Um ator, à beira dos 80 anos, comprova o valor da experiência ao se dividir entre 20 personagens em um monólogo. Um ator, à beira dos 80 anos, comprova o valor da experiência ao se dividir entre 20 personagens em um monólogo e atravessa 70 minutos sem usar microfone, algo cada vez mais raro. Um ator, à beira dos 80 anos, comprova o valor da experiência ao se dividir entre 20 personagens em um monólogo, atravessa 70 minutos sem usar microfone, algo cada vez mais raro, e uma destas personagens, a principal, é uma travesti.
O ator em questão é Edwin Luisi, 79 anos, protagonista de Eu Sou a Minha Própria Mulher, solo dirigido por Herson Capri, em cartaz no Teatro Faap, em São Paulo. A peça, escrita pelo dramaturgo estadunidense Doug Wright, também personagem da história, é um daqueles testes de maturidade que pode fazer muito artista veterano oscilar em meio a composições irregulares. Criar 20 personagens diferentes, ainda mais sem trocar o figurino ou recorrer a caracterizações específicas, é um desafio quase suicida que Luisi supera com uma versatilidade que só pode ser explicada pela técnica e o profundo domínio de palco.

Também quase suicida pode parecer a audácia de interpretar a travesti alemã Charlotte von Mahlsdorf (1928-2002), uma das precursoras da luta LGBTQIAPN+, em um tempo de acirradas batalhas pela representatividade. A personagem real enfrenta diferentes regimes autoritários sem abdicar da identidade e das convicções políticas.
Caso fosse escalada uma atriz travesti para o papel – e temos várias ótimas – a essência da peça de Doug Wright seria perdida, justifica Luisi, com razão. Trata-se de um texto para um único intérprete que, quem sabe, poderia ser de qualquer gênero, mas, neste caso, é um homem. Quem assiste ao espetáculo entende estas explicações do ator, o mesmo que se diz dono de um corpo a serviço de qualquer personagem. Pode ainda desconsiderar qualquer intenção de polêmica ou perde munição na hora de acusar Luisi de apropriação de um papel que naturalmente não seria seu.
Por estas e outras razões, Eu Sou a Minha Própria Mulher parece uma peça deslocada de sua época – e esta é a grande qualidade da encenação sóbria de Capri protagonizada por Luisi. Talvez por ela ter sido concebida e montada em 2007, quando o protagonista recebeu os principais prêmios no Rio de Janeiro e a representatividade nos palcos ainda não era um debate. Talvez por ela representar, diante destes aspectos, um tipo de teatro, considerado pelos preconceituosos como antigo, que se preocupava mais com rigores que discursos.
Mais provável é que seja porque tanto o protagonista como o diretor venham de uma outra escola, reconheçam a importância desta evolução nos últimos anos, mas acreditam, sobretudo, que a mensagem da dramaturgia de Wright seja uma pertinente aliada da causa LGBTQIAPN+ e jamais uma inimiga.

Luisi e Capri retomaram Eu Sou a Minha Própria Mulher em março deste ano, no Rio de Janeiro, e, na fase de ensaios, ouviram opiniões que os alertaram para possíveis patrulhas. Os dois confiaram na dramaturgia, fizeram leves adaptações e, pela primeira vez, apresentam o espetáculo em São Paulo, terra de Luisi.
O espectador se sente mergulhado em uma cápsula do tempo por ver em cena tantas coisas com que não está mais habituado e, principalmente, um ator capaz de tornar tudo verossímil em um palco quase vazio de recursos. É uma escrivaninha, uma cadeira e um gramofone – símbolo dos sonhos, contradições e defesa de Charlotte. “Na Segunda Guerra Mundial, quando os aviões dos aliados sobrevoavam Mahlsdorf e jogavam suas bombas, eu colocava músicas inglesas e americanas e ficava pensando, se eles lá em cima puderem ouvir o que eu estou ouvindo aqui embaixo, então saberão que sou sua amiga”, diz a personagem em uma cena
Bem, mas se você chegou até aqui neste texto, é importante conhecer mais da história. Charlotte von Mahlsdorf foi atriz, escritora e ativista, filha de um pai nazista que abusava de sua mãe e sofreu perseguições tanto dos seguidores de Adolf Hitler (1889-1945) como dos comunistas e capitalistas que racharam a Alemanha depois do Terceiro Reich. Aos 15 anos, ela vestiu roupas femininas, se olhou no espelho e, pela primeira vez, se enxergou de verdade. Lothar Berfelde, o nome dado por seus pais, perdeu a vez e ficou Charlotte.

À frente do Museu Gründerzeit, que expunha obras de arte e móveis resgatados de casas bombardeadas, a travesti conseguia reunir diariamente centenas de turistas interessados em antiguidades. Inspirada pelo movimento e a falta de preconceito dos frequentadores, ela inaugurou no porão um cabaré voltado ao público gay que desafiou por três décadas o sistema dos dois regimes dominantes no país. A sua história foi descoberta pelo jornalista estadunidense John Marks, amigo de Wright e também personagem da peça. Ele era correspondente de um jornal de Nova York na Alemanha, que, depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, passou a pesquisar testemunhas da rotina da finada parte oriental.
Wright se encantou por Charlotte, decidiu se aprofundar nesta biografia, tentou até aprender o idioma alemão para melhor entrevistá-la e, assim, nasceu a peça. Durante a apuração e a escrita, o autor encontrou contradições no caráter da protagonista que precisou refletir bastante até colocar no papel – e estas não serão reveladas aqui para não ofender quem detesta spoilers.
Entre as duas dezenas de personagens, além de Charlotte, do autor e do jornalista, Luisi interpreta o pai nazista, a mãe submissa, a tia lésbica que encoraja a sobrinha a assumir a sua identidade, oficiais hitleristas, policiais, um ministro da cultura, um âncora de telejornal e namorados da protagonista. São tipos suficientes para criar o mosaico de relações humanas de uma época que parece ter ficado para trás, mas, volta e meia, assombra de novo a sociedade.

Em 2026, Eu Sou a Minha Própria Mulher é uma peça muito mais relevante que em 2007. Naquela época, a causa LGBTQIAPN+ começava a avançar, a Secretária da Identidade e Diversidade Cultural, criada no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva e implantada pelo ator e secretário Sérgio Mamberti (1939-2021), dava os primeiros passos que se tornariam bastante significativos no futuro e o caminho, dali para frente, parecia ser apenas de evoluções e jamais de retrocessos. O tempo contrariou as expectativas, as regressões se apresentaram com força e o conservadorismo voltou a imperar na década seguinte, tendo a homofobia como um dos principais alvos.
Edwin Luisi é um ator que construiu a sua trajetória apoiado em evidentes transgressões, pelo menos para a sua geração. Alçado ao posto de galã da Rede Globo com a novela Escrava Isaura (1976), um fenômeno internacional de vendas da emissora, ele não se deslumbrou com a fama e manteve o pé firme na vocação construída na tradicional Escola de Arte Dramática (EAD), de São Paulo. Garante que recusou papéis de destaque na televisão em nome de projetos teatrais e acumulou um prestígio inquestionável.
Assumindo a primeira pessoa aqui, confesso que, até por questão de idade, não assisti aos ditos grandes momentos de Edwin Luisi no teatro. Sob a direção de Flávio Rangel, ele, todos afirmam, brilhou em À Margem da Vida (1976), de Tennessee Williams, Amadeus (1982), de Peter Shaffer, em que contracenou com o ator Raul Cortez na pele do compositor Wolfgang Amadeus Mozart, e Freud – No Distante País da Alma (1984), de Henry Denker, como o psicanalista Sigmund Freud, colecionando prêmios.

Reconheci o seu talento em comédias como Com a Pulga Atrás da Orelha (2002), de Georges Feydeau, Um Marido Ideal (2006), de Oscar Wilde, e Tango, Bolero e Cha, Cha, Cha, texto de Eloy Araújo dirigido por Bibi Ferreira, em que Luisi interpretava um pai de família que, depois de dez anos, volta como uma transexual.
Ainda na temática LGBTQIAPN+, aplaudi o trabalho do ator como o protagonista Alair, recorte biográfico do fotógrafo Alair Gomes (1921-1992) com dramaturgia de Gustavo Pinheiro e direção de Cesar Augusto, visto em São Paulo em 2017. Sem se fechar para o novo, Luisi já tinha dividido os holofotes com o ator Luís Melo em Terra de Ninguém (2014), de Harold Pinter, encenação de Roberto Alvim, em uma época em que nove entre dez intérpretes davam um dedo para trabalhar com Roberto Alvim.
Mas nada se compara ao desempenho de Edwin Luisi em Eu Sou a Minha Própria Mulher, que, apesar de não ser uma novidade, parece uma daquelas peças certas na hora certa. É uma peça que fala sobre o milagre da sobrevivência de uma pessoa LGBTQIAPN+ que, como tantas outras, poderia ter morrido aos 16 anos. E por que eu cito aos 16 anos? Porque está no texto de Doug Wright, escrito em 1993, sobre um fato ocorrido em 1944.
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