Valsa Nº6
Escrita em 1951, a peça é um dos textos mais singulares do repertório rodrigueano. Concebida como um monólogo, a obra acompanha Sônia, uma jovem que, em estado de confusão mental, tenta reorganizar suas memórias fragmentadas. Entre lembranças, delírios e lacunas, a personagem constrói e desconstrói a própria narrativa.
Em um momento em que o Brasil enfrenta o aumento contínuo de casos de feminicídio, com mais de 1.500 mulheres assassinadas por razões de gênero apenas em 2025, o maior número já registrado no país, a nova montagem de Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, estreia em São Paulo propondo uma reflexão sobre a permanência da violência contra a mulher.
A montagem da Cia. Cães Errantes investiga a dimensão psicológica da obra a partir de uma encenação centrada no trabalho da atriz e na construção sonora do espetáculo. Ruídos, vozes e fragmentos sonoros atravessam a cena como extensões do pensamento da personagem, criando uma atmosfera de instabilidade e tensão. Sem realizar uma transposição direta de época ou contexto, a montagem aposta na força do texto original para evidenciar como os conflitos vividos pela personagem seguem atuais, convidando o público a confrontar não apenas a ficção, mas também os mecanismos sociais que continuam produzindo essas tragédias no presente.
O espetáculo marca o início das atividades da companhia, que surge com a proposta de desenvolver trabalhos centrados no ator e na experimentação de linguagem.
