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Foto: FABIO MOREIRA SALLES/DIVULGAÇÃO
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Quando a versatilidade do elenco faz toda a diferença

‘E Se Fosse Uma Bomba?’, no teatro do Sesc Santana, impressiona pela versatilidade de seus intérpretes, que dominam o palco com garra e graça, defendendo os inúmeros personagens que fizeram parte da vida de uma aviadora pioneira

Crítica Por Dib Carneiro Neto

Admira-se um espetáculo teatral por motivos de natureza diversa. Um desses motivos pode ser a força de seu elenco. É impressionante, por exemplo, a versatilidade dos intérpretes, quando cada um vive incontáveis personagens na mesma peça, bastando, para isso, apenas uma alteração de tom de voz, uma troca rápida de figurino ou apenas um acréscimo de adereço. E, pronto, já parece que há dezenas de atores e atrizes em cena, mas não: é o talento individual que se multiplica em várias figuras, enriquecendo a trama de pluralidade e riqueza narrativa.

Digo isso a propósito de E Se Fosse Uma Bomba?, em cartaz aos domingos no Sesc Santana, peça que tem um elenco formado por 3 parecendo 30.  Diego Chilio, Luiza Moreira Salles e Zenaide se desdobram em múltiplos papeis, contando também com o auxílio luxuoso de um contrarregra cênico, Eduardo Portella. O mais comum, quando isso acontece, é que o crítico perceba aqui e ali um desajuste, um destempero, um deslize, uma falta de aquecimento, um lapso. É tão difícil que todas essas trocas de personagens sejam perfeitas… Mas aqui achei que é. O grupo conseguiu. Tudo está impressionantemente bem executado, tudo azeitado, tudo nos trinques – com o perdão das expressões antigas. O elenco brilha do começo ao fim, demonstrando fôlego e disponibilidade para o jogo.

Foto: FABIO MOREIRA SALLES/DIVULGAÇÃO

Além do acerto de elenco, a peça escrita por Sofia Fransolin e dirigida por Rhena de Faria tem grandes achados tanto dramatúrgicos quanto cênicos, para contar a história real da aviadora Anésia Pinheiro Machado (1904–1999), a primeira mulher brasileira a realizar um voo solo em território nacional, em plena década de 1920. A peça é, portanto, “uma jornada rumo ao passado”, como dois ‘comissários’ anunciam logo no começo, com a clara e louvável intenção de voltar atrás para mostrar às novas gerações como existiram mulheres que desafiaram barreiras em áreas que eram historicamente masculinas. Só isso já seria motivo suficiente para levar a moçada ao teatro do Sesc Santana.

O espetáculo simula estar ocorrendo durante um voo de avião e, por isso, as pausas, transições e trocas de cenas se dão com ‘comissários e comissárias’ entrando e saindo, com avisos como se estivessem dentro da aeronave. Tudo muito criativo e divertido. ‘Aceita um snack?’ Um ritual bem coerente com a trama, inclusive muito adequado para comentar as ações e quebrar a quarta parede. O elenco tira de letra e nos encanta nesses momentos de pura inteligência dramatúrgica.

Foto: FABIO MOREIRA SALLES/DIVULGAÇÃO

O uso de teatro de sombras é um luxo a mais em meio a tantos acertos. Nada que se possa comparar a grandiosos efeitos especiais, mas a singeleza da técnica, a serviço do ritmo da história, é o que comove. Também merece menção o inusitado de fazer figurinos de couro (Victor Paula), usando como referência as roupas dos aviadores de antigamente.

A trilha sonora, assinada por Ernani Sanchez, é uma pérola à parte, pelas camadas que adiciona a cada cena. Na primeira vez que Anésia entra em cena, é dançando rock – e isso antecipa tudo sobre a irrequieta personagem e o que vai se passar em sua vida. A canção de ninar, logo que ela nasce, tem letra que já fala dos ‘voos’ que fará no futuro. E há também a licença escrachada de colocar Peixe Vivo e Marinheiro Só, totalmente fora de época, na cena em que a Marinha faz sua participação. Estranheza musical, que poderia ser vista como obviedade, mas aqui soa como brincadeira assumida.

Foto: FABIO MOREIRA SALLES/DIVULGAÇÃO

Impossível deixar de perfilar aqui algumas cenas inesquecíveis do espetáculo:

Quando a sonhadora Anésia sobe na escada e conversa com uma ave, desejando ter suas asas. Que poesia incrível brota dessa cena.

Quando o pai brinca com Anésia de olhar para o céu e descobrir os formatos das nuvens (brincadeira conhecida das crianças da plateia). Essa é mais uma cena que fala muito sobre a personalidade da menina, outra astúcia da dramaturgia. A atriz Luiza Moreira Salles, aliás, fazendo Anésia, não descuida nem um pouco do gestual da personagem, dando leveza e humor à sua composição, sem deixar que a aviadora vire uma figura solene e séria demais, o que seria o risco.

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Quando, na escola, os alunos se manifestam com muita curiosidade sobre a guerra, os diálogos estão muito bem escritos e o comportamento das crianças muito bem retratado, assim como a reação da professora.

Quando a menina Anésia vê um avião rasgando o céu pela primeira vez em sua vida, surge outra das cenas antológicas deste espetáculo, feita toda em câmera lenta (o que é raro no teatro). A menina deixa cair no chão o sorvete, de tão fascinada que fica. O design de luz (Danielle Meireles) é sublime, com jogo de brilhos e sombras que ajudam a compor o impacto sentido pela garota.

Foto: FABIO MOREIRA SALLES/DIVULGAÇÃO

Quando Anésia vê de perto, em solo, a primeira aeronave, a cena é outro achado inteligente. Excitada e entusiasmada, ela não para de falar, descrevendo o que vê nos mínimos detalhes. Emoção traduzida em incontrolável verborragia, comportamento tão certeiro para retratar um momento tão forte na vida dela.

Quando Anésia se muda para uma cidade grande, as retroprojeções no telão ilustram com muita graça a São Paulo dos anos 1920, criando um saudosismo que fascina os adultos.

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Quando o personagem de Santos Dumont surge na trama, o ator aparece na plateia antes de subir ao palco. Uma decisão cênica importante, que marca a grandeza da figura histórica, que precisa ser realçada com solenidade e respeito na linguagem da peça.

Quando a amiga sai da Aeronáutica (a também pioneira Thereza de Marzo), a cena ritualística é hilária, porque faz pensar que ela morreu, mas é um véu de noiva – ela vai se casar e o marido é que mandava na mulher, naquela época, diz o texto.  Uma solução cênica com muito humor – de se tirar o chapéu para a criatividade da ‘pegadinha’.

Quando Anésia finalmente vai voar pela primeira vez, a solução cenográfica é absolutamente cativante, mais uma vez por sua simplicidade eficiente. Lençóis brancos voam, provocando no palco um efeito mágico de movimento aéreo. Ponto para a premiada cenógrafa Marisa Bentivegna, que também deita e rola com o uso plural de escadas que se transformam em tudo o que a trama pede.

Vale dizer, por fim, o quanto o espetáculo consegue, além de tudo, trazer seus temas para a atualidade, sobretudo quando toca no delicado ponto do uso dos aviões para o mal, ou seja, virando armas de guerra. Questionar o uso dessa invenção é fazer as crianças pensarem. É introduzir uma boa reflexão na proposta de diversão. Teatro bom é o que pensa em tudo mesmo. E Se Fosse Uma Bomba? diverte, mas também propaga princípios de pacifismo, tudo o que não podemos nunca deixar de ensinar às novas gerações.

Foto: FABIO MOREIRA SALLES/DIVULGAÇÃO
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Dib Carneiro Neto

Dib Carneiro Neto

Jornalista, dramaturgo e crítico teatral. Começou a escrever críticas sobre teatro infantil em 1990, na revista Veja São Paulo. Foi editor-chefe do caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo (2003 a 2011). Atualmente, edita o site e canal do youtube Pecinha É a Vovozinha, que ganhou o Prêmio Governador do Estado em 2018, na categoria Artes para Crianças, além de menção honrosa no Prêmio Cbtij. Por sua peça Salmo 91, ganhou o Prêmio Shell de dramaturgo em 2008. Em 2018, ganhou o Jabuti pelo livro Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela.

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