Em uma fase de intensa produtividade, o dramaturgo Newton Moreno, de 57 anos, é presença constante na cena brasileira neste 2026 com diversos espetáculos. Em abril, chegou aos palcos As Centenárias, adaptação musical do autor para a própria obra, lançada em prosa pelas atrizes Andrea Beltrão e Marieta Severo em 2008, desta vez protagonizada por Laila Garin e Juliana Linhares.
A mesma Laila interpreta a célebre cantora francesa em Piaf – Eu não me Arrependo, dramaturgia de Moreno e Alessandro Toller, que estreia no Teatro Bradesco, em São Paulo, neste 7 de agosto. Enquanto isso, na reta final dos ensaios, Gil – Andar com Fé – O Musical promete ganhar a cena no Teatro Santander no dia 20, sob a direção de Miguel Falabella, para tratar do compositor Gilberto Gil.
Entre tantas superproduções de inegável apelo popular e divulgações maciças é possível que a mais preciosa das joias da safra recente de Moreno passe despercebida pelo público. O monólogo A Última Cova, dirigido por Ana Rosa Genari Tezza e protagonizado por Marco França, atravessou o mês de julho em temporada no intimista espaço cênico do Sesc Pompeia e troca de endereço a partir deste sábado, dia 8.

Exemplar do talento de Moreno para extrair poesia de questões dolorosas da vida, a peça pode ser vista no Espaço Cia. da Revista, em Santa Cecília, na mesma São Paulo onde o autor recifense mora desde 1990. Em cena, além de França, estão os músicos Bruno Menegatti e Juliano Veríssimo.
Formado em administração na sua terra, Moreno veio para a capital paulista trabalhar com hotelaria até que o interesse pelo teatro levou o jovem a se matricular na faculdade de artes cênicas da Unicamp, em Campinas, e se iniciou uma nova página da história. Em 2001, o pernambucano criou o primeiro texto, Deus Sabia de Tudo…, marco inicial também da Cia. Os Fofos Encenam. Três anos depois, veio o reconhecimento com a peça Agreste, premiada com o Shell e pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor dramaturgia, e a popularidade chegou através de As Centenárias, montada por Andrea e Marieta em 2008, e Maria do Caritó, estrelada por Lilia Cabral em 2010.
Ao contrário de tantos nordestinos que se mudam para São Paulo em busca de oportunidades, inclusive Moreno, o coveiro Djalma, o personagem do monólogo, chegou à metrópole com um outro objetivo. Ele procurava a mãe que o deixou ainda muito pequeno junto do pai no Rio Grande do Norte, “que veve seco, onde o Brasil fai a curva”.

Como pista, o filho inconformado tem só um pedaço de papel, identificado como uma passagem de ônibus para “Sumpaulo”, um antigo retrato dela e a obsessão de entender o abandono. Com a morte do pai, ele se sente livre para pegar a estrada e investigar um passado do qual só tem referências pela narrativa paterna. Na bagagem, entre os poucos pertences, traz uma pá, batizada de “potiguar”, instrumento fundamental para o seu ofício de enterrar e, neste caso, desenterrar vidas. “Em São Paulo, metade dos nordestinos é coveiro e a outra é porteiro”, diz o personagem.
A Última Cova saltou da cabeça do dramaturgo depois de uma provocação de Marco França. O ator assistiu a uma peça em Santiago do Chile sobre um coveiro que viveu a ditadura franquista na Espanha, pensou no cemitério como um lugar de memórias e lançou a encomenda, já que Moreno é o dramaturgo brasileiro da “morte”. O título se justifica pela habilidade do autor em contar histórias que ressignificam o tema tão pesado, na maioria das vezes conferindo um ar poético e, às vezes, engraçado.
Em As Centenárias, por exemplo, duas carpideiras vivem das encomendas recebidas para chorar a morte em velórios do sertão nordestino e uma delas, Zaninha, tenta enganar de todas as formas a dita que prometeu levar seu filho. Já Imortais, brilhante e pouco lembrado texto dirigido por Inez Viana em 2017, é ambientado em um cemitério. Na trama, uma viúva (interpretada por Denise Weinberg), sofrendo de uma doença terminal, se instala em um túmulo próximo ao do marido para esperar o próprio fim. O tema apareceu ainda, sob diferentes enfoques, em Assombrações do Recife Velho (2005), A Refeição e VemVai, O Caminho dos Mortos, ambos de 2007, e, mais recentemente, em Sueño (2021) e O Ninho, um Recado da Raiz (2024).

Seguindo a trilha da oralidade, tradicional nos repentes e ressaltada na literatura brasileira atual, A Última Cova conquista a atenção e emociona o público por suas múltiplas histórias, todas contadas e inseridas dentro da trajetória de Djalma. Para explicar o encanto pelo ofício, o coveiro-narrador enfileira causos testemunhados entre os túmulos em que passou boa parte da vida.
Entre eles estão o do enterro da prostituta boa de cama e de coração que reservava um dia na semana para atender os mendigos e virou a cabeça da primeira-dama da cidade. Em outra situação, Enedino, tal qual o Vadinho de Dona Flor, é o defunto que visitava a viúva fogosa. Tem ainda as histórias de uma outra viúva, aquela que gamou pelo pé de jaca plantado ao lado do jazigo do marido, e a da mulher que fez de tudo para ser enterrada junto do seu cachorro.
A crítica social aparece através de referências às lucrativas burocracias que envolvem um enterro, a privatização dos cemitérios e ao genocídio da Covid-19, quando faltou terra para tantos corpos. Moreno fala de tudo isso sem pesar para o espectador e tampouco emitir juízo de valores, e uma contribuição fundamental para tal atmosfera lúdica é a cenografia criada por Kleber Montanheiro.

Como tudo parte da memória do protagonista, Montanheiro organizou uma série de relicários que remete à imaginação de Djalma e a sua visão sobre cada narrativa e personagem. Tudo é ressaltado pelo desenho de luz idealizado por Gabriele Souza, iluminadora talentosa e onipresente na cena paulistana atual, marcado por sombra e tons que simbolizam tanto a aridez da terra quanto o cinza do asfalto.
Potiguar radicado em São Paulo desde 2016, Marco França, de 49 anos, é um daqueles atores acostumados a dividir os holofotes com extensos elencos que, agora, ganha a oportunidade de jogar em cena todo o seu talento sem ser obrigado a dividir as atenções com quase ninguém.
Entre 2000 e 2015, França integrou como ator e diretor musical a Cia. Clowns de Shakespeare, fundada em 1993 no Rio Grande do Norte, com um repertório que explora elementos da cultura popular e, apesar do nome, não se limita às obras do bardo inglês. Foi, porém, Sua Incelença, Ricardo III, adaptação para as ruas de Ricardo III dirigida por Gabriel Villela, que, entre 2010 e 2012, consagrou França na pele do maquiavélico monarca.

Em São Paulo, o artista transita entre a atuação e a direção musical em peças como A Tempestade (2015), Peer Gynt (2016) e Estado de Sítio (2018), encenadas por Villela, Roque Santeiro, O Musical (2017), comandado por Debora Dubois, e As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão (2019), outra dramaturgia de Moreno levada ao palco por Sergio Módena. Tatuagem e João, dirigidas por Montanheiro, além de Rita Lee, Uma Autobiografia Musical, em que divide a tarefa com Marcio Guimarães, são exemplos do trabalho como diretor musical. Em incursões no audiovisual, França participou das novelas Mar do Sertão (2022), No Rancho Fundo (2024) e Guerreiros do Sol (2025), na Rede Globo.
Também com uma trajetória ligada aos coletivos, a diretora Ana Rosa Genari Tezza, de 58 anos, é fundadora da companhia curitibana Ave Lola. Do grupo foram vistos na capital paulista os espetáculos O Malefício da Mariposa (2013), Tchekhov (2014), Nuon (2017) e Cão Vadio (2024), além do recente Sonho de uma Noite de Verão. Ana Rosa combina elementos da palhaçaria e da cultura popular aliados à metáfora política, algo comum às temáticas regionais exploradas por Moreno desde os tempos em que era integrante de Os Fofos Encenam.

Todo mundo fala que um solo não é o veículo de um artista isolado, no caso o protagonista. A Última Cova, ao mesmo tempo em que confirma, renega a teoria. É óbvio que a obra só está de pé por causa do brilhante texto de Moreno e da direção sintonizada de Ana Rosa, além dos acertos do resto da equipe criativa, mas deve ser aproveitada a hora para celebrar e, quem sabe, descobrir o talento de Marco França.
Como intérprete, ele segura um monólogo por 90 minutos, quando a maioria dos solos mal passa dos 60, transitando por diferentes registros e levando o público do riso à lágrima. Normalmente, França sobe ao palco bastante caracterizado, e a plateia não se preocupe em desvendar a sua fisionomia por trás do personagem – o que, em muitos casos, é positivo, mas pode contribuir para deixar um artista no anonimato, algo que hoje não é mais tão interessante.
Em A Última Cova, Djalma é a alma e nada, nem a ideia do espetáculo, existiria sem o protagonista. Talvez o Brasil não tenha a real dimensão do grande intérprete que Marco França é. A Última Cova surge como o canal perfeito para acabar com isso. Chegou a hora de descobri-lo, aplaudi-lo e, quem sabe, premiá-lo.

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.



