Premiado com o Shell carioca de melhor dramaturgia, o espetáculo Língua chegou ao Festival de Curitiba cercado de expectativas para as sessões nos dias 28 e 29 no Teatro José Maria Santos. E todas elas foram cumpridas, pelo menos diante do se viu na primeira apresentação, no fim da tarde de sexta-feira.
“Não se vive apenas aquilo que se é capaz de dizer” é a última fala do texto escrito por Pedro Emanuel e Vinicius Arneiro. Em um tempo de exacerbação do discurso e de temáticas que ganham a cena com certo proselitismo, Língua se destaca com um protagonista surdo, o motorista de táxi Matias (interpretado por Ricardo Boaretto), sem que a deficiência seja o mote da história.
A peça, lançada no Rio de Janeiro em junho passado, promove uma inclusão válida tanto para artistas como espectadores. O público ganha a chance de se aprofundar no tema sob um ponto de vista narrativo e longe do tom declaratório.
Com uma proposta bilíngue e multicultural, Língua reúne artistas surdos e ouvintes em uma trama que trata das dificuldades de compreensão. Virgínia (papel de Erika Rettl) prepara uma festa de aniversário para o filho Matias, rapaz surdo que cresceu cercado de pessoas ouvintes. Para apagar as velinhas, aparecem Tom (Jhonatas Narciso), amigo desde a escola, Julieta (Luize Mendes Dias), alvo do interesse de Matias, e Félix (Filipe Codeço), colega de trabalho do aniversariante.
Em meio aos sentimentos desencontrados, discussões sobre adoção, assédio sexual, homossexualidade e diferenças culturais vêm à tona. O fato de Matias ser um deficiente auditivo é um detalhe na ficção e os conflitos vividos por ele poderiam acontecer com qualquer homem ou mulher. “O espetáculo é todo pensado em uma subjetividade não ouvinte”, afirma Codeço.

A dificuldade de comunicação é comum a todos na sociedade. O próprio Vinicius Arneiro, também responsável pela direção, se mostra tímido na conversa com os jornalistas e ressalta que é importante aprender a falar sobre o trabalho publicamente. “O nosso maior desafio sempre foi fazer jus às complexidades dos seres humanos e não tematizar a condição da surdez”, afirma o coautor e diretor. “A dramaturgia traz uma figura ambígua, afetuosa e paradoxal, um personagem encantador, mas com ingredientes que fazem com que ele tenha seus descaminhos.”
O protagonista Ricardo Boaretto, de 42 anos, nasceu no Rio de Janeiro, cresceu em Valença, no interior fluminense, e, bem pequeno, aos 5 anos, começou a estudar teatro. Ele conta que, assim como na escola, se sentiu em um ambiente pouco receptivo em que os conteúdos eram passados de forma muito sucinta. Depois dos 20 anos, fez mais alguns cursos de teatro, mas nenhum voltado para artistas surdos.
Quando Boaretto conheceu o trabalho do Grupo Moitará, no Rio, que há mais de uma década dá cursos gratuitos para pessoas surdas, pensou ter encontrado uma rara possibilidade de formação. Depois de muitos vai e volta em relação aos palcos, Língua é sua primeira montagem profissional e um recomeço cheio de expectativas para futuras experiências. “O espetáculo me fez derrubar essa barreira de vida e me sinto valorizado porque o nosso processo não é sobre acessibilidade.”
O ator saliente que, mesmo na qualidade de espectador, o surdo se sente pouco à vontade ou mesmo rejeitado quando vai ao teatro. A participação do intérprete de libras é de grande importância para ampliar a compreensão. Boaretto, porém, salienta que mesmo assim o surdo assiste a uma peça pela metade, bem diferente daquela que é vista pela plateia ouvinte.
“É complicado porque quando vamos assistir a um espetáculo o nosso foco se dá no intérprete de libras presente em um canto do palco e perdemos todo o resto da encenação e do trabalho dos atores”, conclui Boaretto. “Por isso, Língua me renova e prova que é possível criar uma peça com uma dramaturgia falada e em libras simultaneamente.”