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Foto: Weslei Soares
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Como formatar um solo de palhaço sem cair no “mais do mesmo”

Está tudo em cena, cada pilar de sustentação de um tradicional espetáculo de palhaçaria, mas, em ‘Ítaca’, com Thiago Andreuccetti, talento, criatividade e competência impedem que predomine o tal do “déjà-vu”

Crítica Por Dib Carneiro Neto

É com imenso prazer que, ano após ano no exercício da crítica teatral para crianças, observo o quanto é possível aproveitar no palco, de formas variadas, a figura circense do palhaço. São infinitas as possibilidades de incluir o palhaço nas dramaturgias. Por mais que você pense que vai ver mais do mesmo, os encenadores/dramaturgos surgem com situações inusitadas e surpresas agradabilíssimas.

Lá fui eu ver mais um solo de palhaçaria e, de novo, me encantei e me surpreendi com a proposta, por mais que estejam lá as principais marcas já conhecidas da linguagem e do humor clownesco. O palhaço se presta a tudo. Aqui, ele é uma espécie de Ulisses (ou Odisseu), tentando navegar sozinho, em sua odisseia particular, equilibrando-se em sua ilha-embarcação chamada Ítaca, o mesmo nome da mítica ilha grega.

Foto: Weslei Soares

Ítaca, o espetáculo, em cartaz atualmente no Sesc Belenzinho, começou a ser gestado em 2020, durante a pandemia, e é nítido o quanto o enredo se contaminou simbolicamente daquele climão de isolamento, medo, solidão e tantos outros sentimentos que todos nós forçadamente ‘experienciamos’. Uma das leituras a se fazer do palhaço náufrago é essa: os efeitos de se viver isolado, sem contato com outros seres humanos, com saudade de casa e de quem amamos.

Thiago Andreuccetti é o palhaço. Idealização, coordenação artística e atuação estão por sua conta, cercado – fora da cena – de muita gente boa: Luciana Viacava (direção), Nereu Afonso da Silva (dramaturgia), Alexandre Maldonado (trilha sonora), Giuliana Cerchiari (concepção de luz), Lucas Luciano (teatro de sombras) e Marichilene Artisevskis (figurino). Um time e tanto. Ele é um virtuoso no que faz, além de todo carisma inegável.

Foto: Weslei Soares

Thiago já integrou o elenco do Cirque Du Soleil, entre 2018 e 2020, no show “Amaluna”. Terá sempre isso como credencial incontestável, mas seu talento ultrapassa rótulos e currículos. Em Ítaca, ele esbanja técnica e emoção, graça e segurança – e, de quebra, um jogo de cintura decisivo na lida com as reações da plateia e até com as “intempéries” de cada sessão. No domingo em que o vi, ‘caiu’ a luz da unidade do Sesc – e ele não arredou pé do palco, transformando tudo em brincadeira, em cenas adicionais, em humor de improviso. Muito bom.

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Na verdade, o solo de Thiago Andreuccetti tem outro protagonista além dele, em pé de igualdade com ele na tarefa de fisgar o interesse da plateia: o Mastro Culbuto, uma misto de mastro chinês com o que chamamos no Brasil de ‘João Bobo’. Como esse aparelho lembra muito os movimentos de um barco, prestou-se à perfeição como um destaque cenográfico eloquente, vibrante e disparador de situações. Curioso como também traz pequenos compartimentos acoplados em sua base, de onde surpreendentemente saem alguns adereços usados pelo ator. Engenhosa sacada.

Dentre todas as situações vividas pelo pândego náufrago, cenas muito bem feitas são a do teatro de sombras (um sonho de sereia, com direito a pinçar uma estrela do céu), os sons divertidos saindo do ‘dial’ do rádio, os momentos em que ele escreve em seu diário de bordo e as cenas de sua carinhosa relação com um cachalote (baleia com dentes). Todas rendem muito bem, divertem e encantam na medida certa. O pedido de socorro na garrafa também é hilário, sobretudo porque não dá certo – e palhaços vivem de erros.

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O espetáculo, ao ser destrinchado em sua linguagem e roteirização, sustenta-se muito fortemente em alguns conhecidos pilares da palhaçaria. O primeiro deles é a escatologia. O personagem arranca gargalhadas pueris à base de arrotos, secreções, sugestão de cheiros e gases. Até a baleia arrota. Outro pilar de sustentação dramatúrgica é a queda, os infalíveis tombos e tropeços do atrapalhado palhaço. Lindo ouvir as risadas espontâneas que brotam dessas cenas de gags físicas, sobretudo os risos frouxos advindos das crianças de menor idade. Pura fórmula de palhaçaria. Outra base bem sedimentada na peça é a opção pela linguagem dita ‘gromelô’, o idioma inventado com onomatopeias, que permite ao ator deitar e rolar com brincadeiras verbais deliciosas. A sonoplastia também se destaca: é o quarto item que muito auxilia no ritmo da narrativa, na história sendo desenvolvida sem palavras de língua nenhuma. Já começa com o apito de navio servindo de campainha para os três sinais que abrem o espetáculo. E assim é que se dá cara e forma para um bem-sucedido solo de palhaço. Nada como uma equipe competente e talentosa, para garantir que “o mais do mesmo” nunca seja o mesmo.

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Sobre
Dib Carneiro Neto

Dib Carneiro Neto

Jornalista, dramaturgo e crítico teatral. Começou a escrever críticas sobre teatro infantil em 1990, na revista Veja São Paulo. Foi editor-chefe do caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo (2003 a 2011). Atualmente, edita o site e canal do youtube Pecinha É a Vovozinha, que ganhou o Prêmio Governador do Estado em 2018, na categoria Artes para Crianças, além de menção honrosa no Prêmio Cbtij. Por sua peça Salmo 91, ganhou o Prêmio Shell de dramaturgo em 2008. Em 2018, ganhou o Jabuti pelo livro Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela.

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