Em 1976, o ator Juca de Oliveira (1935-2026) simbolizava a metáfora da liberdade criada pelo autor Dias Gomes (1922-1999) contra a ditadura militar na novela Saramandaia. Na pele de João Gibão, ele voava no último capítulo da trama ao som da canção Pavão Misterioso, de Ednardo, superior aos abusos de poder cometidos na cidade fictícia, em uma cena emblemática da teledramaturgia.
Na vida real, porém, Juca, aos 41 anos, se sentia amarrado, preso a um contrato de televisão que o exigia participações seguidas em novelas, a maioria das vezes defendendo personagens que pouco o empolgavam. O artista não se considerava independente, livre o suficiente, inclusive sob o ponto de vista financeiro, para se dedicar com plenitude ao que mais queria, o teatro.
Com o fim da novela Pecado Rasgado, escrita por Silvio de Abreu dois anos depois, o artista virou a própria mesa e planejou como também poderia voar. Rompeu o vínculo com a Globo e, sentado diante da máquina de escrever, passou a criar as próprias peças, reservando para si quase sempre, além da autoria, um dos papéis principais.
Na cabeça, tinha um objetivo inegociável, a comunicação imediata com o público. Afinal, além da realização profissional, Juca precisava sustentar uma filha pequena, e o seu patrimônio, na época, era um apartamento modesto no bairro de Santa Cecília, região central de São Paulo.

Baixa Sociedade, lançada em 1979, foi a primeira de suas peças e, diante da resposta entusiasmada dos espectadores, o dramaturgo em ascensão não deu folga ao teclado da máquina de escrever. Na sequência, vieram Motel Paradiso (1982), Meno Male (1987), Qualquer Gato Vira-Lata Tem uma Vida Sexual mais Sadia que a Nossa (1990), As Atrizes (1991), Caixa 2 (1997) e por aí foi.
O intérprete só foi priorizado em espetáculos que lhe proporcionaram grandes voos dramáticos, a exemplo das peças De Braços Abertos (1984), texto de Maria Adelaide Amaral, e A Quarta Estação (1995), do estadunidense Israel Horovitz, dirigidas respectivamente por José Possi Neto e Fauzi Arap (1938-2013).
Como dramaturgo, Juca de Oliveira recuperou as raízes dos comediógrafos pioneiros do teatro brasileiro, como Martins Pena (1815–1848), Artur Azevedo (1855-1908) e França Jr. (1838–1890) ao extrair graça da falsa moral em diferentes classes sociais e mostrar que comportamentos éticos discutíveis são comuns a todos. Nos exemplares mais bem-sucedidos de sua obra, ele se aprofundou na sátira política inspirado em escândalos que lia nas páginas dos jornais.
Era algo que parecia perdido no teatro brasileiro, esse riso leve, mas sem superficialidade ou alienação. Com a redemocratização, vários textos proibidos na ditadura foram desengavetados e tratar de temas políticos era sinônimo de uma densidade que o público parecia pouco interessado nos anos de 1980. Não à toa, o besteirol despontava como febre dos palcos cariocas e, logo, do país inteiro. Com afinado senso de observação, Juca percebeu a oportunidade de criar um estilo e levou milhões de espectadores aos teatros em temporadas que se arrastavam por anos.
Baixa Sociedade voltou ao cartaz nos teatros paulistanos em janeiro em uma montagem dirigida por Pedro Neschling e protagonizada por Luiz Fernando Guimarães. Em março foi a vez de Qualquer Gato Vira-Lata Tem uma Vida Sexual mais Sadia que a Nossa ganhar nova versão sob comando de Alexandre Reinecke, com os atores Paulo Vilhena e Vitor Fernando e a atriz Duda Reis.

Em meio a esta retomada de sua obra, Juca de Oliveira morreu, aos 91 anos, devido a uma pneumonia associada a complicações cardíacas, no mesmo mês de março, no dia 21. Os ensaios de outro de seus clássicos, Caixa 2, também sob a direção de Reinecke, estavam em ritmo acelerado e, agora, em cartaz, no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado, em São Paulo, a peça prova que a visão crítica e bem-humorada do autor não é perecível ao tempo.
Juca deixou o exemplo de que é possível correr atrás dos seus sonhos – mesmo que os mecanismos do teatro brasileiro tenham mudado muitos dos anos de 1980 para os dias de hoje – e, principalmente, uma obra que, ao contrário do que críticos observavam nas épocas das estreias, não reproduz um período específico, mas um comportamento enraizado do brasileiro. Quem duvida disto basta assistir à nova montagem de Caixa 2, com um tremendo elenco formado por Paulo Gorgulho, Cassio Scapin, Taumaturgo Ferreira, Sophia Abrahão, Flávia Garrafa e Gabriel Vivan, que, com levíssimas adaptações, interpreta o texto como se Juca o tivesse sido escrito ontem.
Caixa 2 é o melhor texto escrito por Juca de Oliveira. Todos os ganchos infalíveis da comédia, personagens criados sob medida para a diversão e identificação do público e viradas rápidas e certeiras são explorados na dramaturgia. Luís Fernando (interpretado por Paulo Gorgulho) é um banqueiro aparentemente respeitável que, preocupado em acumular fortuna, promove uma demissão em massa na instituição financeira que comanda, o Banco Garantia.
Entre os funcionários cortados está o simplório Roberto Barbosa (papel de Cassio Scapin), gerente da agência do bairro do Limão, zona norte de São Paulo. Ele é um profissional dedicado há 25 anos, que se orgulha de ter tomado um café com o chefe em uma convenção e, por isso, o considera um amigo, além de se esforçar diariamente para pensar em soluções que minimizem os gastos da sua filial.
Os esquemas de corrupção fazem parte da rotina de Luís Fernando, com a cumplicidade de seu assistente, Romeiro (vivido por Taumaturgo Ferreira), que resolve tudo com relativa facilidade e tira uma porcentagem dos lucros. Só que a última investida da dupla parece ameaçada. O doleiro que envia os lucros para o exterior sofreu um derrame, entrou em coma e os dois precisam lavar com urgência o dinheiro antes que o sujeito morra.

Luís Fernando escolhe para depositar o cheque a conta de sua secretária e amante, Ângela (a atriz Sophia Abrahão), e a fortuna de 100 milhões de reais cai por engano nos depósitos de Angelina (representada por Flávia Garrafa), a mulher de Roberto, o funcionário recém-demitido. Como em uma boa comédia de erros, tudo se interliga, Ângela namora Henrique (o ator Gabriel Vivan), o filho malandro de Roberto e Angelina, que convence a mãe a não estornar o cheque sob hipótese alguma. Está formada a rede de confusões e risadas que se faz valer do bom e velho “jeitinho brasileiro” para mostrar que, mesmo os mais honestos, são incorruptíveis até a segunda página.
Caixa 2, a montagem original, estreou em 24 de outubro de 1997 sob a direção de Fauzi Arap no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. Além de Juca, que fazia o papel de Luís Fernando, o elenco contava com Fúlvio Stefanini (Roberto), Cassiano Ricardo (Romeiro), Cláudia Mello (Angelina), Suzy Rêgo (Ângela) e Petrônio Gontijo, depois substituído por André Garolli, como Henrique.
Filas quilométricas se formavam na Rua Nestor Pestana que se repetiram diante das fachadas de dezenas de teatros brasileiros em mais de 1500 apresentações nos cinco anos seguintes. Como prova de prestígio, Fúlvio Stefanini ganhou o prêmio Shell de melhor ator de 1997, feito raro para uma comédia. Em 2007, a peça serviu de base para um filme do cineasta Bruno Barreto.
Como já foi dito Caixa 2 chegou a 2026 atualíssima em uma prova de que o país não muda e a crônica de costumes desenhada por Juca há quase 30 anos foi tão bem estruturada que mal viu o tempo passar. “A comédia é infalível”, grita Paulo Gorgulho, na pele de Luís Fernando, na reta final da peça.
Alexandre Reinecke nunca trabalhou com Juca em vida, mas, para quem conhece a sua obra, sabe que ele seria um encenador sob medida para as peças do autor, que nunca dispensou diretores de peso e, além de Arap, contou com a regência de José Renato (1926-2011), Bibi Ferreira (1922-2019), Naum Alves de Souza (1942-2016) e Jô Soares (1938-2022). Tanto Juca quanto Reinecke carregam uma mentalidade semelhante, a de ter como prioridade a satisfação da plateia sem apelação e, acima de tudo, o respeito pela comédia.

Para isso, claro, o elenco é fundamental – e precisa compartilhar desta mentalidade – para não buscar o brilho solo ou desejar se sobressair em cima das piadas dos colegas. Uma semana depois da estreia, Gorgulho e Ferreira já mostram um grande entrosamento na contracena que explora as falcatruas de Luís Fernando e Romeiro. Cassio Scapin, com a reconhecida versatilidade, sublinha os altos e baixos do estado de espírito de Roberto no personagem mais difícil da peça, aquele que precisa ser querido sem ser chato e parecer um coitado, o tipo de sujeito manipulado por todos, sem causar repulsa no público. Afinal, Roberto é o espelho óbvio da plateia.
Sophia Abrahão é uma grata revelação. Está em suas mãos a personagem mais fácil de cair no estereótipo, o da secretaria sensual e vigarista, e ela entrega uma Ângela ao público com todas estas características, mas sem tropeçar nas obviedades. O mais frágil dos papéis é mesmo de Henrique, interpretado por Gabriel Vivan, que, apesar de ser o responsável pela solução do conflito, atravessa a peça em um compasso de espera e o ator tem pouco a fazer.
O grande destaque do elenco, porém, é a atriz Flávia Garrafa, comediante de mão cheia e parceira constante de Reinecke há quase 20 anos, que esbanja um tempo de comédia preciso e justificáveis para as ações de Lina. Flávia, sem exageros, é o símbolo da possível corrupção de qualquer um cidadão e ela conduz as transformações da personagem em uma evolução linear e sem exageros, o que faz com que suas ações sejam compreendidas pela plateia.
Caixa 2 é uma daquelas peça que muita gente pode torcer o nariz, assim como muitos sempre fizeram diante da dramaturgia de Juca de Oliveira. É inegável, entretanto, a reverberação na plateia como um programa de qualidade que faz o espectador sair satisfeito do teatro. O cenário, assinado por Reinecke e Sandro Chaim, representa apenas um destes detalhes. De forma simples e bem-resolvida, a sala da presidência do Banco Garantia se transforma no apartamento da família de Roberto sem qualquer mudança de mobiliário em uma solução prática e facilmente comprada pelo público.

A nova montagem, quase 30 anos depois da estreia, valoriza a obra de um autor que, ao contrário do que muitos dizem, não pensou em textos para consumo imediato e, na maioria das vezes, resistiu a tomar partido nos temas abordados.
A partir dos anos 2000, Juca se aprofundaria na crítica aos bastidores da política com bons resultados em A Flor do Meu Bem-Querer (2003) e, principalmente, em Às Favas com os Escrúpulos (2007). Menos sutil, ele se mostrou em Mãos Limpas, lançada em 2019, ano complicado para a política nacional, em que citações explícitas de processos ainda em curso tornavam situações do enredo menos divertidas e mais tendenciosas.
Com o sucesso estrondoso do dramaturgo, Juca, obviamente, deixou a televisão para trás por um bom tempo e só romperia o hiato com a novela Fera Ferida, de Aguinaldo Silva, em 1993. Voltaria com mais frequência ao vídeo a partir dos anos 2000, mas aí já era outro papo. Ele era o cronista dos palcos, o indiscutível homem de teatro que contava com a admiração e o respeito popular e, quem sabe, a televisão precisasse mais do seu crédito que ele do ordenado pago pela Rede Globo.
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