Em uma temporada farta na evocação de grandes cantoras brasileiras, Minha Estrela Dalva estreou no Teatro do Sesi, em São Paulo, como mais uma contribuição à memória da música nacional, aquela considerada por muitos a melhor do mundo. Pelos palcos da capital paulista ou do Rio de Janeiro podem ser vistos ainda Rita Lee, Uma Autobiografia Musical, Gal, O Musical, Os Olhos de Nara Leão, Prazer, Zezé!, sobre Zezé Motta, e Fafá de Belém, O Musical.
Donas das vozes marcantes e retratos de suas épocas para uma audiência de milhões, elas são interpretadas respectivamente por Mel Lisboa, Walerie Gondim, Zeze Polessa, Larissa Noel e, por último, Laura Saab, Helga Nemetik e Lucinha Lins, em diferentes fases da artista paraense. Mas o assunto aqui é Dalva de Oliveira (1917-1972), uma das grandes estrelas do rádio, talvez a maior, representada por Soraya Ravenle, que, em outros musicais, já foi Dolores Duran (1930-1959), Carmen Miranda (1909-1955) e Isaurinha Garcia (1923-1993). No auge da maturidade, a atriz e cantora, aos 63 anos, sabe o que faz e demonstra uma compreensão única do que oferece em cena.

Em comum, todos estes espetáculos em cartaz são baseados nas biografias das cantoras e mapeiam as suas vidas e obras como reflexo da cultura e da sociedade brasileira de cada tempo. Quer dizer, quase todos. Minha Estrela Dalva, escrito por Renato Borghi e dirigido por Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas, não se propõe a detalhar uma cronologia sobre a personagem e é definido no programa da montagem como um “documentário delirante”.
Ótima definição. Pode parecer um paradoxo, afinal documentários são marcados pela exatidão das informações, só que, neste caso, não importa. A estrela do título é a Dalva do seu autor, a Dalva de Borghi, admirador incondicional, em uma leitura onírica capaz de habitar a imaginação de um fã em uma declaração de amor ao ídolo. A narrativa, lógico, não dispensa uma noção mínima de fatos para ajudar a entender quem foi e qual é o legado da artista. A subjetividade, no entanto, permeia e ajuda na compreensão da dramaturgia e da encenação.
Renato de Castro Borghi, carioca da Tijuca, hoje com 89 anos e quase sete décadas de serviços prestados ao teatro brasileiro, ouviu Dalva pela primeira vez aos 6 anos. Não li isso no programa e tampouco descobri assistindo à peça, embora a passagem esteja lá, devidamente narrada. Borghi conta em suas entrevistas sempre que tem oportunidade, coisa de homem apaixonado, e já ouvi de sua boca várias vezes.

Era um disco de 78 rotações com o conto de fadas de Branca de Neve e os Setes Anos, e a voz era de Dalva, como respondeu Dona Maria, a mãe do pequeno, que não disfarçou o deslumbramento. Ali, provavelmente, nasceu a sensibilidade do artista, aquele que, em 1958, fundaria em São Paulo o Teatro Oficina, ao lado de alguns colegas da faculdade de direito do Largo São Francisco, mas principalmente de Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023), e, numa trajetória de indiscutível coerência, nunca traiu a sua base das artes cênicas, o texto dramático e a interpretação, um díptico descoberto através de Dalva.
Em 1987, Borghi, em uma entressafra de carreira, reencontrou o sucesso graças à cantora. Ele escreveu a peça A Estrela Dalva, um dos primeiros musicais biográficos brasileiros, estrelado por Marília Pêra (1943-2015), que tinha em seu coro uma artista estreante, a jovem Soraya, a Dalva de agora. A ideia deste texto, porém, não é ser documental. Afinal, como já disse, até o espetáculo foge desta proposta, então vamos partir para a viagem de Borghi compartilhada com o público.

Mais que o ator e dramaturgo, o fã Renato Borghi é o narrador e coprotagonista de Minha Estrela Dalva. É a sua visão pessoal e intransferível que interessa e é propagada ao longo da montagem, que, durante vários momentos, serve de celebração a ele e à cantora em proporção semelhante. No túnel do tempo, ele se duplica graças à interpretação afetuosa de Elcio Nogueira Seixas, o jovem Borghi, que visita o camarim de Dalva na fase final de sua vida. Ela está fazendo shows em uma boate de São Paulo, já amargurada por um quase esquecimento, abusando do álcool e triste com a própria imagem vista no espelho.
O ator, que protagonizava Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht (1898-1956), estava apaixonado pelo dramaturgo alemão e, ao descobrir as parcerias musicais dele com Kurt Weill (1900-1950), sonha em montar um espetáculo com Dalva interpretando estas canções. A cantora, aliás, chegou a assistir à peça no Teatro Oficina e, neste trecho, a memória de Borghi reina sobre a invenção.

O projeto, claro, não teve tempo de ser concretizado e, só agora, virou uma realidade, dentro da proposta fantasiosa de Minha Estrela Dalva. No Teatro do Sesi, em 2026, finalmente Borghi coloca Dalva para ensaiar alguns números do roteiro pretendido e ela chega a cantar Brecht e Weill, no caso Jenny dos Piratas, inspiração de Chico Buarque para criar Geni e o Zepelim na sua Ópera do Malandro. Bem, quem canta é Soraya, mas estamos entendidos.
Se Borghi e Nogueira Seixas representam o teatro épico brechtiano em cena, em que os atores jamais se distanciam dos personagens e resulta tudo em uma coisa só, Soraya é o inverso total na maior parte do tempo. Ela tira de dentro de si uma Dalva que é só dela em uma interpretação de rara conjugação entre técnica e passionalidade, arroubos de precisão e controle emotivo ou vice-versa.
Sob a direção musical de William Guedes, a protagonista traz à tona os grandes clássicos do repertório da estrela e, apoiada por sete instrumentistas, canta Bom Dia, Tudo Acabado, Errei Sim, Olhos Verdes, Ave Maria do Morro e por aí vai. O tal teatro épico para Soraya só se assume explicitamente na reta final do espetáculo, quando a atriz se desmascara para falar de si e o resto já pode parecer spoiler.

Cabe ao ator Ivan Vellame interpretar os outros homens da vida de Dalva, como o compositor Herivelto Martins (1912-1992) e Bruno, o último amor da artista, que aparece como um aproveitador, na visão do dramaturgo. Vellame representa ainda outros três personagens e demonstra versatilidade nestas transformações.
Entre 1937 e 1947, Dalva foi casada com Herivelto e, depois da separação, o casal protagonizou uma briga atípica no universo das celebridades, expondo as mágoas e ressentimentos através das canções que lançavam e nem sempre eram percebidas pelo público como desabafos verídicos. “As gravadoras impunham padrões autoritários, e as intérpretes podiam cantar o abandono, a paixão, mas não confrontar as estruturas que produziam estas dores”, afirma o codiretor Elias Andreato.

Os figurinos deslumbrantes de Fábio Namatame injetam cores variadas na cenografia minimalista criada por Márcia Moon, dominada pelo branco, que reproduz escadarias que contribuem para o clima fantasioso. É a iluminação desenhada por Wagner Pinto, entretanto, que faz o espectador transitar entre o sonho e a realidade, e o ápice é a cena final em que Soraya canta Hino ao Amor e parece flutuar em um céu de estrelas em uma das imagens mais comoventes do teatro brasileiro recente.
Minha Estrela Dalva não é um espetáculo para ser avaliado por suas qualidades técnicas, mesmo que elas sejam muitas, mas apreciado pela emoção. Foi assim que Borghi o escreveu e o conduz em cena, e Nogueira Seixas e Vellame contribuem com suas performances. Ninguém duvida de que Borghi e Nogueira Seixas, presentes simultaneamente em cena, sejam o apaixonado Renato diante da sua estrela Dalva e, mesmo que um público mais jovem possa desconhecer a biografia da cantora, o que importa é encará-la como uma personagem e isto a montagem entrega com plenitude.

Quando se vai aos espetáculos sobre Rita, Gal, Nara, Zezé e Fafá, cada um já tem a imagem da cantora na cabeça e no coração – até porque elas são muito presentes o tempo inteiro na mídia, felizmente. Dalva não chegou a ser fartamente eternizada pela televisão. Pelo contrário, foi boicotada pelo veículo em ascensão nos anos de 1960 que buscava jovens mais fotogênicos e ousados.
Aqui, o que interessa é visão de Borghi, que desenha ao espectador a sua Dalva, a rainha do rádio, aquela que poderia ter qualquer rosto desde que a voz não fraquejasse. Apoiada na composição magistral de Soraya Ravenle, sua imagem se eterniza até na mente daqueles que jamais a conheceram mesmo por fotografia.

Por causa do espetáculo, talvez muitos saiam do teatro interessados em pesquisar e ouvir o que existe disponível dela na internet, busquem a série da Globo protagonizada por Adriana Esteves e, nestas possíveis consequências, temos o valor incontestável deste “documentário delirante”. A missão de Borghi foi cumprida e plenamente compreendida por Andreato e Nogueira Seixas. Por causa do imaginário do ator, dramaturgo e fã – e, quem sabe, não somente por ele daqui para frente –, Dalva vive e sua memória ganha novo fôlego.
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