Débora Falabella, 46 anos, se sentiu como a estrela de um show de rock na noite da terça, dia 25, no Festival de Curitiba. Diante de um Teatro Guaíra lotado com 2,3 mil pessoas, a atriz fez a primeira das duas sessões do monólogo Prima Facie, texto da australiana Suzie Miller dirigido por Yara de Novaes. Foi a maior plateia depois de um ano em casas cheias do Rio de Janeiro e de São Paulo e mais de 40 mil espectadores contabilizados. Aplausos incessantes por longos minutos, gritos entusiasmados de “bravo!” e silêncios não menos intensos transmitiram à protagonista a energia típica dos concertos musicais.
No fim da manhã seguinte, dia 26, Débora ainda se sentia contagiada pela troca com o público. “Eu cheguei a Curitiba gripada, preocupada com a voz, afinal falo sem parar durante duas horas, mas é impressionante como o teatro cura tudo na gente”, diz. “Foi uma das experiências mais emocionantes da minha vida.”

Somados aos pagantes desta noite, dia 26, que já registra lotação esgotada, a atriz terá compartilhado a história da advogada Tessa Ensler com 5 mil pessoas na capital paranaense, o que é um feito, ainda mais para uma história difícil, pesada, dura de encarar com uma inegável realidade. A peça segue em cartaz na capital paulista até o dia 30, no Teatro Vivo, e, a partir de 12 de abril, muda de endereço para o Teatro Faap, onde fica até 8 de junho.
“Com o teatro, a gente sempre ambiciona mudar alguma coisa nas pessoas, na sociedade, só que, às vezes, acha que isso jamais vai ser possível e, agora, estou vendo que é possível sim”, declara, orgulhosa. “O debate desse assunto chegou até as pessoas e faz com que a gente perceba que o nosso trabalho pode alcançar uma grande relevância.”

Prima Facie enfoca uma advogada bem-sucedida que, com seu pragmatismo, nunca diferenciou os clientes e, inclusive, defendeu vários homens acusados de violência sexual. Tessa Ensler vem de uma origem humilde, sua família contrasta com a sua realidade atual e ela batalhou muito para se destacar no mundo machista da advocacia. Entre os seus princípios está o de sempre defender diante de um juiz a “verdade” dos seus contratantes.
As certezas de Tessa desabam quando ela sofre um abuso sexual do namorado e, do outro lado do tribunal, vive o sofrimento denunciado por outras mulheres e a indiferença daqueles que pouco se dispõem a ouvir a sua narrativa. Débora garante que a virada dramática do espetáculo contagia a ela tanto quanto à plateia, que se surpreende e não esconde as reações diante do drama da personagem. “É muito emocionante o que eu sinto quando ela cai no abismo porque o público desaba junto no mesmo momento”, afirma. “É um exercício de presença enorme tanto para mim quanto para os espectadores que se concretiza em teatro de 300 lugares ou aqui, diante daquela multidão.”

Débora garante que nunca pretendeu ser porta-voz de causa alguma e deixa esta tarefa paras as personagens. No caso de Tessa Ensler, a intérprete observa o quanto a problemática atinge também a plateia masculina. “Vejo muitos homens acompanhados de suas mulheres que saem do teatro absolutamente mudos e acredito que eles devem pensar que é hora de rever atitudes do passado e do presente”, constata.
Para o público feminino, Prima Facie funciona, segundo a protagonista, como um “olha, você não está aqui sozinha, ok?” e pode acenar com um acolhimento para quem nunca teve coragem de compartilhar suas histórias. “É uma questão que vem lá de trás, de como criamos os nossos filhos e como eles são formados na escola e na faculdade”, diz. “É uma pauta que está na nossa frente e precisamos encará-la em algum momento para mudá-la.”
O extraordinário desempenho de Débora, reconhecido, entre, outros pelos jurados do Prêmio Shell e da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), é algo notável por qualquer pessoa que assiste ao espetáculo. É uma atriz no seu auge da forma técnica e física capaz de segurar duas horas de um solo verborrágico e exigente nas suas nuances emotivas. O desejo de fazer um monólogo rondava há algum tempo a cabeça da artista. A diretora Yara de Novaes, parceira de trabalho há quase três décadas, questionava essa pretensão da atriz. “Você tem certeza, Debinha, monólogo é uma coisa tão desanimada, imagina você sozinha no camarim…”, dizia a colega.

Débora foi em frente. Descobriu Prima Facie na época da pandemia através de uma montagem disponível na internet feita pelo National Theatre, de Londres, e correu atrás dos direitos autorais para comprá-los. Soube que a peça já tinha sido negociada por dois produtores brasileiros, Edson Fieschi e Luciano Borges, que, por coincidência, lhe telefonaram duas semanas depois com a intenção de convidá-la para o projeto. “Eu não acredito até hoje que fui a primeira opção deles e que me chamaram sem saber que eu queria fazer a peça”, brinca.
A atriz se colocou como coprodutora e, em uma fase de renovação da carreira, depois de duas décadas contratada pela Rede Globo, percebeu a liberdade de fazer teatro sem intercalar com outros compromissos. Prima Facie está em cartaz há um ano com sessões de quintas a domingos e com uma agenda fechada até o segundo semestre – algo inviável de programar com tanta antecedência se ainda vigorasse o vínculo com a televisão.
“Minha maior preocupação até hoje é de me esquecer do texto até porque tem uma menopausa chegando aí e sabe como é, não?”, comenta a atriz, divertindo-se. “Por isso, o texto ainda hoje fica em um canto do cenário para que eu possa acessá-lo se tiver aquele branco no palco.”
