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Foto: Massashi Saito
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De quantas histórias precisamos para curar nossas dores?

‘À Procura de João’, em cartaz no Teatro Arthur Azevedo, é um infantil que fala de uma criança com uma doença rara, mas oferece simbolicamente como possibilidade de cura a força frequente da imaginação e da fantasia em nossas vidas

Crítica Por Dib Carneiro Neto

Extremamente fascinante é observar as escolhas que cada dramaturgo faz para contar histórias no teatro. Porque uma mesma história pode ser contada/encenada de infinitas formas, em diversas linguagens, em diferentes tons. Esse detalhe foi o que mais atiçou meus pensamentos ao final de À Procura de João, peça infanto-juvenil em cartaz até 17 de maio no Teatro Arthur Azevedo, na Mooca.

Foto: Massashi Saito

O ponto de partida do enredo é a história real de um garoto que, por uma doença rara e sinistra, parou de falar, de se comunicar. Fica na cama em silêncio, intrigando médicos, exasperando a família. Essa é a trama – um tanto quanto hard, um tanto quanto triste. Mas como o espetáculo, criado, escrito e codirigido por Paula Chagas Autran, optou por colocá-la em cena? Tantas possibilidades ela tinha, tantas chaves a explorar. Foi piegas? Foi dramática? Foi pesada? Curiosamente, o nome da companhia é Cia. das Histórias Que Não Se Contam.

A força da cura está na frequência da nossa imaginação, na prática indelével da fantasia. Esse parece ter sido o caminho escolhido pela autora, ao rechear seu espetáculo de muitos personagens conhecidos do imaginário infantil, todos chamados João. O menino silenciado, de nome João (Rafael de Bonna), sempre gostou de ouvir do pai, antes de dormir, as histórias de seus xarás, João e Maria, João e Pé de Feijão, o João Pestana (figura folclórica portuguesa que carrega um pó mágico para fazer as pessoas dormirem) e até o João Grilo, personagem da maioria das histórias de cordel e que você certamente conhece do Auto da Compadecida. Esse time de Joões dá um ritmo inusitado e vivo a uma trama tão delicada. Acerto total de Paula Autran.

Outra força impregnada na peça do começo ao fim é o da cumplicidade entre irmãos, um tema tão rico a se explorar no teatro para crianças. João tem uma irmã, Carol (Camila dos Anjos), que jura conversar com ele, ainda que ninguém ouça a voz do menino, só ela. Um grande achado dramatúrgico. Carol é que tem a sacada mágica de estimular a imaginação e a fantasia do irmão, já que da realidade ele foge. Vira menos uma peça sobre uma criança vítima de uma doença provavelmente incurável e, muito mais do que isso, um espetáculo que celebra todo o afeto contido na cumplicidade entre irmãos. São escolhas que conduzem a dramaturgia por um caminho suave e tocante, sem pesar no drama real, mas também sem edulcorá-lo ou subestimá-lo.

Muitas lições só aprendemos ao virá-las do avesso, ao imaginarmos o seu contrário, a sua inversão. Um detalhe muito inteligente da direção (Paula em parceria com Fábio Brandi Torres) mostra o quanto fazer espetáculo para o público mirim não pode ser tarefa encarada como se fosse fácil, um teatro menor, com displicência na condução da trama só porque é teatro infantil. Veja que máximo: o menino se recusa a sair da cama, mas, na hora da fantasia com a irmã, é ele quem – mais de uma vez – insiste para ela descer da cama, entrar no jogo de fantasia. Ele a puxa e ela vai – uma inversão de papeis. Carol quer que, na vida, João saia da cama e volte a viver. João quer que Carol crie coragem e pule da cama para brincar com ele de faz de conta. Na hora das cenas, isso parece um detalhe imperceptível, mas, com a repetição, ganha uma força de inversão da expectativa, causando um efeito surpresa na relação entre as duas crianças. Pura Inteligência dos realizadores.

Foto: Massashi Saito

“Eu sou o João.” E o outro: “Eu é que sou o João.” Esse outro recurso reiterativo faz a garotada rir na plateia, também porque a cena acontece mais de uma vez. A autora soube tirar da repetição também o efeito risível. Não abandonar o humor, sobretudo quando o tema é assim tão solene, é fundamental nas peças de censura livre.

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Mas faço ressalvas. Os atores José Trassi e seu stand in Marcos Gomes estão ‘sobrecarregados’ de papeis. Eu vi a peça no dia do stand in, Marcos Gomes. Ele faz vários personagens, inclusive o pai, no seu entra-e-sai do palco. Isso é incrível para um intérprete. Essa ‘sobrecarga’ é uma chance e tanto. Mas senti falta de mais diferenças entre um personagem e outro. Não é mesmo fácil o que a peça cobra deles. O tempo pode resolver. Vi muito perto da estreia. Talvez a voz, algum trejeito, ou um bordão, o jogo de corpo – faltou algo mais que marcasse cada personagem com mais nuances. O design de luz de Lucas Gonçalves, diga-se, joga muito a favor desses momentos, bem como a trilha original do craque Sérvulo Augusto – ambos merecem aqui menções de louvor.

O final também, a meu ver, é algo a se ressalvar. A mesma coreografia do início (tipo ‘dancinha’, tão na moda) volta para encerrar o espetáculo. Dá a impressão de que não se sabia como acabar, então veio o recurso fácil das peças infantis de acabar dançando e cantando. Pena. Esse arremate um pouco mais potente teria feito a peça ficar perfeita.

Foto: Massashi Saito

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

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Dib Carneiro Neto

Dib Carneiro Neto

Jornalista, dramaturgo e crítico teatral. Começou a escrever críticas sobre teatro infantil em 1990, na revista Veja São Paulo. Foi editor-chefe do caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo (2003 a 2011). Atualmente, edita o site e canal do youtube Pecinha É a Vovozinha, que ganhou o Prêmio Governador do Estado em 2018, na categoria Artes para Crianças, além de menção honrosa no Prêmio Cbtij. Por sua peça Salmo 91, ganhou o Prêmio Shell de dramaturgo em 2008. Em 2018, ganhou o Jabuti pelo livro Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela.

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