa o conflito do panfleto e desenvolve as situações sem recorrer às fórmulas fáceis.

A bola de neve não é detonada por compartilhamentos em redes sociais ou publicações em sites e sim pela velha e boa observação, que vira uma fofoca e atinge proporções trágicas. É pela palavra, pelo “disse me disse” que deixa dúvidas e perturba mais e mais pessoas, uma situação comum, por exemplo, na obra de William Shakespeare (1564-1616). A tragédia de Otelo, por exemplo, é detonada pelas intrigas do vilão Iago.

Tal como em O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues (1912-1980), um gesto pode ter sido deturpado e desencadeia o conflito. Só que os comentários não são amplificados pela imprensa, mas pela “rádio-corredor” de uma empresa. É lá que Tony (papel de Luciano Gatti) trabalha há oito anos e responde a Mendonça (interpretado por Marco Antônio Pâmio). Os dois têm uma convivência cordial, e o chefe reconhece as ótimas credenciais do subordinado.

Foto: Ronaldo Gutierrez

A introvertida Milena (a atriz Camila dos Anjos) é um par de Tony, como se diz na linguagem corporativa para quem desempenha cargos na mesma posição hierárquica, e encontrou dificuldades para domar a programação das planilhas. Ele se oferece para explicar como desenvolver melhor as tarefas depois do expediente – afinal, todos estão soterrados de trabalho. Ela aceita. Empresa vazia, uma sala sem câmeras de segurança e um clima esquisito se estabelece entre duas pessoas que mal ultrapassam o limite do “bom-dia”.

Para puxar assunto, Tony fala de amenidades e, de repente, começa a expor questões familiares. Em um arroubo de emoção, ele chora, tenta dar um abraço na colega e são vistos à distância por Shirley (vivida por Thamiris Mandú), que comenta a cena com um, que cochicha para outro e, em pouco tempo, o burburinho gera um clima de hostilidades na empresa.

Assim como Arandir, que atende ao último pedido de um moribundo em O Beijo no Asfalto e tem a sua reputação destruída, Tony é apontado como um assediador. Milena, mesmo fugindo da denúncia, recebe o selo de vítima, e Mendonça, o gestor, é pressionado para castigar o culpado.

Foto: Ronaldo Gutierrez

Na primeira cena, Mendonça convoca Toni para uma reunião. Uma sindicância foi instaurada para a apuração dos fatos. Várias contradições nos depoimentos colhidos dificultam apontar quem errou. Na guerra de narrativas, uma informação surge a cada hora, e Mendonça vê questões privadas dos funcionários se chocarem com as profissionais.

Ninguém é anjo ou demônio e, neste desenho do perfil dos personagens, salta uma capacidade de isenção de Kiko Rieser como dramaturgo que não deveria, mas se mostra surpreendente. Em um tempo em que a regra é definir valores ou tomar partido, a imparcialidade ficou esquecida e, em um texto ficcional, isto pode ser importante para o desenvolvimento da história. Deixar as conclusões para o público e não dar o veredicto de um julgamento é um dos méritos que ajuda a tornar Nós, Os Justos uma peça com possibilidade de sobreviver ao tempo.

A estrutura recorre às fórmulas dos dramas de tribunal. Mendonça, no caso o juiz, já chegou aos 60 e tem a noção de que, se perder o emprego, não se recolocará de jeito nenhum. Toni, o acusado, apesar de competente, enfrenta questões familiares, como a do filho adolescente em tratamento psiquiátrico, logo não pode ficar sem o salário. A vítima Milena, um tanto ambígua, alega que queria abafar a situação, e Shirley, a testemunha, aos poucos, revela que pode ter tido outras intenções ao espalhar a notícia.

Foto: Ronaldo Gutierrez

Com cada um dos personagens, Rieser mexe em um vespeiro e não doura a pílula. Com Mendonça, o autor traz à tona o etarismo e, em relação a Toni, aparece o tipo despachado que tem dificuldade de controlar tendências machistas.

Milena é a jovem que luta para recomeçar a vida sem testemunhas de um trauma, enquanto Shirley é a mulher preta que furou a bolha do mundo corporativo e tropeça na incapacidade de lidar com impulsos.

Aos poucos, todos vão perdendo a racionalidade e retratam a animalização de uma sociedade capitalista em que cada um só se preocupa em defender os próprios interesses.

Kiko Rieser, de 39 anos, é um dramaturgo que cresceu cuidadoso em não exceder os seus limites. Em 2011, ele adaptou dois contos do escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996), Lixo e Purpurina e Anotações sobre um Amor Urbano, no solo que levou o título do primeiro texto. Cinco anos depois, a mesma peça voltou repaginada com o nome de Amarelo Distante, protagonizada por Mateus Monteiro e dirigida por Rieser, e alcançou uma certa repercussão.

Uma maior ambição se revelou em A Vida Útil de Todas as Coisas, distopia sobre a mecanização da sociedade e o tratamento descartável dado aos idosos, montada em 2019. Depois de uma dramaturgia tão elaborada, os espetáculos Nasci para ser Dercy e Hilda e Caio, ambos de 2023, podem equivocadamente parecer dois passos atrás. Só que é preconceituoso pensar assim.

Nasci para ser Dercy, monólogo protagonizado por Grace Gianoukas, recupera a biografia da comediante Dercy Gonçalves (1907-2008). Hilda e Caio oferece um recorte ficcionalizado da convivência dos escritores Hilda Hilst (1930-2004) e Caio Fernando Abreu, interpretados por Lavínia Pannunzio e André Kirmayr, no auge da ditadura militar. Podem até parecerem dramaturgias menos inventivas e de relativas facilidades por causa dos personagens reais, mas, certamente, foram os textos que garantiram segurança para Rieser solidificar Nós, Os Justos, mesmo que a escrita deste tenha começado em 2018.

Foto: Ronaldo Gutierrez

Tanto em Nasci para ser Dercy quanto em Hilda e Caio, o autor se jogou em um exercício de liberdade que o possibilitou, posteriormente, concretizar uma dramaturgia que conta uma trama com começo, meio e fim. Nós, Os Justos é libertador para Rieser porque ele criou uma história densa em que funde drama, tragicomédia e até uma dose de absurdo sem se deixar pautar pelas tendências de um mercado, o teatral, que impõe tantas regras quanto o mundo corporativo.

Vários são os textos que desmoronam no palco por conta do elenco. Em Nós, Os Justos, Rieser, sabendo da importância dos intérpretes na sustentação do espetáculo, se cercou de atores e atrizes que só realçam a dramaturgia. Marco Antônio Pâmio, como sempre, é uma aposta certeira e, apoiado em sutilezas que poderiam pesar nas mãos de outros atores, fortalece as dubiedades de Mendonça.

Luciano Gatti intercala a doçura e a dissimulação, que podem ser típicas dos cafajestes, para embaralhar julgamentos a respeito de Tony. O ator imprime no personagem até uma infantilização que condiz com o comportamento de pessoas que precisam convencer os outros de uma inocência.

Camila dos Anjos deposita em Milena a habitual densidade psicológica que empresta as suas personagens e, se na primeira fase, parece uma insuspeita vítima, logo vai sendo desvendada como alguém que pode ter outras motivações ao acusar Toni. O mesmo pode ser dito sobre Shirley, construída por Thamiris Mandú, que apresenta uma interpretação capaz de se expandir à medida que os conflitos dominam a cena.

Foto: Ronaldo Gutierrez

Muito se fala que não existem mais peças como aquelas de “antigamente”, que, mesmo com ótimas histórias e interpretações, podem servir como o entretenimento servido antes da pizza. Nós, Os Justos, no melhor sentido desta comparação, é uma peça que explora uma fórmula que parece renegada no teatro brasileiro da última década. É uma dramaturgia que dialoga com o seu tempo e busca a cumplicidade do público sem levantar bandeiras ou medo de ser criticada por querer contar uma história.

Aqui temos mais uma prova da maturidade de Kiko Rieser. Como artista, ele não temeu ser julgado e oferece um trabalho que, caso seja descoberto pelo público, pode servir de exemplo para outros autores e diretores interessados em reestabelecer um diálogo com o espectador. E, se o mercado for justo, esta peça deverá encontrar os aplausos de plateias diversificadas e construir uma trajetória diferente da regra de ser sepultada após uma única temporada.

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO

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Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

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