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Foto: Ronaldo Gutierrez
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Na versão contemporânea de Robert Icke, Jocasta até ficaria com Édipo, mas a ética prevalece para sustentar a tragédia

O dramaturgo inglês fortalece a protagonista feminina na recriação do clássico de Sófocles e ilude o público de que outro final seria possível

Crítica Por Dirceu Alves Jr.

Algo de surpreendente acontece com os espectadores do espetáculo Édipo, versão contemporânea da tragédia de Sófocles escrita pelo dramaturgo inglês Robert Icke, que, sob a direção de Clara Carvalho, ocupa o Grande Auditório do Masp, em São Paulo.

Seis monitores estão instalados nas paredes laterais da plateia, três de cada lado, com cronômetros digitais, que fazem uma contagem regressiva da peça a partir de 90 minutos. À medida que o tempo se esgota e a pulsão trágica se estabelece como irremediável, o público alimenta a esperança vã de que Icke tenha subvertido muito mais o original, além de transportá-lo para os dias atuais e os bastidores de uma campanha política.

Pode até ser que algum espectador não conheça a história, embora pareça difícil – pelo menos, na nossa bolha teatral. O fato, porém, é que parte da plateia torce para que o casal Édipo e Jocasta (interpretado por Sergio Mastropasqua e Clarisse Abujamra) passe por cima do destino e seja feliz para sempre, como se a tragédia pudesse ser convertida em um conto de fadas.

Foto: Ronaldo Gutierrez

Ok, se o desfecho fosse feliz, Icke não teria apenas promovido uma leitura modernizada do clássico. Ele trairia os princípios da tragédia e, quem sabe, da moral do público, que, mesmo envolvido, talvez não administrasse a consumação do incesto como algo cotidiano. Bem, se você acredita nesta conversa de spoiler, é bom que pare de ler o texto agora porque eles virão aos montes nos próximos parágrafos.

Não dá para comentar o Édipo de Icke sem relembrar a trama de Sófocles. Caso você não saiba, Jocasta e Édipo, casados há 20 e tantos anos, descobrem que são mãe e filho e, como no original, os dois morrem no fim. Eles se amam, eles se desejam, mas ela deu à luz aquele homem e não pode ser feliz junto dele. Nesta versão, bem mais por causa de Édipo, um sujeito correto e cheio de princípios, que por Jocasta, diga-se de passagem. Mais prática e calejada, ela, na leitura de Icke, deixa transparecer que continuaria com o marido, afinal, mãe é a que cria e ela não o criou, mas Édipo não seguraria a barra. “Eu não posso te perder duas vezes”, diz Jocasta, pouco antes de se dar um tiro.

Já que é sabido, caro espectador, que nem adianta torcer porque Édipo e Jocasta não ficam juntos, é importante entender o trabalho de dramaturgia desenvolvido por Robert Icke. O autor é um especialista em renovar histórias e adaptá-las paras as problemáticas contemporâneas. A especialidade parece questionável, afinal, ele pode ser considerado um mero adaptador e não um criador, mas, diante da reconfiguração dos personagens e dos conflitos, se percebe uma autoralidade.

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Em São Paulo, duas de suas obras foram vistas nos últimos anos sob a direção de Nelson Baskerville. Em 2022, Virgínia Cavendish e Ana Cecília Costa protagonizaram o duelo político de Mary Stuart, do alemão Friedrich Schiller (1759-1805), e Clara Carvalho, no ano passado, liderou o elenco de A Médica, atualização da peça Professor Bernhardi, do austríaco Arthur Schnitzler (1862-1931), sobre os embates entre a ciência e a religião, transformando, inclusive, o personagem principal em uma mulher.

Perto de Édipo, escrita há 2.500 anos, estas duas peças podem até ser consideradas recentes, mas nenhuma delas mexe com um tema tão forte e um tabu tão resistente, como o incesto. Por isso, Icke precisou de cuidado para não ser levado pela euforia de desafiar os novos tempos e distorcer um clássico, podendo sofrer acusações tanto de moralista como de pervertido.

Na tragédia de Sófocles, Édipo é atormentado pela profecia de que assassinaria o pai e se casaria com a mãe. Apavorado, o personagem foge do convívio com os pais e, na estrada, mata um desconhecido. Em Tebas, ele se apaixona por Jocasta, mulher mais velha, viúva do antigo rei, e, muitos e muitos anos depois, Édipo toma conhecimento de que é o filho que foi afastado de Jocasta recém-nascido e criado por um casal de camponeses.

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Na adaptação, Édipo é um grande nome da oposição política que deve chegar ao poder nas próximas horas. Ele é o favorito para vencer a eleição, as últimas urnas foram fechadas, e o enredo criado por Icke se desenrola como um thriller no período em que a votação foi encerrada e o resultado será divulgado – por isso, a existência dos cronômetros nas paredes do teatro.

Assim que terminada a votação, Édipo chega ao seu escritório onde será oferecido um jantar em família para celebrar o resultado. Sua mãe, Mérope (papel de Chris Couto), aparece de surpresa e exige uma conversa com o filho que é constantemente adiada. Neste momento, um velho cego, identificado como Tirésias (representado por Oswaldo Mendes), invade a sala e, mesmo que o protagonista não esteja disposto a lhe dar ouvidos, começa a destilar o mau agouro.

Segundo ele, o político não governará, e o cargo caberá a Creonte (vivido por Rodrigo Scarpelli), chefe de campanha e irmão de Jocasta. Édipo, que não tem uma relação pacífica com o cunhado, debocha do adivinho, mas fica intrigado com as três previsões seguintes: ele vai descobrir a verdade sobre a morte de Laio, ficará sabendo que é o assassino do pai e amante da mãe e deve decifrar um enigma, “o que vira ao contrário, mas permanece imóvel?”.

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Jocasta já foi primeira-dama. O primeiro marido, Laio, ocupou o mesmo cargo pleiteado por Édipo e, como uma mulher de seu tempo, não é nada frágil ou submissa. Pelo contrário, de tão pragmática, chega a ser pouco gentil com aqueles que a cercam, inclusive os três filhos, Antígona, Polinice e Etéocles (interpretados respectivamente por Thaina Muniz, Thalles Cabral e Thomas Huszar), guardando toda a doçura para o marido. Os embates com Antígona são constantes, e os meninos parecem invisíveis porque ela só tem olhos para um homem, o pai deles.

Icke remodelou o perfil da personagem. Diante de tanta força, jamais Jocasta se mostra uma vítima, mesmo quando as revelações ameaçam desmoronar a sua estabilidade. Ela está mais para uma estrategista. É uma mulher que amadureceu com o sofrimento. Aos 13 anos, engravidou de Laio, que contava mais de 50, teve o filho afastado de si e sabe que o importante é o presente. “Eu sobrevivi. Por que olhar para trás? Eu prefiro morrer”, afirma Jocasta, sobre a recusa em se lembrar do primeiro parto, e, logo mais, tenta convencer Édipo do que parece impossível: “Matar Laio foi um favor para todo mundo”.

Édipo é um sujeito correto, honesto, sempre disposto a trilhar o caminho da verdade, que, em poucas horas, encara a realidade de que sua vida é uma grande mentira. Primeiro, descobre que o acidente em que se envolveu aos 18 anos foi o mesmo que vitimou Laio – o que já era do conhecimento de Creonte e Jocasta. Depois, ouve da mulher que sempre conheceu por mãe que é adotado e, por fim, mesmo vencendo a eleição, desaba ao saber do laço de sangue que o liga à mulher que ama e deseja incansavelmente.

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Por mais que se saiba que é uma versão contemporânea da tragédia, o público se surpreende com a modernidade do texto e da encenação. Não há qualquer vestígio da dramaticidade excessiva de um “ai, de mim” nos diálogos e tampouco qualquer detalhe da direção de arte aponta para o conservadorismo.

Os figurinos de Marichilene Artisevskis são modernos e casuais, ressaltando o casal protagonista com uma jovialidade elegante que permeia relação dos dois. A cenografia construída por Chris Aizner explora os tons cinzas e frios do cimento presente no Auditório da Masp que podem remeter à arquitetura grega e espalha bandeiras pelas laterais da sala.

No palco, as cores neutras continuam dominando e, mesmo que não esteja caracterizado como um escritório, tudo é cinza, ocre ou marrom. A opção por estas cores ressalta uma impessoalidade contrastante com os figurinos de cores vivas de Jocasta que reforçam vitalidade e sexualidade. A valorização destes detalhes é marcada pela iluminação desenhada por Gabriele Souza, que atinge o ápice na sensação trágica do desfecho da peça. Já a música original composta por Gregory Slivar permeia a montagem e funciona como um código de comunicação para o desenvolvimento da história e, talvez, nesta escolha da direção, esteja a maior aproximação entre a convenção trágica e a encenação contemporânea.

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Como diretora, Clara Carvalho compreendeu que as referências da tragédia clássica não deveriam alimentar a sua concepção. A montagem se desenvolve colada aos dias atuais e aos conceitos políticos e psicanalíticos dos personagens. Tratando Édipo e Jocasta como dois representantes de uma classe alta e politizada, Clara irremediavelmente transpõe para a cena um naturalismo que os afasta das características perpetuadas desde as origens do teatro.

Clara evidencia que, acima de tudo, Édipo e Jocasta formam um casal feliz e sexualmente ativo. O desejo transparece em cada olhar e a química entre Mastropasqua e Clarisse justifica a empatia do público. Por vezes, Édipo é confuso e Jocasta, a sua salvação. Em outras situações, ele se mostra frágil e ela lhe devolve força, mas, acima de tudo, eles são apaixonados e se ele, mais racional, resiste a uma investida sensual, em poucos minutos ela trata de seduzi-lo com mais vigor. É Jocasta quem toca o barco, não com autoritarismo, mas como uma parceria e devota do amor.

Os perfis de Mastropasqua e Clarisse contribuem para a aceitação dos personagens. O intérprete detém uma virilidade que respinga no personagem e vai além da voz grave e empostada e da firmeza impressa nos diálogos. Clarisse, por sua vez, é o tipo de atriz que usa a desenvoltura de bailarina como ferramenta dramática e, no caso de Jocasta, uma sensualidade madura alimenta um diálogo equilibrado com a composição de Mastropasqua. Mesmo que a diferença de idade entre os dois seja ressaltada na dramaturgia e, na vida real, chegue a 17 anos, jamais é como empecilho para a energia sexual dos personagens.

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Édipo é a quinta parceria entre o Círculo de Atores, coletivo encabeçado por Mastropasqua, e a pesquisadora e produtora cultural Rosalie Rahal Haddad. Desde 2018, eles já levantaram em associação A Profissão da Sra. Warren e O Dilema do Médico, do irlandês Bernard Shaw (1856-1950), Hedda Gabler, do norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), e A Médica, outra dramaturgia de Icke.

Uma característica entre as produções é o numeroso elenco de cada espetáculo e, principalmente, a cuidadosa escalação mesmo para personagens que podem ser considerados pequenos. É um privilégio assistir a uma produção que conta com atores veteranos de talento, como Oswaldo Mendes (Tirésias), João Bourbonnais (o empregado Quirino) e Roberto Borenstein (o motorista), em papéis que têm poucas ou até mesmo uma só cena, mas que são decisivas para a narrativa – vale também para Marisa Mainarte, que representa Lídia, a secretária do gabinete.

Ainda que a visibilidade recaia sobre Mastropasqua e Clarisse, é inegável o destaque, tanto em compreensão de personagens como em presença cênica, de Rodrigo Scarpelli e Chris Couto, respectivamente como Creonte e Mérope. A mesma observação vale para os intérpretes dos filhos de Jocasta e Édipo, Thaina Muniz, Thomas Huszar e Thalles Cabral, que se sobressaem com personagens que possuem tramas próprias e alinhadas às discussões de gênero e diversidade.

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Quando se pensa que nada mais pode surpreender de uma história escrita há mais de 2500 anos, a dramaturgia de Icke encontra na direção de Clara Carvalho um consenso fundamental para que um projeto com estas características dê certo: o respeito aos clássicos. Tanto Icke como Clara sabem que não precisam reestruturar e muito menos deturbar histórias para que elas se comuniquem com as plateias dos dias atuais. Por isso, parece até deslocado o epílogo do espetáculo que não acrescenta nada à narrativa e talvez até confunda.

Muitos podem até torcer e se frustrar inicialmente com o fato de Édipo e Jocasta não peitarem a sociedade e, sei lá, talvez fugirem para continuar vivendo o amor. Ao redesenhar o perfil de Édipo, porém, Icke deixou clara a firmeza de caráter do personagem, logo um homem assim não conseguiria se manter inabalável diante da revelação de que a mulher que ama é sua mãe.

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Na versão contemporânea de Icke, o dilema que, tantas vezes, foi tratado como moral, agora é explicitamente ético e, desta forma, aproxima Édipo e Jocasta do espectador a ponto de ele se iludir que o final será diferente.

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

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Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

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