Clássico da dramaturgia latino-americana, Jogos na Hora da Sesta conta a história de um grupo de crianças que, nas brincadeiras vespertinas, reconstitui opressões e violências típicas do comportamento adulto. A peça, escrita por Roma Mahieu em 1976 e proibida dois anos depois pela ditadura argentina, investiga fatos que podem ficar perpetuados no imaginário infantil e desencadear traumas futuros.
Tal psicologização – ligada às vivências de cada um e à dramatização como forma de expurgá-las – rende discussões referentes ao psicodrama, técnica terapêutica em grupo. O assunto aqui, entretanto, é um espetáculo e, então, vamos ficar limitados à encenação em cartaz desde novembro no Espaço de Provocação Cultural, em São Paulo, que vem originando um curioso boca-a-boca.
Na verdade, O Exercício das Crianças, texto de Bruno Cavalcanti dirigido por Noemi Marinho, é o resultado absoluto de um não-teatro que se torna teatral na marra, explorando o essencial do jogo cênico. As atrizes Fernanda Viacava e Nicole Cordery se colocam por inteiro diante do público e, na tentativa de convencê-lo à força de que aquilo é uma representação, buscam todos os recursos possíveis em torno de um texto.

Não há um cenário, figurino, sonoplastia e nem mesmo há uma sala de teatro propriamente dita onde a peça é apresentada. O Exercício das Crianças ganhou montagem em uma garagem da Vila Romana, na zona oeste paulistana, com as paredes forradas de preto, poucas cadeiras de plástico e um acordo mútuo entre as intérpretes e os espectadores de embarcarem na emoção.
Fernanda e Nicole usam calças e blusas pretas, a iluminação praticamente não se altera em 60 minutos, e o espetáculo – ou o “play”, termo em inglês que significa “jogar”, “brincar” e até “peça de teatro” – ganha feições em torno deste nada que quer dizer de um tudo simbolizado na comunhão entre atrizes, texto e espectadores.
É como se as garotas de Jogos na Hora da Sesta tivessem crescido e a dramatização do passado tenha se tornado uma necessidade contínua de compreensão ou superação. Em O Exercício das Crianças, a ação explode a partir do reencontro de duas irmãs envolvidas em situações-limites que não se enxergam diante de uma realidade imposta.

Carla (interpretada por Nicole) deixou a casa da família há mais de 15 anos e não deu as caras nem para chorar a morte do pai. Até porque ela não tinha motivos para derramar lágrimas. Quem nesta década e meia segurou todas as barras, como a de cuidar do pai e de criar as sobrinhas, foi a irmã mais velha, Marta (papel de Fernanda), que, resignada, encontrou uma fuga na religião.
Agora, Carla bate na porta de casa com a intenção de ficar de vez. Está com um câncer em estágio avançado e pode durar só mais algumas semanas, meses ou anos. Não faz ideia de quanto exatamente e nem responde aos questionamentos de Marta com objetividade.
O drama familiar se estabelece com uma lavagem de roupas sujas que evolui para um acerto de contas capaz de revelar feridas não cicatrizadas. O abuso sexual dentro da própria família marcou a histórias delas e, entre a revolta e a complacência, cada uma finge lidar com a tragédia.

De acertos de contas, porém, o teatro está cheio e não são poucas as peças ao longo dos tempos que investem nesta temática. Caso O Exercício das Crianças fosse montado com uma relativa estrutura de produção ou em um teatro convencional, talvez fosse apenas mais uma peça como outras tantas em cartaz que abordam o assunto. O esforço coletivo para trabalhar com um orçamento que é praticamente zero impôs que a criatividade se tornasse a ferramenta para justificar o projeto como arte – e, neste mutirão, reside o diferencial.
Assim que o público entra na sala, Fernanda e Nicole são vistas alongando o corpo, como se fossem dar a largada ao processo de criação de um trabalho. Aqui já reside a primeira formalização de um pacto com o espectador – mais que duas personagens, o que se vê ali são duas artistas testando seus limites. O primeiro som ouvido é o de uma goteira emitido vocalmente pela dupla ao longo da peça como uma infiltração do imóvel que pode ser lido como um conta-gotas ou uma ampulheta que mede o tempo restante.
Este é o primeiro recurso que faz o teatro saltar aos olhos, ou melhor, aos ouvidos da íntima plateia. As conversas são interrompidas pelo sincronizado dueto que provoca o espectador em uma crescente agonia simbolizada pelo escoamento da água. Fernanda e Nicole mal se encaram, rostos voltados para o público, olhares perdidos e os diálogos rápidos, cortantes dão o tom da peça.

Muitas vezes, o espetáculo carrega uma influência do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), seja pelas repetições das falas ou pela maneira como as atrizes se colocam no palco. A postura da dupla pode remeter à peça Dias Felizes (1961), tendo Marta como a personagem beckettiana Winnie enterrada até a cintura e, no seu forçado otimismo, tentando tapar o sol com a peneira. As constantes citações ao pai, aos filhos de Carla que não chegam ou a Lázaro, o marido de Marta nunca visto antes, traz algo de Esperando Godot (1949), outra obra-prima de Beckett.
Noemi Marinho é uma atriz de vasta experiência que, nos últimos anos, renovou o fôlego de intérprete nos espetáculos Unfaithful (2017), Outono, Inverno ou O que Sonhamos Ontem (2022) e O Vazio na Mala (2024). Mas, além de tudo, Noemi é uma dramaturga reconhecida e pronta para enxergar potência cênica em textos que podem passar por um processo de subversão.
Não se sabe qual foi o grau de interferência – e nem interessa –, mas fica clara a contribuição de Noemi como dramaturgista em cima da obra de Cavalcanti, jovem autor de 31 anos, que tem o terceiro texto encenado. Suas peças anteriores foram dois monólogos de características distintas, Papo com o Diabo (2017) e Simplesmente Clô (2021), protagonizados pelo ator Eduardo Martini.

O primeiro era um esquete cômico alavancado como peça autônoma sem a menor sustentação, mesmo com a direção de Elias Andreato. O segundo, mais bem-sucedido como dramaturgia, traçou biografia do estilista Clodovil Hernandes (1937-2009), em que o destaque natural recaiu para a ótima composição de Martini.
Em seu primeiro drama, Cavalcanti dá uma guinada ao abordar abuso sexual, pedofilia e incesto, criando uma história que surpreende por colocar tais questões urgentes de um jeito quase coloquial. Por isso, o caráter absurdo da encenação e a forma com que as duas personagens são inseridas diante das situações traumáticas se apresentam como mais um diferencial.
Paira o tempo inteiro uma negação dos fatos que deixa a plateia em uma permanente dúvida sobre o tempo presente de Carla e Marta. Como qualquer realismo foi dispensando, as personagens podem ser muitas coisas, desde atrizes em uma improvisação cênica até pacientes de uma sessão de psicodrama ou mulheres privadas de sua liberdade, seja em um hospital psiquiátrico ou em uma penitenciária. O diálogo abaixo, no encerramento da peça, endossa algumas destas hipóteses.
“Precisamos contar essa história mais vezes”, diz a personagem de Fernanda, na cena final. “Quantas vezes mais?”, pergunta Nicole. “Até curar. Ainda não cicatrizamos”, responde a irmã mais velha. “Ainda não cicatrizamos”, concorda a outra. Cai a luz.
Para O Exercício das Crianças atingir um resultado concreto, ainda mais diante de tanta simplicidade, é fundamental a presença de atrizes calibradas que sustentem o formato da montagem. Em comum, Fernanda e Nicole acumulam passagens significativas em montagens do Grupo Tapa, dirigido por Eduardo Tolentino de Araujo, como Camaradagem, Contos de Sedução e Amargo Siciliano, e protagonizaram, respectivamente, os solos Gabri[ELAS] e Alice, Retrato de Mulher que Cozinha ao Fundo, ambos dirigidos por Malú Bazán.

Esta solidez alcançada pela prática de palco confere outra dramaticidade para as personagens de O Exercício das Crianças. O fato de as duas ficarem o tempo inteiro no limite do absurdo poderia afastar o espectador – o que não acontece –, caso não dessem credibilidade ao desafio.
Como empreendimento, O Exercício das Crianças não deixa de ser um exemplo notável. Disposta a colocar o trabalho no palco, a equipe vendeu ingressos antecipados que viabilizaram custos mínimos e garantiram a dignidade de um projeto que, mesmo sem grande apelo comercial, desperta interesse em diferentes nichos. A iniciativa recupera um mecanismo de produção que, de tempos em tempos, reaparece nos palcos paulistanos e, consequentemente, pode render derivados em razão de uma boa aceitação.
A última leva significativa ocorreu no auge da Praça Roosevelt, na segunda metade da década de 2000, quando o Espaço dos Satyros e o Espaço Parlapatões receberam temporadas de produções de pequeno porte que atingiram relevância e marcaram a cena daquele período. Em pouco tempo, o extinto Viga Espaço Cênico, de Perdizes, se firmou como outro ponto de circulação e até os teatros Augusta e Imprensa, que já fecharam, abriram pequenas salas destinadas à experimentação.
É o chamado “teatro alternativo” encontrando maneiras de se manter de pé, e O Exercício das Crianças mostra que tal rótulo não significa em nada falta de qualidade e ambição. Pode ser da união de bons profissionais que vingue uma nova realidade teatral, diferente da atual, que cambaleia em meio à dependência de fomentos capazes de minguar com a energia dos artistas.