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Foto: Cacá Bernardes
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Peça infantil dá um passo além na temática do bullying

‘Vestido de Menino – O Dia V’, em cartaz no IBT só até o dia 26, avança ao abordar a questão de gênero de forma otimista, sem lamúrias nem culpabilizações, fazendo um grupo de crianças se unir em um sonho, para serem felizes juntas, ainda que consideradas ‘diferentes’ por toda a escola

Crítica Por Dib Carneiro Neto

As questões de gênero associadas a bullying têm sido muito mais frequentes nas peças para crianças e jovens. Sinal dos tempos. E já não era sem tempo, como se dizia. Um tema que foi tabu durante décadas desabrocha pouco a pouco para o mundo delicado das dramaturgias de censura livre. O enredo mais comum é uma criança tida como ‘diferente’ ser a protagonista e relatar seus medos, suas inseguranças, as perseguições na escola, a incompreensão em casa.

Qual não foi a minha surpresa ao constatar que, em Vestido de Menino – O Dia V, em cartaz só por mais dois finais de semana no Centro Cultural do IBT – Instituto Brasileiro de Teatro, o texto dá um passo adiante nesse enredo já conhecido. Não é um espetáculo que chora lamúrias, expõe crises de bullying – nem tampouco cultiva o drama real e inegável das crianças gays solitárias e incompreendidas. A peça surpreende e encanta porque não quer só expor a questão e terminar com uma bela lição antipreconceito.

Foto: Cacá Bernardes

Com direção geral e argumento de Pedro Stempniewski e dramaturgia de Ronaldo Serruya, Vestido de Menino – O Dia V  ‘apenas’ mostra um grupo de quatro crianças que se juntam na escola  por serem diferentes e…felizes. Sim, felizes. Ou seja, mostra o otimismo de admitir que, com o tempo, o mundo será mais aberto, as escolas serão mais diversas, as crianças diferentes não serão tão minorias, também acharão seus pares e deixarão de se sentir assim tão fora da normatividade. Elas farão o ‘normal’ mudar de parâmetro.

E é isso o que nos ensina o menino protagonista, ao desejar ir à sua formatura na escola…de vestido. Por que não? A categoria é… vista o que quiser, desenhe seu traje e seu mundo próprio! Com clara referência ao comportamento LGBTQIAPN+, com sua cultura ballroom e o chamado voguing, a peça ultrapassa fronteiras e rompe barreiras, provando que essa estética musical e coreográfica cabe, sim, em peça infantil, com bom gosto, ilustração e alegria. Sem militâncias ofensivas, sem pregar a destruição das famílias, como ousariam apontar os mais conservadores, retrógrados e intolerantes.

Foto: Cacá Bernardes

Para se ter uma ideia da falta de ansiedade temática no brilhante espetáculo, esse desejo secreto do menino só é revelado depois de mais de meia hora de duração da peça. Não há pressa, não há diálogos apelativos e piegas, não há manipulação sentimentalóide da plateia. Antes de mais nada, é uma história de amizade, que vai sendo construída com força e solidez. A coragem vem depois, A liberdade, mais tarde ainda. A sagacidade da dupla autor-diretor quer primeiramente enredar a plateia em torno de quatros cativantes personagens, para depois trazer a surpresa do caso do vestido.

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Um início misterioso à luz de lanternas, um toque bem humorado de ‘era uma vez’, uma ode à época em que bancas de revista eram pontos de encontro, uma festa de leques ao som do hino gay I Willl Survive (em versão), o sempre eficaz recurso da repetição de frases (“Mas…voltando à história…”), o teatro narrativo repartido igualmente entre os intérpretes, a criativa e ágil cenografia feita de módulos vazados (Eliseu Weide), figurinos riquíssimos em sobreposições e acessórios (Weide), a rica trilha sonora original feita de canções muito bem pensadas e compostas (Melvin Santhana e Serruya), um som de cuíca para marcar os pontos da costura do vestido (homenagem às costureiras das escolas de samba), as regras do futebol ajudando a decifrar o desejo do menino, momentos interativos em que a plateia pode ir à cena se quiser e, arrematando tudo isso, um elenco que se entrega do começo ao fim, sem perder o ritmo, como se brincassem e se divertissem uns com os outros (Fernando Lufer, Luz Ribeiro, Rafael Costa e Thalles Terencio).

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Assim é Vestido de Menino – O Dia V. Rico em detalhes, abrangente nas citações, competente nos quesitos, atraente nas propostas, inusitado na abordagem da temática. Pobres dos adultos que crescem achando que imaginação não é mais importante, como é dito literalmente em um trecho do espetáculo. Para citar outro trecho, os melhores sonhos são o que, de tão generosos, chamam outros para morar dentro deles. Seja esse outro e vá morar dentro do sonho do menino de vestido. Não há a menor hipótese de decepção e arrependimento. Será uma experiência incrível – palavra de crítico veterano. Abra suas asas. Entre nessa festa.

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

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Dib Carneiro Neto

Dib Carneiro Neto

Jornalista, dramaturgo e crítico teatral. Começou a escrever críticas sobre teatro infantil em 1990, na revista Veja São Paulo. Foi editor-chefe do caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo (2003 a 2011). Atualmente, edita o site e canal do youtube Pecinha É a Vovozinha, que ganhou o Prêmio Governador do Estado em 2018, na categoria Artes para Crianças, além de menção honrosa no Prêmio Cbtij. Por sua peça Salmo 91, ganhou o Prêmio Shell de dramaturgo em 2008. Em 2018, ganhou o Jabuti pelo livro Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela.

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