“Tá satisfeito com a vida ou vai mudar alguma coisa?” é a frase escrita em letras brancas no vidro da kombi que serve de cenário, palco e parceira de cena do ator Lee Taylor no espetáculo Manifesto. Mais que uma imagem instagramável, que chama a atenção imediata do público ávido por fotografias, a sentença define a mensagem da dramaturgia criada por Taylor, com a colaboração de Luiz Claudio Cândido e Gustavo Cruz.
Mas, afinal, você “tá satisfeito com a vida ou vai mudar alguma coisa?”. A reposta, mesmo baixinha, só ouvida por seus botões, revela o quanto a montagem, em cartaz na área externa do Complexo Cultural Funarte, em São Paulo, permanecerá na sua cabeça. Sim, evidentemente, sempre se pode ou, quem sabe, se deve mudar alguma coisa, só que, alguns minutos antes do desfecho, Taylor incita o espectador a valorizar, por menores que sejam, as próprias revoluções. “Se você buscar ter prazer em viver, você já tá sendo revolucionário. Se você não aceitar um trabalho que te sacrifique, você já tá sendo revolucionário. Se você conseguir criar os seus valores, você tá sendo super revolucionário”, diz o artista, em cena.
Pode parecer papo de autoajuda, ambição juvenil ou, como pensariam alguns, delírio comunista, mas, se você, espectador, pensar um pouco sobre isso, assistir ao monólogo Manifesto, idealizado, concebido, escrito, codirigido e protagonizado por Taylor, sob a direção de Georgette Fadel, pode lhe fazer muito bem. E, se fizer mal, é sinal de que, sim, você não está satisfeito e, talvez, precisa mexer em algumas coisas. Esta, porém, é uma questão de cada um e vamos ao que interessa, o espetáculo.
O goiano Lee Taylor, de 42 anos, ator, dramaturgo, diretor e professor, radicado desde 2002 em São Paulo, vinha há tempos pensando em fazer um monólogo. Só que para que o público acreditasse nele, ele precisaria acreditar naquilo que diria no palco, regra básica do teatro, muitas vezes esquecida por vaidade ou interesse financeiro. A inspiração bateu a sua porta quando descobriu o artista plástico, filósofo e ativista social capixaba Eduardo Marinho, de 65 anos, uma figura capaz de dialogar com o seu discurso.

Criado em uma classe média alta, Marinho tentou, tentou bastante se adaptar a um sistema facilmente aceito pela maioria. Desde criança, questionava a mãe quando via a desigualdade diante dos olhos e não aceitava que “as coisas eram assim porque o mundo é assim”. Cresceu um pouco e foi trabalhar em um banco, o emprego dos sonhos para muitos da sua geração, e não aguentou carimbar documentos por muito tempo. Filho de militar, entrou para o exército e, lógico, não deu certo, então, arriscou a faculdade de direito, a sua última chance de não transgredir o destino esperado. Logo, viu que a justiça nada tinha de justa.
Marinho foi radical, abandonou sua estrutura privilegiada para viver nas ruas, vendendo seus quadros, muitas vezes dormindo ao relento e sendo humilhado, incorporando-se a uma realidade que, para os seus parentes e amigos, deixava claro que ele só poderia ter enlouquecido.
Em algumas passagens, principalmente mais próximas do final, você pode até questionar o quanto ele não foi egoísta com os outros – afinal, ele teve cinco filhos – em nome da sua dificuldade de se ajustar a um coletivo porque considera, com alguma razão, essa noção de coletivo equivocada. Herói ou não, não importa, a história aqui, pelo menos no teatro, é outra, e Marinho deve ser visto como personagem para a poesia saltar do chão.
Lee Taylor interpreta Eduardo Marinho o tempo inteiro em Manifesto, mas Manifesto, mesmo cumprindo a função de biografar Eduardo Marinho, não é um monólogo biográfico. É uma peça sobre um pensamento, um modo de enxergar a vida e sobre como se pode romper as estruturas. É a vida de Eduardo Marinho, mas poderia ser, em menor ou maior grau, sobre qualquer um que, mesmo minimamente, assuma uma revolução, e, por isso, bate forte no espectador.
Quer dizer, não é só por isso. Manifesto bate tão forte porque é absolutamente teatro, e teatro no seu sentido mais puro e profundo. Em uma época em que o teatro, ainda mais em se tratando de solos, parece cada vez mais narrativo e menos imagético, Taylor transforma cada passagem em cena, todas as falas e movimentos são complementados por algo que o público enxerga e tudo começa na ambientação.

Manifesto é um espetáculo de rua, neste momento apresentado na área externa do prédio da Funarte, na Alameda Nothmann, naquele misto de quase degradação para alguns e um certo charme para outros que significa estar a uma quadra e meia do Minhocão. Uma kombi, um poste de luz, uma mesinha, uma cadeira, alguns varais e uma arquibancada de 108 lugares que abraça a cena completam a ambientação. Taylor, que conhece tão bem o palco italiano, quer, agora, falar com quem quiser ouvi-lo e, como Marinho, acredita que o lugar ideal para isso é a rua.
Sobre a capacidade de tudo virar cena, podemos simplificar afirmando que Taylor aprendeu bem as lições do mestre Antunes Filho (1929-2019) e que, lá onde estiver, o grande diretor fica feliz com as escolhas do seu ator, protagonista de A Pedra do Reino (2006), Senhora dos Afogados (2008) e Policarpo Quaresma (2010). Só que isto é pouco, muito pouco.
Claro que Lee aprendeu muito sobre teatro nos oito anos em que ficou no Centro de Pesquisa Teatral (CPT) e, como manda a sua formação, não faz qualquer coisa. Só que é visível que a mensagem de Manifesto diz muito mais sobre o Lee Taylor de depois do CPT que sobre o de antes ou o de durante.
É sobre o professor que fundou o Núcleo de Artes Cênicas (NAC), assim que deixou a eterna escola de Antunes, é sobre o ator que fez bonito e sentiu a ampla comunicação da Rede Globo nas novelas Velho Chico (2016) e A Dona do Pedaço (2019) e nas séries Onde Nascem os Fortes (2016) e Dias Perfeitos (2024) e é sobre um artista que leva a sério o seu ofício. Sabe com o que concorda e com o que até poderia, mas prefere não concordar.

Tudo porque não se esqueceu dos cinco anos em que morou no alojamento estudantil da USP e, se muitos acham que ele não alcançou o sucesso ou não o agarrou com as mãos, Taylor sabe que é bem-sucedido. “Na minha carreira, não foi nada fácil e, por isso, sei que preciso honrar o meu momento e falar sobre o que acredito”, ressaltou, em recente entrevista a este repórter. “Quanto mais bagagem a gente tem, mais se presta atenção no que vai fazer.”
Em Manifesto, Taylor encena a frustração de Marinho na repartição bancária e o barulho dos carimbos em contato com a papelada vem da trilha sonora, como se fosse rádio, como se fosse audiovisual, como é no teatro. Marinho descreve a tragédia de um amigo que perdeu a família em um acidente aéreo, e o simples efeito de uma dobradura de uma folha voando em direção ao chão instiga o público.
Quando relembra os tempos de milico, Marinho conta com a figuração de soldadinhos de plástico sobre a mesa para complementar a cena. E quando o protagonista cai na estrada, tomando distância da casa da família? Ah, nesta hora, Taylor aparece em cima da kombi, caminhando a passos largos, como se estivesse na esteira de uma academia, mas, obviamente, está numa estrada de asfalto, como se fosse cinema ou televisão, como pode ser no teatro. Taylor, claro, aprendeu isso com Antunes e também nas experiências com o audiovisual. É a força da imagem.
Não à toa, chamou Georgette Fadel para a direção, e Georgette, generosa, rejeita o crédito para se identificar mais como uma interlocutora, uma provocadora cênica porque, segundo ela, tudo estava pronto na cabeça do artista. Taylor rebate, garantindo que Georgette o colocou em um outro lugar a que não chegaria sozinho, porque a atriz e diretora, muito mais que Taylor, tem um lado forte que a conecta ao pensamento de Marinho.

Manifesto não é sobre o jovem burguês rebelde que saiu da casa da família endinheirada para viver nas ruas. É sobre uma mentalidade que não aceita o esperado, o óbvio, é sobre quem acredita em um sonho e, mesmo pagando altos preços, não muda, não se arrepende das decisões em função dele.
Manifesto é sobre Lee Taylor e sobre Georgette, essa artista reconhecida aos quatro cantos, que parece até viver em um outro mundo porque segue fiel a coisas que acreditava lá nos tempos de Escola de Arte Dramática (EAD), há 30 anos, quando tinha 20 e poucos.
Manifesto também pode ser sobre você, que, de repente, está satisfeito com a sua vida e vai se dar conta disto vendo uma peça de teatro.
Eu termino este texto com a sensação que escrevi muito e, contraditoriamente, não disse muita coisa sobre o espetáculo. Talvez seja porque Manifesto precisa bater em cada um para que cada um entenda como o teatro faz bem à alma quando é muito bom.
Então, voltando ao papel de jornalista, vou me limitar a reforçar que Manifesto é muito bom, é de graça e foge do que se costuma ver por aí, basicamente por causa de Lee Taylor. Se você não frequenta teatro, vá. Se você prefere cadeira estofada e estacionamento com ou sem manobrista, vá do mesmo jeito. Quem sabe isto também pode ser uma pequena revolução…



