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Foto: Mario Rainha Campos
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“O Amor É Fodido”, solo com o ator e diretor português João Garcia Miguel, é um arrebatador jogo sobre o mais perseguido dos sentimentos

Adaptado do livro de Miguel Esteves Cardoso, o monólogo pratica uma antiencenação para universalizar a trama de um velho que vive em função da amada

Crítica Por Dirceu Alves Jr.

“Se não fosse o amor por que deveríamos nós escrever ou foder”, pergunta-se João, o protagonista do monólogo O Amor É Fodido, em cartaz até 29 de março no Teatro Manás Laboratório, no Bixiga, em São Paulo. Adaptado do livro do escritor Miguel Esteves Cardoso, publicado em 1994 com grande sucesso, o solo dirigido e protagonizado pelo português João Garcia Miguel é uma elegia às contradições do sentimento mais perseguido e indefinível da humanidade. O amor, capaz de levar qualquer um às alturas ou aos subterrâneos, é guiado pela emoção e pode se perder ao deixar de lado uma dose de racionalidade.

Nelson Rodrigues (1912-1980) escreveu que é impossível amar e ser feliz ao mesmo tempo. A frase atribuída à Myrna, pseudônimo de uma conselheira sentimental que ninguém mais era que o dramaturgo em sua coluna do jornal Diário da Noite, pode ser aplicada a João. Só que, enquanto Myrna era objetiva e debochada, João até pode se expressar através de ironias, mas, inegavelmente, é um devoto e vítima das idealizações românticas.

No palco vazio, que no Teatro Manás Laboratório assume a disposição de uma arena, o artista reúne os espectadores ao seu redor, seja na pequena arquibancada montada à sua frente ou nas cadeiras avulsas que o margeiam. Desenhos, vários deles retratos, feitos pelo próprio Miguel, estão espalhados pelo chão ou colados nos poucos móveis e, algumas destas imagens, identificam personagens da trama. Uma cadeira de rodas vazia simboliza Teresa, a interlocutora do protagonista. Tudo faz parte de um inconsciente quase infantil de um João velho e paraplégico, que, tomado pelo amor àquela mulher, escapa do discernimento que pode ser definido como delírio ou realidade do abandono.

Foto: Mario Rainha Campos

Enquanto diretor e intérprete, Garcia põe em prática uma antiencenação, algo próximo ao que o ator brasileiro Cacá Carvalho ofereceu no inesquecível A Próxima Estação – Um Espetáculo para Ler, dirigido por Michele Santeramo em 2016. Se, naquela montagem, Carvalho se colocava atrás de um púlpito para ler a experiência romântica de Massimo e Violeta por cinco décadas, Miguel se baseia em uma não-atuação como recurso para a contação de história e, por meio de um diálogo com o público, constrói as camadas de sua narrativa em um absoluto naturalismo.

João chega, através da descrição do protagonista, velho e inválido, internado em uma casa de repouso e, a princípio, Teresa está junto dele, plantando a ideia da eternidade do sentimento que os uniu. Miguel, o ator, por sua vez, está de pé, forte, saudável e elegante nos seus 65 anos. Neste jogo de enganações, afinal, teatro é fazer o público acreditar em uma verdade que, no fundo, é mentira, o intérprete confessa ao espectador que ele e a amada, tal qual o Romeu e a Julieta de Shakespeare, decidiram morrer juntos e encontraram no suicídio a forma de dar um fim poético ao relacionamento.

Só que João enganou a parceira, cuspiu os comprimidos que lhe tirariam a vida, pelo menos é o que ele diz, e, neste reencontro, confronta-se com a própria covardia ou a necessidade de se manter vivo nem que seja como punição.

Foto: Mario Rainha Campos

Você, como leitor, deve demonstrar cansaço de ver tantas peças verborrágicas em que um artista disserta sobre determinado assunto em um cenário minimalista e propondo uma interação forçada com o público. Montagens em formato de palestra ou travestidas de teatro de depoimento dominaram a cena da atualidade. Mas, ao contrário da maioria dos monólogos embalados como um derivado da autoficção, O Amor É Fodido passa longe do exercício de ego e não dita verdades absolutas. Como um homem tomado pelo sentimento, João nem teria moral para isso.

Apoiado na sólida dramaturgia construída em cima do livro de Cardoso, Miguel, mesmo emprestando o seu prenome ao personagem, afasta-se do espelho para reforçar uma reflexão ampla e, logo, o discurso não é voltado para plateias específicas. O amor é um tema universal, e o protagonista esquenta o debate ao propor um bate-bola com a plateia, que, surpreendentemente, se sente à vontade para embarcar na proposta com aparente sinceridade.

Na sessão de sexta, dia 27 de fevereiro, Miguel, em sua primeira interação, ouviu de um espectador, um homem maduro, que nunca havia amado. Sem juízo de valores, o ator se surpreendeu com a resposta e até brincou com o interlocutor, mas respeitou o modo assertivo ou tentativa de não oferecer frestas para um avanço na intimidade. Pouco tempo depois, as indagações assumem ares mais indiscretos, mas, embaladas em uma delicadeza e na comunicação estabelecida, logo se tornam naturais.

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Primeiro, Miguel pergunta a um sujeito, provavelmente acompanhada da parceira, quando foi a última relação sexual e ouve “sábado passado”. A seguir, indaga um outro homem, que revela ter “fodido” pela última vez há dois meses, e um terceiro, que diz ter feito sexo há três semanas. Irônico em relação à propagada imagem sensual dos brasileiros, o artista provoca em tom de brincadeira: “Mas o que está acontecendo no Brasil? Esperava relatos de atividades sexuais mais contantes”.

Estas conversas funcionam como respiro para a narrativa do personagem João, que gira em torno de temas densos como solidão, sofrimento, suicídio e abandono na velhice. A própria expressão “fodido” no título pode espantar os mais conservadores por considerá-la vulgar. Entretanto, em Portugal, apesar da tradição católica, os palavrões são usados com mais liberdade e múltiplos significados que no Brasil. O verbo “foder” pode ser traduzido em relação aos prazeres do sexo ou para a definição de algo ou alguém em situação difícil, para aquele que se vê perdido ou sem saída.

É neste trânsito de linguagens que Miguel cria a sua autoficção. O ator revelou que, durante os ensaios do espetáculo, enfrentou uma separação conjugal e a dor o ajudou a incrementar a performance. Nesta contação de histórias, Miguel usa a força das palavras com diferentes significados para cutucar o espectador, inclusive, em relação às verdades e mentiras que ele pode apresentar sem compromisso e, neste ponto, abre a possibilidade para cada um recriar uma outra história dentro da sua cabeça.

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Peço a licença para entrar no perigoso terreno do texto em primeira pessoa para falar de minha conclusão mais específica. Para mim, João se separou de Teresa há muitas décadas e jamais conseguiu esquecê-la. O relacionamento acabou quando ela o trocou por Bernardo, considerado por ele o melhor amigo, e, diante da traição dupla, o protagonista preferiu ficar com as boas lembranças do passado e se fechou para o amor a fim de não se sentir “fodido” novamente. João optou por se expressar através das palavras, seja na literatura ou no teatro, ou das imagens, afinal é um artista plástico, e ficcionar desfechos para o caso amoroso. O mais romântico e idealizado seria a morte em dupla depois do reencontro em uma clínica de repouso.

Sediada em Lisboa, a Companhia João Garcia Miguel foi fundada em 2002 com a proposta de investigar como é o ser humano existente dentro de cada um, seja o artista, o personagem ou o anônimo que frequenta teatro. Em mais de duas décadas, o coletivo percorreu Espanha, França, Itália, Alemanha, Hungria, Holanda, Romênia e, no Brasil, mostrou os espetáculos As Barcas, inspirado na trilogia Os Autos da Barca do Inferno, da Glória e do Purgatório, do conterrâneo Gil Vicente (1465-1536), visto no Sesc Consolação em 2013, e A Casa de Bernarda Alba, do espanhol Federico García Lorca (1898-1936), montado em 2018 no Sesc Santo Amaro, dentro do Festival Yesu Luso – Teatro em Língua Portuguesa.

No repertório diversificado, marcado pela linguagem contemporânea que mistura teatro físico e tecnologia, aparecem releituras de outros clássicos como Rei Lear, A Tempestade e Hamlet, de William Shakespeare (1564-1616), e As Criadas, de Jean Genet (1910-1986), além de Yerma, novamente uma obra de Lorca. Como artista plástico, Miguel usa a versatilidade para conceber encenações de apelo visual e, antenado ao debate das pautas urgentes, leva ao palco discussões como a da transexualidade, no caso abordada em sua versão de A Gaivota, do russo Anton Tchekhov (1860-1904).

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O Amor É Fodido, que estreou em janeiro de 2025 em Lisboa, porém, dispensa todos os possíveis excessos e muletas para focar na relação triangular máxima do teatro: texto, ator e público. Nesta proposta, que de singela não tem nada, Miguel é ambicioso e extrapola as convenções como ator e encenador. Por incrível que pareça, o sotaque do seu português raiz exige uma atenção maior do público e o que seria uma dificuldade torna-se um trunfo porque o espectador se entrega a uma concentração máxima pelo receio de perder qualquer palavra – ainda que, para facilitar a compreensão, o intérprete use um microfone.

Cabe ao público fugir de qualquer distração, assim como pede o amor idealizado. Artista e espectador são tomados pelo texto e, a partir dos relatos do personagem João, se estabelece uma comunhão que não deve deixar a maioria indiferente. O lamento sobre o que poderia ter sido e a inviabilidade de mudar o passado levam o protagonista a recriar uma história e, como um velho senil ou sábio, ele destrói as ilusões a respeito do amor, mas alerta a todos que, mesmo sendo inevitável o sofrimento, é uma bobagem atravessar a vida sem conhecê-lo.

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Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

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