Espetáculo teatral em Santo André usa a metáfora do confinamento para discutir a fome diante da existência negra e do racismo.
O espetáculo “Se as comidas dos folhetos fossem comestíveis” chega no espaço A CASA – Centro Artístico de Santo André, no ABC. Com apresentações única no dia 24 de abril, a obra traz a história de dois jovens, irmãos negros e gêmeos não-idênticos, que encontram-se trancados em uma cozinha desativada. Entre talheres, panelas e restos de folhetos de supermercado, eles expõem suas feridas, desejos e a violência cínica e silenciosa das “pessoas de bem”. Enquanto a fome física e existencial aperta, eles questionam: corpos como os deles têm direito a existir para além da mera sobrevivência?
Escrita por Sid Lima e dirigida por Carlos Sobrinho, a obra mergulha no universo claustrofóbico dos irmãos, usando o espaço inóspito de uma cozinha como uma potente metáfora para as estruturas sociais que confinam e invisibilizam populações periféricas. A narrativa se desenrola de forma tensa e poética, explorando a relação fraterna, como um espelho das contradições da sociedade.
“Quisemos criar um ambiente que fosse, ao mesmo tempo, concreto e simbólico. A cozinha desativada representa o descarte, o lugar do trabalho invisível, e é dentro dela que esses dois corpos resistem e questionam seu lugar no mundo.”, comenta o diretor Carlos Sobrinho. Para o autor e ator Sid Lima, a dramaturgia busca escancarar ao público não só as consequências da história violenta ao negro no Brasil, mas a repetição dela.
