Você está na cidade de:
Foto: Leekyung Kim
Foto: Leekyung Kim

Habitat, ótima peça de Rafael Primot, é o retrato de uma sociedade animalizada e movida pelos próprios interesses

Dirigido por Lavínia Pannunzio e Eric Lenate, o drama protagonizado por Fernanda de Freitas, Rogério Brito e o autor deve continuar relevante a longo prazo

Crítica Por Dirceu Alves Jr.

Em uma temporada que começou tão quente como a de 2026 é preciso ficar atento para que espetáculos muito acima da média não passem despercebidos. Por isso, entre as novas direções de Gerald Thomas (Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente) e Gabriel Villela (Medea), o protagonismo de Eduardo Moscovis (O Motociclista no Globo da Morte) e Malu Galli (Mulher em Fuga) e musicais, como Domingo no Parque e Ópera do Malandro, procure saber sobre Habitat, peça escrita por Rafael Primot.

A montagem, dirigida por Lavínia Pannunzio e Eric Lenate, está em cartaz no Teatro Estúdio desde o dia 13 e conta no elenco com Fernanda de Freitas, Rogério Brito e o próprio autor. Você, certamente, não irá se arrepender.

Não irá se arrepender porque, se você gosta de teatro, é admirador de grandes textos e adora ver atores e atrizes em pleno exercício dos seus ofícios. Além disso, sabe que bom teatro é aquele que se inspira em temas urgentes, na maioria das vezes incômodos, e promove essa reflexão oportuna através de uma boa história e personagens idem.

Habitat é isto: dois atores e uma atriz a serviço de uma dramaturgia muito bem construída para contar uma situação que poderia acontecer com qualquer um. Como já foi regra no teatro, mesmo narrada com distanciamento, a ação atinge em cheio a todos, muito mais que textos dados em primeira pessoa, como se tornou comum nos últimos anos.

Em cena, um drama sobre a miséria humana, pessoas tratadas como animais e vice-versa e outras pessoas que se comportam, obviamente, de maneira pior que os mais irracionais dos animais. Adaílton (interpretado por Primot) é aquele trabalhador brasileiro explorado e vulnerável que, pulando de emprego em emprego, só pensa em botar comida na mesa da família.

Foto: Leekyung Kim

São dois filhos e um terceiro logo vai chegar. Faz um ano e meio que ele trabalha na equipe de segurança de uma rede de supermercados, e a carteira profissional foi assinada há bem menos tempo que isso. Tudo bem, faz parte, pensa o trabalhador brasileiro, ainda mais em uma época que carteira assinada virou luxo.

Um cachorro se sentiu acolhido entre os corredores da loja. Um funcionário acariciou o pelo macio, outros lhe deram comida, o bicho foi ficando e se comportando como se estivesse em casa. Anda tão à vontade que fez coco em cima do freezer que estoca as carnes. O gerente, Tite (papel de Rogério Brito), recebeu reclamações. Uma octogenária foi atacada pelo cão e se defendeu com a bengala, tem gente se queixando do mau cheiro e já tentaram espantar o cachorro, jogá-lo para fora da loja, nada deu resultado.

Uma providência precisa ser tomada, Tite entregou essa missão a Adaílton. “Eu não quero nem saber, nem me conta o que você fez com o bicho, só resolve. Faça o que você quiser, mas resolva. De uma vez por todas e de uma vez”, disse o chefe.

Adaílton se livrou do cachorro, as câmeras de segurança filmaram a cena e uma jornalista entrou em ação na fúria de fazer justiça e ganhar engajamento nas redes sociais. Nádia (vivida por Fernanda de Freitas) foi modelo na juventude, encontrou a sua voz na comunicação e fundou uma ONG especializada na defesa dos animais. Nádia entrevista Adaílton, que garante que fez o que fez para cumprir as ordens de Tite.

O vídeo viralizou, o caso virou um escândalo nacional e Adaílton, o monstro da vez. A imagem da rede de supermercados saiu prejudicada, Nádia vê a grande chance de ter o seu nome e o de sua ONG projetados, e Adaílton, coitado, bate pé em nome de justiça. Ele só fez o que fez para manter o emprego.

Não precisa dizer mais nada. Habitat é o retrato de uma sociedade miserável guiada pelo capitalismo e disposta a tudo a defender seus interesses. O grande trunfo de uma boa dramaturgia, aquela que atravessa o tempo com relevância, é narrar situações que espelham o comportamento sem parecer restrita ou datada e, neste ponto, começa a ser listada a série de acertos que torna esta uma grande montagem.

Artista sensível e com uma rara capacidade de trânsito, o paulista Primot, de 45 anos, teve o talento reconhecido relativamente cedo. Em 2010, ele recebeu o Prêmio Shell de melhor texto pela peça O Livro dos Monstros Guardados, encenada no ano anterior por Zé Henrique de Paula, que apresentava sete personagens marcados pela mesquinhez e o trágico.

Foto: Leekyung Kim

Enveredou pelo cinema, como roteirista e diretor, com os longas Gata Velha Ainda Mia (2013), protagonizado por Regina Duarte e Bárbara Paz, e Todo Clichê do Amor (2018), com as atrizes Maria Luísa Mendonça, Marjorie Estiano e Débora Falabella, e seguiu no teatro com Como Ter uma Vida Quase Normal (2019), Baby – Você Precisa Saber de Mim (2022) e Kafka e a Boneca Viajante (2023).

Além de seus textos, Primot é um ator destacado, como ficou comprovado em, entre outros espetáculos, A Herança, nova parceria com o diretor Zé Henrique de Paula, montada em 2023, com um elenco que ainda reunia Bruno Fagundes e Marco Antônio Pâmio, entre tantos.

Como se não fosse só o autor, é este intérprete que imediatamente salta aos olhos do público em Habitat, a ponto de, até para aqueles que o conhecem, gerar uma certa dificuldade de identificá-lo. Primot surpreende com a composição de um Adaílton nada óbvio, longe de qualquer estereótipo e carregado de sofrimento. É um personagem delicado que poderia abalar a credibilidade da montagem caso escorregasse em qualquer estereótipo, até porque as composições de Nádia e Tite naturalmente seguiriam para uma trilha mais realista e de atitudes justificáveis. Adaílton, mesmo pintado como vilão e responsável pela detonação do conflito, é a vítima da história.

Fernanda de Freitas enchia o palco cada vez que entrava em cena em Ensina-me a Viver, peça dirigida por João Falcão em 2007 com o elenco liderado por Glória Menezes e Arlindo Lopes. Ela se dividia em vários papéis e deixava aquela sensação comum de se estar vendo uma ótima atriz de teatro pouco aproveitada na televisão, veículo em que trabalhava com mais constância – e trabalha até hoje O mesmo brilho foi visto em personagens coadjuvantes do seriado Tapas e Beijos, da novela Um Lugar ao Sol (2020) e na peça-coral O Desaparecimento do Elefante, encenada por Monique Gardenberg em 2013.

Foto: Leekyung Kim

A sua Nádia é carregada de sutilezas que, assim como Adaílton, representa uma parcela da população brasileira, menor claro, aquela que não tem a menor noção dos seus privilégios e, no tênue limite entre a alienação e a falta de caráter, se faz de vítima em nome dos interesses. Fernanda dá o texto com uma naturalidade impressionante capaz de levar alguns espectadores a comprarem as (boas) intenções e alguns dilemas da influenciadora.

Foto: Leekyung Kim

Por fim, Rogério Brito é o tipo de ator que construiu uma carreira em um crescente ímpar desde que despontou na peça Dança Lenta na Cena do Crime, dirigida por Luiz Valcazaras em 2005. Nos últimos anos, enfileirou espetáculos importantes e, três deles – Um Inimigo do Povo (2022), O Dilema do Médico (2023) e Sangue (2024) – comprovaram a sua maturidade interpretativa.

Na pele de Tide, ele representa um outro tipo de brasileiro, aquele que dá ordens para um pequeno grupo e descarrega a frustração de ser mandado pelos superiores de forma tão ou mais violenta. O personagem é o interlocutor entre o oprimido e aquele que julga ter o poder de justiceiro transformando-se no maior opressor, caso de Nádia. O fato de ser um ator preto ainda amplia as leituras em torno de suas ações.

Tal equilíbrio entre um ótimo texto e atuações apuradas só é possível diante de uma direção afinada, que ficou a cargo de Lavínia Pannunzio e Eric Lenate. É difícil um espetáculo obter tanta sintonia quando está nas mãos de dois diretores e, aqui, isto se torna concreto por causa da longa intimidade entre a dupla de profissionais.

Extraordinário encenador, Lenate dirigiu Lavínia, atriz de múltiplos recursos e personalidade marcante, nas peças Um Verão Familiar (2012), Vestido de Noiva (2013), Ludwig e suas Irmãs (2015), Refluxo (2017), The Money Shot (2023) e Delírio Macbeth (2024), sendo que, nesta última, os dois contracenaram. Nas recentes temporadas, Lavínia se revelou uma criativa e rigorosa encenadora e, entre seus trabalhos, destaca-se Adulto, outra consistente dramaturgia contemporânea, assinada por Fran Ferraretto e lançada no ano passado.

O que mais provoca em Habitat é a mensagem. Basta pensar um pouco para se dar conta de que não são poucos os profissionais que fazem qualquer coisa, inclusive matar, para manter os empregos e, mesmo quando cometem atos extremos, se conformam com a justificativa de que estão ali cumprindo os seus papéis.

Nesta questão, Adaílton simboliza um homem que, em sua simplicidade e ignorância, não alcançou o discernimento para entender como condenável as suas atitudes. Na roça, os passarinhos e pombos mortos serviam de alimento para a sua família. Como um outro símbolo aparece a cicatriz que o personagem carrega no pescoço, causada por uma água quente jogada por seu pai para reprimir uma travessura dos filhos ainda pequenos. “Meu pai fez com o que tinha, né? No tempo dele era assim. Nem foi na maldade”, resigna-se Adaílton.

Foto: Leekyung Kim

Todos os personagens de Habitat se consideram bons, ninguém acredita que está errado ou carrega falhas de caráter, mesmo quando elas parecem óbvias. Todos defendem o que, na visão deles, precisa ser defendido. Por este motivo, são tão humanos e próximos dos espectadores espalhados na plateia. Neste quesito, a dramaturgia de Primot, aliada à direção e ao elenco, valoriza um discurso que acessa o coletivo e lhe confere conotações sociais e políticas, uma pretensão que muitos textos da safra recente do teatro brasileiro carregam, mas poucos conseguem expressar em palavras e cenas e mostram a probabilidade de continuarem vigorosos a longo prazo.

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

Compartilhar em
Sobre
Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

Siga o crítico

InfTEATRO em números

0 peças no site
0 em cartaz
0 colunas
0 entrevistas

Receba as nossas novidades

Ao se inscrever você concorda com a nossa política de privacidade

Apoios e Parcerias

Inf Busca Peças

Data
Preço

Este website armazena cookies no seu computador. Esses cookies são usados para melhorar sua experiência no site e fornecer serviços personalizados para você, tanto no website, quanto em outras mídias. Para saber mais sobre os cookies que usamos, consulte nossa Política de Privacidade

Não rastrearemos suas informações quando você visitar nosso site, porém, para cumprir suas preferências, precisaremos usar apenas um pequeno cookie, para que você não seja solicitado a tomar essa decisão novamente.