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Foto: Leonardo Souzza
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O Nordeste que nunca sai de cena no teatro para crianças

Cia Fabulinhando nos oferece até julho um divertido inventário de histórias fantásticas nordestinas, sobretudo provenientes da oralidade popular do Rio Grande do Norte

Crítica Por Dib Carneiro Neto

É sempre muito gratificante saber da estreia de novos espetáculos para crianças que celebrem as culturas regionalistas, os mitos populares, as histórias orais que não podemos deixar que morram. O teatro é um veículo perfeito para essa valorização e essa celebração de raízes e memórias. Falo isso a propósito da nova atração teatral infanto-juvenil em cartaz na Sala Vermelha do Itaú Cultural, na Avenida Paulista. O nome é A Botija e (aplaudam!) ficará em cartaz por ali por todos os domingos, até o fim de julho (menos o domingo de carnaval). Uma temporada longa, como há muito deixaram de ser as temporadas teatrais. Celebremos, assim logo de cara, esse apoio à longa duração das peças em cartaz, atitude que já virou marca dos programadores da instituição.

Foto: Leonardo Souzza

A Cia Fabulinhando, criada em 2019, ‘batizou’ o espetáculo com o elucidativo e comprido subtítulo de ‘Um Pequeno Inventário de Histórias Fantásticas do Nordeste Brasileiro’, e tem circulado com ele, na forma de contação/narração, por bibliotecas públicas de São Paulo desde o ano passado. Agora, virou peça de teatro completa, inclusive com dramaturgia inédita. E deu muito certo. O resultado no palco é pura criatividade, competência e talento, tudo regado a alegria e graça. Mais um agradável espetáculo que não cai nas armadilhas rançosas, como muito se via no teatro infantil até pouco tempo, de encarar folclore como assunto estereotipado, racista e culturalmente sem valor. Folclore é oportunidade de trabalhar identidades. Aqui, sabidamente, a companhia chama seus temas de “histórias fantásticas”, aproximando a dramaturgia de um gênero literário chamado realismo fantástico e, assim, salvaguardando-se do risco de discriminação e desvalorização das narrativas.

Foto: Leonardo Souzza

A peça flui com ritmo contagiante, do começo ao fim, praticando a cartilha de boa dramaturgia com muito conhecimento e propriedade. O grupo sabe o que está fazendo, o que quer alcançar e com quem está lidando. Por exemplo, não abre mão de conversar com a plateia sobre aspectos da encenação, deixando claro que é teatro – e que teatro é convenção e exige o exercício da imaginação. O que se vê é como um prólogo brechtiano anti-ilusionista. Isso tanto é verdade que só depois de vinte minutos de peça começada é que o trio de atores dá início à narração da primeira lenda. Antes, eles preparam o clima, por assim dizer, e saem de seus personagens, se apresentando como atores, contando/cantando de onde vieram e onde ficavam seus quintais reais da infância.

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Jhoao Junior vem do Rio Grande do Norte, Maria Rosa é do Ceará, e Elaine Silva, de Alagoas. Mas eles deixam claro para as crianças da plateia que o quintal pode ser em qualquer lugar do Brasil e a avó pode ser a nossa avó. E que as histórias sustentam a vida. Na linha de avisar que estão “brincando” de teatro, combinam que o palco é o sertão e a plateia é a cidade grande – e fazem a plateia repetir isso até entender a convenção. O jogo é praticado assim, abertamente, honestamente – e todos se sentem incluídos na proposta, abraçados pela companhia teatral.

Foto: Leonardo Souzza

O trio do elenco está bem seguro e bem resolvido. Jhoao Junnior é carismático o tempo todo, faz expressivas caras e bocas, demonstra estar bem à vontade e nos contagia. Maria Rosa responde à altura e abraça suas personagens com ótimo jogo de cintura. Eliane Silva, além de sua personagem, faz toda a música ao vivo e a sonoplastia, casando muito bem os sons percussivos com as falas da peça. Um trio azeitado, porreta – adornado por um figurino simples, mas vistoso, com bordados e rendas típicas.

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Na cenografia, o sertão é retratado em bela tapeçaria ao fundo do palco. E um varal de roupas, usado de forma impactante, ajuda a “pendurar” imagens dos mitos da trama, assim como as fotos finais de… (melhor não dar spoiler desse momento final tão lindo, que fica suspenso pelo varal). Os créditos de tudo isso são os seguintes: Atuação e direção: Jhoao Junnior e Maria Rosa. Ideia original e dramaturgia: Jhoao Junnior. Musicista: Elaine Silva. Bordados (figurinos): Maria Rosa. Cenografia: Jhoao Junnior. Pinturas: Andrea Gandolfi. Painel (tapeçaria): Irapuan Júnior. Muitas palmas para todos eles.

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Dib Carneiro Neto

Dib Carneiro Neto

Jornalista, dramaturgo e crítico teatral. Começou a escrever críticas sobre teatro infantil em 1990, na revista Veja São Paulo. Foi editor-chefe do caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo (2003 a 2011). Atualmente, edita o site e canal do youtube Pecinha É a Vovozinha, que ganhou o Prêmio Governador do Estado em 2018, na categoria Artes para Crianças, além de menção honrosa no Prêmio Cbtij. Por sua peça Salmo 91, ganhou o Prêmio Shell de dramaturgo em 2008. Em 2018, ganhou o Jabuti pelo livro Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela.

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