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Companhia Brasileira de Teatro reflete sobre humanidade de Tchekhov em “Ao Vivo [Dentro da Cabeça de Alguém]”

O grupo, dirigido por Marcio Abreu, construiu a peça inspirado em uma memória da atriz Renata Sorrah, que viveu uma das personagens de “A Gaivota” em 1974

Notícias Por Dirceu Alves Jr.

O Eixo Teatro no Espelho, subdivisão da Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba, apresenta seis peças que abordam diferentes vertentes da produção artística. Três delas são inspiradas em A Gaivota, clássico do russo Anton Tchekhov (1860-1904), escrito em 1895. A história, em meio a tantos focos, mostra o contraste de gerações entre duas atrizes, a consagrada Arkádina e iniciante Nina, e dois escritores, Trigórin, que vive o seu auge, e Treplev, o jovem incapaz de decolar como dramaturgo.

Vem da Argentina Gaviota, encenação de Guillermo Cacace, com um elenco feminino de cinco intérpretes, que pode ser vista no Teatro Cleon Jacques em 31 de março e 1º de abril. Nos dias 3 e 4, é a vez de Júpiter e a Gaivota – É Impossível Viver Sem o Teatro no Guairinha. A montagem brasiliense, sob a direção de Ada Luana, evoca os dias atuais e sobrepõe as personagens femininas aos masculinos.

Foto: Nana Moraes

“Mas o que é montar Tchekhov hoje?”, pergunta o ator Rodrigo Bolzan em um bate-papo com os jornalistas que acompanham o festival. “Talvez seja a busca por esses diferentes diálogos entre o texto original e o que a gente vive nos anos de 2020”, trata ele mesmo de responder.

Bolzan é um dos integrantes da Companhia Brasileira de Teatro, grupo dirigido por Marcio Abreu, que apresenta o espetáculo Ao Vivo [Dentro da Cabeça de Alguém] no Teatro da Reitoria nos dias 27 e 28. Junto dele em cena estão o ator Rafael Bacelar e as atrizes Bárbara Arakaki, Bianca Manicongo e Renata Sorrah, parceira do coletivo há 13 anos.

O que passa na mente de um artista, no campo da memória individual e coletiva, e nas experiências vistas por outros olhos, que também podem ser individuais e coletivos? Está é a base da proposta de Ao Vivo [Dentro da Cabeça de Alguém]. O desejo de realizar um trabalho em torno de A Gaivota rondava os pensamentos de Abreu desde a pandemia, mas a sacada que catapultou a inspiração veio de uma lembrança compartilhada por Renata.

Foto: Nana Moraes

Em 1974, ela foi Nina, a aspirante ao estrelado, na versão dirigida por Jorge Lavelli, e dividiu o palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro com um elenco formado por Tereza Rachel, Sérgio Britto, Carlos Augusto Strazzer e Cecil Thiré, entre outros.

A caminho de um dos ensaios, Renata guiava o seu carro pelo Aterro do Flamengo e, do nada, teve uma epifania que a fez compreender a essência de Nina e lhe deu a segurança que tanto carecia para desempenhar o papel. Ela não sabe explicar muito bem o que sentiu, mas foi o suficiente para sacar que a base do autor russo vinha da simplicidade.

Este fio condutor faz com que os demais artistas compartilhem vivências que são intercaladas com os conflitos dos personagens da peça de Tchekhov como se todos estivessem no processo de criação de um espetáculo.

Foto: Nana Moraes

Na dramaturgia construída por Abreu, um elenco ensaia A Gaivota diante da plateia, e os temas da peça chegam ao público como se estivessem descolados da obra original. “Tchekhov nos dá uma dimensão de humanidade que temos dificuldade de enxergar e são temas que precisamos falar constantemente”, diz ele.

Como exemplos, o diretor e dramaturgo cita as noções sobre o que é arte na sociedade, as diferenças entre a vida no campo e na cidade e as problemáticas em torno da depressão e ao suicídio. “Tudo isto aparece em A Gaivota, está lá e por que não promover esses diálogos?”, indaga.

Foto: Nana Moraes

Renata Sorrah pede licença para ser imodesta e, como antiga intérprete de Nina, confessa que considerava que já tinha esgotado tudo o que era possível na personagem em seu trabalho na década de 1970. O deslumbramento ao viver Arkádina e contracenar com a travesti Bianca Manicongo, responsável por Nina, lhe mostrou que estava equivocada e novas percepções sobre a personagem se materializaram diante dos seus olhos. “Quando vi Bianca em cena, entendi que existem muitas possibilidades que a gente nem imagina e nem consigo dimensionar o quanto ela fez a personagem andar para frente”, observa Renata.

Bianca fica feliz com o elogio da colega, mas principalmente destaca a importância de novos corpos ocuparem a cena. Para ela, é fundamental as pessoas entenderem que artistas trans não estão no palco para cumprir uma cota, mas porque são dedicados e preparados para assumir tais papeis. “Vivemos uma urgência de não ver mais o teatro brasileiro que a gente sempre viu, repleto de pessoas brancas e iguais, mas pronto para receber artistas vindos da periferia e de perfis diversos”, comenta. “O teatro é um jeito de educar e reeducar essa formação tão eurocentrista que o brasileiro sempre recebeu.”

Márcio Abreu é carioca, veio morar em Curitiba em 1986, aos 16 anos, e, há duas décadas, vive novamente no Rio. Na capital paranaense fez a sua formação e fundou a Companhia Brasileira de Teatro, ao lado da atriz e produtora Cássia Damasceno, a atriz, diretora e iluminadora Nadja Naira e o diretor de produção José Maria. Volta ao Dia, a primeira peça do grupo, inspirado na obra do escritor argentino Julio Cortázar, chamou atenção no Fringe do festival de 2003 e rendeu apresentações no Rio e São Paulo.

A Companhia Brasileira de Teatro decolou de vez em 2010 com o espetáculo Vida, o primeiro visto por Renata, que ficou maravilhada e se dispôs a integrar algum projeto logo adiante. Em 2012, eles começaram em Curitiba o processo de Esta Criança, peça do francês Jöel Pommerat, e, desde então, a artista não se descolou mais do grupo.

Foto: Nana Moraes

Krum (2015), Preto (2017), Voo Livre (2023), além do monólogo on-line Em Companhia durante a pandemia, foram os outros trabalhos do coletivo com a participação de Renata antes de Ao Vivo [Dentro da Cabeça de Alguém]. “Eu tenho o orgulho de ter feito escolhas muito bacanas na minha carreira e estar aqui é uma das mais importantes”, garante a atriz. “Com o Marcio existe uma troca que se transforma em aprendizado de vida”.

A trajetória de Ao Vivo [Dentro da Cabeça de Alguém] ainda deve ser longa. A estreia foi em setembro no Teatro do Sesi, em São Paulo e, depois de três meses na capital, a peça excursionou por três cidades do interior paulista, São José do Rio Preto, Birigui e Franca. Em abril é a vez de Belo Horizonte, o mês de maio inteiro será no Teatro Carlos Gomes, no Rio, e, em agosto, todos viajam para Porto Alegre. “Para mim, todo teatro é político independentemente da linguagem e queremos levar os nossos espetáculos para todas as pessoas, sejam elas de esquerda ou de direita”, afirma Abreu.

Renata, aos 78 anos, olha para cada um dos colegas com admiração e respeito e festeja esse momento ao lado da Companhia Brasileira de Teatro que já atravessa 13 anos. “A vida é assim e que bom que sou atriz e estamos juntos”, vibra a estrela. “Eu tenho história, tenho com quem trocar e não podemos parar de trabalhar.”

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Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

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