Em uma cena do monólogo Simplesmente Eu, Clarice Lispector, a atriz Beth Goulart, na pele da escritora, fala da culpa de não ter conseguido curar a própria mãe. Mania Krimgold Lispector morreu aos 41 anos, vítima de uma doença progressiva, e, de acordo com uma superstição, um filho vem ao mundo carregando a missão de prolongar a vida de quem lhe deu à luz. Em um de seus textos, que basearam a dramaturgia, a autora de A Paixão Segundo G.H. assume o fracasso diante da tarefa e, neste momento da peça, em cartaz no Teatro Moise Safra, em São Paulo, a voz que se sobressai é a da intérprete, é a de Beth.
Quando Simplesmente Eu, Clarice Lispector estreou no Rio de Janeiro em 2009, o mundo era outro, o Brasil era outro. O país vivia uma ascensão econômica, a esperança reinava sobre a população e o ufanismo era confirmado até porque, em 2014, o Brasil seria sede da Copa da Mundo. As redes sociais engatinhavam com o decadente Orkut cedendo espaço ao avassalador Facebook, e o Instagram, que ampliaria o alcance em esferas inimagináveis, nem existia.

Clarice Lispector (1920-1977), lógico, já era considerada a maior escritora do país, respeitada por muitos, mas ainda definida como enigmática e elitizada por outros tantos. Diante da popularização das redes sociais, ela foi descoberta por novas gerações e, transformada em uma autora cultuada, virou citação constante em postagens digitais – algumas delas lhe dando crédito a textos e frases que nem eram de sua lavra criativa.
Simplesmente Eu, Clarice Lispector ficou em cartaz ininterruptamente entre 2009 e 2014, rendeu à protagonista quatro merecidos prêmios e reuniu mais de 1.200.000 espectadores em 280 cidades brasileiras. Em São Paulo, cumpriu temporadas vitoriosas no Centro Cultural Banco do Brasil e no Teatro Renaissance, em 2010. Em março do ano passado, Beth colocou o solo novamente em cartaz no Rio de Janeiro. Desde então, somou 100.000 ao expressivo número de pagantes, muitos deles adolescentes e jovens que vão ao teatro para ser aprofundar no universo de Clarice.
Mas não foi só o Brasil, o mundo, os meios de comunicação e a mentalidade da garotada que passaram por transformações radicais desde 2009. Beth Goulart, responsável pela dramaturgia e direção da montagem, que estreou sob a supervisão de Amir Haddad, também é outra mulher. Por isso, o trecho em que fala como Clarice sobre a impossibilidade de curar a mãe pode ser interpretado com maior entendimento tanto pela artista como pelo público.
Em 2014, a artista perdeu o pai, o ator Paulo Goulart, aos 81 anos, devido às complicações de um câncer manifestado seis anos antes. O luto teve direito, se é que isso existe, a uma preparação, a uma despedida que serviu como um mínimo consolo. O inesperado, o baque, a indignação, tudo veio junto com a morte da atriz Nicette Bruno (1933-2020), aos 87 anos, uma das mais de 700.000 vítimas oficiais da Covid-19 no Brasil.
Assim que Beth, na pele de Clarice, diz que não conseguiu salvar a mãe, vem de imediata a lembrança de Nicette – e isso jamais seria imaginado em 2009 e mesmo durante toda a década de 2010. Não que racionalmente a intérprete sinta alguma responsabilidade sobre o que naquele momento representou, para muitos, o imponderável. A pandemia não escolheu os seus mortos. Mesmo muitos daqueles que se cercaram de cuidados foram atingidos pelo vírus em uma fase em que a vacina ainda não havia sido disponibilizada.

Em uma época de um excessivo teatro confessional no Brasil, em que artistas usam o palco como lugar de terapia ou desabafo pessoal, Beth se faz valer da arte como um recurso inesperado – até porque a frase é de Clarice e ela protagoniza o solo desde 2009. O teatro foi capaz de se fundir com a vida e ampliar a mensagem sem que a artista fizesse esforços ou induzisse a plateia a determinada emoção.
Mesmo que sempre tenha subido ao palco parecida com a escritora, Beth, aos 65 anos, se aproxima mais visualmente da figura de Clarice. Os tons e os timbres da voz, a postura, o trabalho corporal, desenhados por uma marcante técnica desde a estreia, resultam mais naturais. A simbiose entre personagem e atriz transforma Simplesmente Eu, Clarice Lispector em um daqueles exemplos do teatro em que o personagem ganhou estofo graças às experiências em mutação do intérprete.
Além da própria Clarice, Beth evidencia o seu talento ao colocar no palco outras quatro personagens da ficção da escritora em um registro mais expressionista. Como Joana, do romance Perto do Coração Selvagem, a atriz supera o risco de representar uma menina com um domínio performático longe da caricatura. Lori, protagonista de outro romance, Uma Aprendizagem ou o Livros dos Prazeres, mergulha em sua própria alma para ouvir a si mesma e questionar o concretismo das posições apresentadas pelo marido, em uma mensagem mais impactante em 2026 que em 2009.
O discurso feminista também é ressaltado na performance de Ana, a personagem do conto Amor. A dona de casa devotada aos filhos e ao marido – como Beth enfatiza com mais vigor – entra em estado de epifania durante um passeio pelo Jardim Botânico ao encontrar um homem cego mascando chicletes e perceber que sua vida não é tão realizada. Com contornos absurdos surge a protagonista do conto Perdoando Deus, aquela que se sente plena ao andar pela rua até tomar um choque de realidade. Ela pisa em um rato, o que considera uma brutalidade pregada por Deus.
Este que vos escreve assistiu a Simplesmente Eu, Clarice Lispector pela terceira vez na noite da sexta, 22 de maio, no Moise Safra, um teatro localizado dentro do Colégio Renascença, na Barra Funda, que, inaugurado há um ano, começa a ser descoberto pelo público. A primeira vez foi no Rio de Janeiro em 2009, e a segunda, em 2010, na reta final das sessões em São Paulo. O que mais chama a atenção é o espetáculo conservar um frescor que não faz com que pareça que foi projetado há quase duas décadas – e isto acontece não só porque a atriz se recicla, mas porque a plateia também se renova.

Um espectador, bastante jovem, com um livro de Clarice nas mãos, à espera da protagonista no fim da sessão, me perguntou o que achei da peça. Respondi que gostava muito e já tinha visto, em 2009. “O ano em que nasci”, comentou o rapaz, admirado, emendando que estava lendo outras obras da autora, que “despontou na terceira fase do modernismo, depois de 1945”. Esta é uma amostragem da façanha do espetáculo, que prova a possibilidade de reunir em uma mesma plateia adolescentes e até pessoas acimas dos 60 ou 70 anos com interesse nas palavras de uma escritora que, mesmo longe da unanimidade, desafia o tempo.
O tempo, aliás, é o grande responsável por Simplesmente Eu, Clarice Lispector continuar um veículo favorável para Beth Goulart. O que poderia parecer acomodação – a atriz participou apenas de uma outra peça desde então, A Cerimônia do Adeus, dirigida por Ulysses Cruz, em 2023 –, representa um exercício de aperfeiçoamento a uma artista que já exercitou múltiplas possibilidades de seu ofício em cinco décadas de carreira.
Ela estreou nos palcos em O Efeito dos Raios Gama Sobre as Margaridas do Campo, dirigida por Antônio Abujamra (1932-2015), contracenando com a mãe, a irmã, Barbara Bruno, e a avó materna, Eleonor Bruno (1913-2004). Ganhou projeção nas novelas de televisão e permaneceu firme no teatro em propostas tão diversas como as do experimentalismo do diretor Gerald Thomas em Electra Com Creta (1987) e da superprodução musical Cabaret (1989), encenada por Jorge Takla.
Antes de Simplesmente Eu, Clarice Lispector, Beth foi a autora de seus textos em outros dois solos, Pierrot (1991) e Doroteia Minha (2002) e, ainda como intérprete, se destacou no clássico O Jardim das Cerejeiras (2000), nas propostas contemporâneas de Decadência (1999) e Quartett (2006) e no épico Os Sete Afluentes do Rio Ota (2003). Também escreveu para a mãe a peça Perdas e Ganhos (2014), adaptada do livro de Lya Luft (1938-2021).

Diante desta considerável experiência, Beth abraçou Clarice em um permanente equilíbrio da leitora devota desde a meninice e da atriz que sabe que, depois de um tempo, é importante conservar uma isenção para não descaracterizar a personagem. Esta equação faz o público se surpreender ainda hoje ao ver a artista na pele da escritora ou de suas criaturas literárias. A atriz permanece em ebulição para levar à cena a sua técnica e a sua dor pessoal, fazendo com quem o duplo se embaralhe em relação às palavras da Clarice no passado ou da Beth no presente.
Só que Beth tem a consciência de quem fala ali é a personagem e, mesmo que empreste vivência, é só a personagem diante de um cenário construído por Ronald Teixeira e Leobruno Gama, debaixo de uma luz desenhada por Maneco Quinderé e trajando figurinos criados por Beth Filipecki. O público enxerga o espetáculo sem esforços, e a atriz, com seu preparo, sabe que pode se parecer com ela, mas, mesmo que o público a enxergue como tal, não é Clarice. Assim, conserva a consciência de que vive um grande momento, talvez o seu maior momento profissional, e não desiste de compartilhá-lo com o maior número possível de espectadores.
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