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Foto: Dalton Valerio
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“Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente” é uma via de mão dupla para Danielle Winits e Gerald Thomas

O espetáculo, adaptado da peça de Jane Wagner, faz a atriz romper estereótipos e coloca o diretor em um lugar de comunicação comercial sem minimizar a assinatura

Crítica Por Dirceu Alves Jr.

“O que você procura aqui? O que você quer exatamente aqui? Me diz!”, o público ouve em off a voz do diretor Gerald Thomas na primeira cena de Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente. O cenário ainda está meio na penumbra, tudo vai ser revelado sutilmente, e Danielle Winits, meio lunática, responde: “Eu procuro sinais”.

A pergunta do diretor não é por acaso. É a primeira das tantas ironias que desfilarão pelo palco nos setenta minutos seguintes. A resposta de Traudi, a personagem, poderia estar na boca da atriz em um diálogo com Thomas na sala de ensaios. Desta espécie de metalinguagem, que embaralha o tempo inteiro Traudi e Winits e, quem sabe, Thomas e os extraterrestres, se faz a peça, em cartaz no Teatro Faap, em São Paulo, depois de temporada no Teatro Copacabana, no Rio.

Traudi busca contatos com alienígenas porque perdeu a paciência com a mediocridade humana. Nada mais será como antes e ela sabe que o melhor, de acordo com o andar da carruagem, ficou para trás. Winits, aos 35 anos de carreira e 52 de vida, correu atrás de oxigênio para a sua trajetória – era agora ou nunca – e encontrou sinais de provocação para um público que, à primeira vista, não é o seu e talvez não seja nem o do diretor.

Foto: Dalton Valerio

Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente é um espetáculo que nasceu pronto para levar pedradas. Muitos dirão que nem precisa ver para saber que não é bom, ninguém vai entender nada e é coisa de gente louca, afinal, é um espetáculo de Gerald Thomas. Quem idolatra o diretor – sim, mesmo que ele faça tudo para ser odiado tem gente que o idolatra –, vai ficar com os dois pés atrás por não entender por que Thomas trabalha com Winits.

Danielle Winits, aquela loira peituda da televisão, faz teatro? Muita gente mal-informada deve se perguntar isso. E ainda mais com Gerald Thomas… Não dá…. Por que ela o convidou para dirigi-la e, pior, por que ele topou dirigi-la? Na certa, por precisar de dinheiro, pensarão alguns, já que Thomas andou bem pobre há pouco tempo, como ele propagou aos quatro ventos. Bem, mas se você superar todos os preconceitos e, pelo menos, ficar curioso para entender o que pode ter resultado do encontro de Thomas e Winits, prepare-se para assistir a uma das mais interessantes montagens do recente teatro brasileiro.

Foto: Dalton Valerio

Entre tantas qualidades, Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente se torna tão interessante porque se revela uma via de mão dupla. Winits encontrou sinais de vida inteligente para a sua arte, e Gerald, desafiado como diretor convidado e produzido em um esquema comercial que foge da estabilidade das instituições culturais que o patrocinam comumente, realizou o seu melhor espetáculo em quase uma década. Ela aproveitou as chances de se renovar diante do público e ele provou que, se for chamado por outros produtores, entrega um trabalho capaz de dialogar com plateias que vão além das unidades do Sesc.

Choque é The Search for Signs of Intelligent Life in the Universe, monólogo cômico da dramaturga estadunidense Jane Wagner escrito em 1985 e protagonizado com grande sucesso pela atriz Lily Tomlin na Broadway.  No original, a crítica social e o teor feminista são representados através de vários tipos. Na adaptação de Thomas, todos os personagens foram condensados em Traudi, a ex-consultora de marcas de uma multinacional que, exausta com o mundo descartável não só da publicidade, vai morar em um lixão como uma mendiga.

A decisão do diretor que poderia ser uma forma de blindar Winits diante de um teste de versatilidade em relação às múltiplas vozes tem o objetivo contrário do que pode parecer à primeira vista. Ao decidir que a atriz se dedique a uma única personagem, Thomas deu a Winits a chance de se aprofundar em sua linguagem e transitar por diferentes registros na caracterização de Traudi. Assim, ela é cômica, trágica, estranha, crítica e, principalmente, reflexiva, o que exige da intérprete uma maior flexibilidade que se optasse por um simples desfile de tipos apoiados em muletas, como outros figurinos ou maquiagens.

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“Ficar louca foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, mas não é para todo mundo. Tem gente que não aguenta o tranco”, diz Winits, na pele de Traudi, em um dos seus pontos de virada da peça. A partir desta constatação, o discurso da atriz se funde ao de Thomas atualizando o que foi escrito por Wagner há quatro décadas.

Nesta parte, a dramaturgia trava um longo monólogo sobre a extinção da memória, sobre ícones de um tempo que hoje representam pouco ou quase nada mesmo para aqueles que se consideram minimamente informados. A cena funciona como um desabafo geracional que coloca o lamento de Thomas na boca de Traudi para justificar o desencanto com a contemporaneidade. “Quanto mais você sabe, mais incompreensível fica tudo”, diz ela.

Mexer no texto foi uma das condições de Thomas para assumir o projeto porque, segundo ele, o mundo mudou muito desde a década de 1980 e ficaria datado montar o original com fidelidade. É internet, redes sociais, inteligência artificial, tudo que pode ter colaborado e muito para o sentimento de inadequação da personagem no planeta.

A partir daí começa uma longa história que se torna fundamental para o sucesso do espetáculo. Thomas, que mora nos Estados Unidos e pouco consome a cultura brasileira, jamais tinha ouvido falar de Winits. Nunca vira uma de suas novelas e o pouco que pesquisou no Google não lhe trouxe nada de relevante. Algumas reuniões foram feitas por zoom, e os dois só se conheceram pessoalmente no primeiro dia de ensaios.

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Logo, o diretor não sabia da fama que a televisão alimentou sobre Winnits desde meados da década de 1990. A loira sexy, o protótipo de Marilyn Monroe, a boazuda das novelas. “Conheci Danielle em um quadradinho do zoom e enxerguei uma atriz com uns óculos enormes na cara que, com o avanço do processo, vi que, sob um trabalho de regência, poderia ser uma grande atriz”, elogia. E nada melhor que a ignorância – no melhor sentido – para começar uma relação do zero. Talvez Winits nem imaginasse da importância disto ao convocar Thomas, mas foi fundamental.

Na sala de ensaios, ele deixou o texto de lado e colocou a atriz para dançar, improvisar, contar sua vida e fazer com que ela mesma se esquecesse dos estereótipos, vícios e preconceitos em torno da sua imagem. Nesta desconstrução, Traudi foi nascendo, e o diretor foi se desafiando a criar uma atriz-personagem. Thomas é um dramaturgo e encenador que, comumente, escreve para atores e atrizes que já conhece e, muitas vezes, tem grande intimidade e até admiração por eles.

De Bete Coelho a Marco Nanini, de Fernanda Torres a Fabiana Gugli, de Ney Latorraca (1944-2024) a até mesmo Gal Costa (1945-2022), para todos eles existiu uma primeira vez. Thomas deve reconhecer que carrega os seus medos de assombrações e, quando trabalha com alguém diferente daqueles com quem está acostumado, pode até se abrir a uma energia vinda de uma ausência de cobranças. Os atores Rodrigo Pandolfo em F.E.T.O. – Estudos de Doroteia Nua Descendo a Escada (2022) e Jefferson Schroeder em Sabius, Os Moleques, visto no fim do ano passado, são bons exemplos destes encontros inéditos.

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A atriz que se vê em Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente é bastante diferente daquela que ganhou fama em dezenas de novelas ou participou do musical Chicago e das peças Depois do Amor e Palmas, Senhor Presidente, dois recortes sobre a biografia de Marilyn protagonizados por ela. Danielle Winits em Choque é uma intérprete técnica, coreografada e reconhecível na satisfação de quem se mostra realizada ao pisar em um terreno movediço com um medo cada vez menor de se afundar.

Existe um cenário espetacular construído por Fernando Passetti com escadas de cordas que podem levar a personagem às alturas, uma iluminação criada por Wagner Pinto capaz de multiplicar espaços e o ótimo figurino de João Pimenta que ensaca Winits como a tudo naquele lixão, mas a protagonista poderia estar ali sozinha.

“Eu acho que posso fazer sucesso neste existencialismo”, diz a personagem em um dos seus devaneios. Winits correu os riscos e arcou com suas liberdades de escolhas, mostrando que é uma artista disposta a se desafiar e ser moldada, no melhor dos sentidos, por um diretor.

A frase também encontra verdade se adaptada a Gerald Thomas. O encenador promove uma reflexão e faz o espectador rir, muitas vezes de nervoso. Desde Dilúvio (2017), o seu desagravo ao autoritarismo de Donald Trump e alerta para os riscos de uma III Guerra Mundial, Thomas não acertava tanto na dose entre a mensagem e o teor estético e a razão é simples. Tem muito de Traudi em Thomas, logo, ele está falando de si e da sua geração.

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Mas, se formos mais longe na memória, é provável que desde Um Circo de Rins e Fígados, o já clássico espetáculo protagonizado por Marco Nanini em 2005, Thomas não conseguia um equilíbrio tão grande entre sua assinatura e a comunicação com o espectador.

Quando o público ouve naquela primeira cena a voz do diretor em off perguntado “O que você procura aqui? O que você quer exatamente aqui?”, vem na sequência uma resposta que diz respeito a Danielle Winits, Gerald Thomas e boa parte da plateia: um pouco de novidade inteligente capaz de provocar todo mundo e não só algumas das partes envolvidas.

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

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Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

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