Tem peça que é monólogo, tem outras com dois, no máximo três, atores em cena. Mas tem autor que enche o espetáculo de personagens. E, então, precisa dar conta de todos o tempo inteiro, mantendo a coerência na relação entre eles, encadeando cena por cena com pique, frescor e fluência no ritmo. O veterano pernambucano João Falcão é bom nisso. Os diálogos entre seus personagens são o que há de melhor em O Pequenino Grão de Areia, infantil em cartaz gratuitamente no Teatro do Sesi, em São Paulo.
Não há gorduras, frases empoladas, nada no texto se perde, se desperdiça. A peça é exemplar no quesito ‘como escrever bons diálogos’. Que conversas boas, que falas bem escritas… Luxo dos luxos. Ao mesmo tempo em que cada um no palco tem sua peculiaridade e suas características preservadas, juntos todos formam uma espécie de ‘voz coral’ que faz a trama avançar harmoniosamente. Ouvi-los é pura música. É constatar que um bom autor domina a síntese em cada frase – sabe valorizar a essência de cada palavra e dispensar as firulas desnecessárias. Um bom autor sabe que escrever para crianças não significa empobrecer as sentenças, descuidar da Inteligência dialógica. Ao contrário. Um bom autor, como João Falcão, recheia as conversas com poesia, cadência, metáforas, efeitos bem pensados que fazem a riqueza dos diálogos.

E, ainda assim, com toda essa sagacidade dramatúrgica voltada para a voz coletiva do elenco, O Pequenino Grão de Areia é de uma simplicidade tocante. A direção, do próprio autor, privilegia a palavra, seja falada ou cantada, e não inventa peripécias exibicionistas que prejudiquem o transcorrer de uma história fantasiosa bem contada. Do início ao fim, brincar é o verbo mais praticado em cena. Brincar junto. E como isso hoje precisa voltar a ser valorizado em nossas vidas… A peça termina, simples e eficiente, deixando gosto de quero mais. Porque é teatro que acolhe, feito para abraçar, não para se pavonear ou vomitar pregações.
Não que a montagem não tenha cenas desenhadas com rigor e primor. Claro que tem. A simplicidade está no conceito, mas a criatividade desse experiente encenador é ilimitada. Por exemplo: é preciso fazer um castelo de areia ser desmoronado pela violência das ondas do mar. Como fazer isso, sem ter água nem areia no palco? O teatro pode tudo. O resultado é perfeito, com uma solução simples, mas fascinante, que também remete ao verbo brincar.

O que se vê é a encenação musical de um amor proibido, ou improvável, entre um grão de areia e uma estrela no céu – enredo inspirado em velha canção do nosso repertório popular brasileiro. Entre o grão e a estrela, há uma nuvem, ameaçada pelo vento. Mote para a realização – muito bem resolvida – de uma cena de participação de plateia, que remete diretamente à conhecida brincadeira de olhar para o céu e ficar adivinhando o formato das nuvens, associando-as principalmente a bichos (lagarta, girafa, sapo). As crianças adoram – e esse artifício cênico é também outro momento magnético apoiado na simplicidade de brincar.
Há espaço ainda para a metalinguagem, com os personagens lembrando a plateia de que estão ali fazendo uma peça. “Esse número não é dessa peça”, brinca, por exemplo, um deles. “Não sei se perceberam, mas não é mais um ensaio, porque o público já está aqui’, avisa. Hilária é a repetição de “Fechem as cortinas! Fechem as cortinas!”, como se fosse uma desvairada rainha de copas bradando: “Cortem as cabeças!” Criança adora repetição e está aí mais uma inteligência associada ao simples.

Vale louvar também a chance que a peça não perde de falar com as crianças sobre diversidade. E já sai fazendo isso logo nas primeiras cenas, em que se deixa claro que “um grão de areia é só mais um grão de areia – e cada um tem sua cara, seu jeito, sua história para contar”. Impossível também, nas cenas em que os personagens se perfilam, não se impactar com o quanto os figurinistas Pablo Monaquezi e Tomie Savaget capricharam nos pisantes, calçados coloridos de uma criatividade ímpar.
Tudo é regado por boa música ao vivo, muito bem defendida pelo elenco impecável (Bia Rezi, Bruna Alimonda, Cleomácio Inácio, Fábio Enriquez, Ellise Ruiz, Leo Bahia, Paulo Machado e Renato Luciano), com direção musical e arranjos de Ricco Viana e letras originais de João Falcão. A canção do amor impossível é uma das mais belas da safra recente de teatro para crianças em São Paulo. Tem estofo para saltar da peça e ganhar os streamings.

O espetáculo, cujo texto estreou em 1983 e, desde então, já ganhou muitas montagens pelo Brasil, volta renovado e retrabalhado pelo autor, agora um vovô, que nos encanta do começo ao fim, mas sobretudo nos arrebata, a nós, adultos, quando ouvimos de um ingênuo personagem, ainda com muita vida pela frente, a seguinte pergunta: como é que se consegue evitar o apaixonamento? Como é que não se apaixona? Eis a questão.
E, assim, em uma peça que é toda centrada na palavra, coerentemente a solução final para a história de amor entre areia e estrela só poderia mesmo estar contida em uma palavra. Que genial. “No fundo, ninguém pode impedir um sonho de acontecer.” Em uma das palavras dessa frase está a solução. E não é sonho. Vá ver para crer.
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