Um elenco estelar, para dizer o mínimo. As atrizes Cláudia Abreu, Deborah Evelyn e Julia Lemmertz e os atores Leandro Santanna, Orã Figueiredo e Paulo Betti, acompanhados do músico Caio Padilha, abriram o Festival de Curitiba nesta segunda, dia 25. O poderoso time apresentou no Teatro Positivo o espetáculo Os Mambembes, releitura do clássico de Artur Azevedo (1855-1908) dirigida por Emílio de Mello, que, desde o fim do ano passado, percorre praças e espaços públicos do país.

Escrita em 1904, a comédia acompanha as aventuras de uma companhia teatral itinerante que viaja o Brasil. Para completar o espírito vibrante e popular, a noite de abertura da 33ª edição do evento teve como mestre de cerimônias o comentarista, cenógrafo e carnavalesco Milton Cunha. “Os Mambembes é um espetáculo que conversa com todo o tipo de espectador e homenageia os artistas”, define Fabíula Passini, que dirige o festival ao lado de Leandro Knopfholz.
Esta é a tônica da maior mostra de artes cênicas do país, que se estende até 6 de abril com cerca de 350 montagens. Se as duas últimas edições privilegiaram um olhar para a diversidade e os temas sociais e políticos, a de 2025 busca ampliar a comunicação com as plateias, tanto aquelas habituadas ao festival como as novas que podem, inclusive, renovar o público dos próximos anos. A expectativa é reunir aproximadamente 200 mil interessados na programação que contempla teatro, dança, circo, humor, música, oficinas, performances e gastronomia espalhada por 70 espaços da capital paranaense.

O 33º Festival de Teatro de Curitiba recebe espetáculos de todos os cantos do país, além de três produções da Argentina e uma do Uruguai. O monólogo El Desmontaje, representante do Uruguai nos dias 29 e 30, na Caixa Cultural, é protagonizado por Jimena Márquez. Em cena, a atriz realiza um híbrido de conferência, documentário e peça com histórias pessoais e de artistas conterrâneos.

Da Argentina aparecem A Velocidade da Luz, criado pelo diretor Marco Canale, No Estoy Solo, performance do ator Iván Haidar, e Gaviota, encenação de Guillermo Cacace para o clássico A Gaivota, do russo Anton Tchekhov (1860-1904), com um elenco de cinco atrizes. O primeiro desperta curiosidade porque é montado com idosos, atores e não atores, que compartilham memórias da cidade em que vivem, neste caso, Curitiba. A equipe de Canale trabalha no Paraná desde o começo do mês com 30 candidatos selecionados para a encenação na Praça Santos Andrade em 5 e 6 de abril.
A mesma Gaivota, de Tchekhov, serve de base para dois outros trabalhos. Ao Vivo [Dentro da Cabeça de Alguém], parceria da Companhia Brasileira de Teatro com a atriz Renata Sorrah, e Júpiter e a Gaivota – É Impossível Viver sem Teatro, dramaturgia e direção de Ada Luna vinda de Brasília. Os dois espetáculos dividem espaço com outras 24 produções na Mostra Lúcia Camargo, a principal vitrine do festival, que promove os destaques da cena na atualidade em uma curadoria da pesquisadora Daniele Sampaio, da atriz e produtora Giovana Soar e do crítico Patrick Pessoa.

Prima Facie, celebrado monólogo de Débora Falabella, é o destaque das noites de 25 e 26 no Teatro Guaíra. O musical Ray – Você não me Conhece, dirigido por Rodrigo Portella em torno da biografia de Ray Charles (1930-2004), Brilho Eterno, comédia romântica protagonizada por Reynaldo Gianecchini e Tainá Müller, O Céu da Língua, solo de Gregório Duvivier, e O Avesso do Avesso, esquetes com Heloísa Périssé e Marcelo Serrado, são outras peças que garantem a lotação dos 2,5 mil lugares do Guaíra. Muitas já estão com ingressos esgotados e abriram até sessões extras.

Ainda dentro da Mostra Lúcia Camargo, vale a pena prestar atenção em Alaska, peça dirigida e protagonizada por Rodrigo Pandolfo, Daqui Ninguém Sai, montagem curitibana baseada na obra de Dalton Trevisan (1925-2024), Monga, solo cearense criado e interpretado por Jéssica Teixeira, e In on It, dueto interpretativo de Fernando Eiras e Emílio de Mello que volta aos palcos 15 anos depois. Também de Curitiba são Cabaré Haikai, dirigido por Roddrigo Fôrnos, e Nebulosa de Baco, peça com Rosana Stavis e Helena de Jorge Portela comandada por Marcos Damaceno.

Duas produções laureadas este mês com o Prêmio Shell, uma paulistana e outra carioca, viajam até Curitiba. De São Paulo, uma provocativa versão de Rei Lear, de Shakespeare, rendeu o troféu de melhor ator para Alexia Twister. Já Língua, produção do Rio de Janeiro dirigida por Vinicius Arneiro, que escreveu o texto premiado como melhor dramaturgia ao lado de Pedro Emanuel, reflete sobre a dificuldade de comunicação.

A mostra paralela Fringe é motivo de festa para quem gosta de catar novidades e corre o festival atrás de apostas. São 280 espetáculos, reunindo mais de 1 800 artistas e técnicos de doze estados brasileiros, como Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Espírito Santo, Minas Gerais e Distrito Federal, além de grupos da Argentina, Peru e Bolívia. Mais de 150 destas peças terão entrada franca e 18 serão no sistema “Pague Quanto Puder”.

Radicado em São Paulo, o dramaturgo e diretor Mário Bortolotto é um dos destaques do Fringe com a sua companhia Cemitério de Automóveis. O artista marca presença com quatro peças, Efeito Urtigão, Notícias de Naufrágios, Deve ser do Caralho o Carnaval em Bonifácio e Whisky e Hambúrguer, e um show da sua banda de rock e blues Saco de Ratos. “O Fringe é sempre uma forma de renovação e simboliza a pluralidade que tanto perseguimos no festival”, defende Fabíula Passini. É bom ficar atento porque o Fringe, em meio à imensa oferta, costuma render descobertas surpreendentes.