Com mais de 30 anos de exercício da crítica teatral, poucas vezes aplaudi um texto tão certeiro em seu propósito, tão competente em suas intenções. Poucas vezes vi uma personagem de 9 anos, ou seja, uma menina pré-adolescente, tão bem construída dramaturgicamente, com suas intensidades, angústias, nuances, dúvidas, incertezas, ansiedades, transformações. Poucas vezes vi adultos enxugando as lágrimas em peças voltadas prioritariamente para crianças. Poucas vezes me despi da máscara de suposta isenção e de construída objetividade, para também enxugar as minhas.
Antes de Dormir está em cartaz por mais algumas semanas no Sesc Ipiranga. É uma pérola na programação atual de teatro infantil paulistano. Uma peça densa e divertida ao mesmo tempo. Será sempre impossível que as crianças não se identifiquem com as situações apresentadas. Será sempre improvável que os adultos não se emocionem ao recordar dos dias em que crescer se impôs e a infância foi ficando para trás. É uma fase marcante de transição em nossas vidas e a peça retrata isso com uma criatividade arrebatadora.

A canção inicial já dá o tom do que virá a seguir, falando em seus versos sobre “vontade de crescer”. No enredo, a menina Pipa (Carol Vidotti) conversa, sempre antes de dormir, com um amigo imaginário que se chama Nada (Dom Capellari). Criar, em peça infantil, um personagem chamado Nada diz bastante sobre a coragem da dramaturga, sua ousadia e sua fé na imaginação (Liana Ferraz). Nada é uma palavra forte e simbólica, tão abertamente ampla e tão plena de possibilidades a serem preenchidas. A menina fala também com sua boneca Maju (Fábia Mirassos), a primeira que ela guardou e que mora há anos no quarto onde agora é preciso abrir espaço para encaixar uma estante. O que fazer com o cantinho da boneca? Note como há simbologias ricas que ajudam a fazer a trama mais poética, mais sugerida do que explícita. A escolha que a dramaturga fez para marcar que a criança está crescendo foi retratar esse momento da chegada de uma estante…de livros. Um último ato de infância. Tão pertinente essa escolha, tão eloquente, tão carregada de significados empáticos.
A diretora (e idealizadora do espetáculo) Joana Dória imprime um ritmo agradável à trama, muito bem dosada por canções ótimas e uma musicista no palco o tempo todo, Clara Dum. Excelente medida, que valoriza a narrativa, sobretudo porque as letras das canções são incríveis. Dando os créditos: direção de criação musical de Dom Capelari; letras e melodias de Dom Capelari e Liana Ferraz e arranjos de Dom Capelari e Clara Dum.

Conforme a história vai avançando no palco, a gente percebe a quantidade enorme de boas frases na voz dos três personagens. São pistas que mostram o quanto a criança é respeitada pela dramaturgia, que oferece a ela um texto caprichado, bem pensado, nada raso, nada simplificado. Tudo poético e sábio, fazendo os adultos também gostarem muito do que ouvem. Alguns exemplos: – Nada é mais difícil do que escolher. – Quando sua voz está enroscada, você já sabe que a saída é escrever. – Eu não estou conseguindo iluminar o futuro. – Viver já é um monte de coisas. – Sinto saudade de não ter medo. – Como tudo pode mudar tanto em tão pouco tempo? – Eu não quero falar em voz alta sobre certas coisas, para que elas não existam.

Como esses, há muitos momentos brilhantes ao longo da peça. Toda vez que o Nada sai de cena, por exemplo, o efeito de luz é muito bem pensado como auxiliar da narrativa. A cena em que o Nada conta para a menina que ela já está começando a fazer “coisas de adulto” é muito delicada e marcante, assim como o perspicaz momento de virada, em que cai a ficha no personagem de que ele, como amigo imaginário, também vai sair da vida da menina assim que ela crescer um pouco mais. A luz também é excelente na cena de flashback em que a garota relembra o dia em que ganhou a boneca. Dando crédito: iluminação de Henrique Andrade.
A lição que a menina aprende enquanto cresce e “antes de dormir”, sem que haja no espetáculo nenhum tom de moralismo nem de catequese didática, é a de que “a gente descansa muito quando consegue existir com mais alguém junto”, seja um irmão, um primo, um amigo. Existir com mais alguém. A passagem do tempo vai ajudar a aplacar as dores inevitáveis, como a saudade, mas sempre com a ajuda de outras pessoas em nossas vidas. Alguém discorda do quanto essa “mensagem” virou tão urgente nesses tempos de hoje tão individualistas e egocentrados?

Dramaturgias assim tão irrepreensíveis e eficientes, além de não usarem facilidades e pregações professorais, preferindo dar seus recados por meio de poesia e metáfora, costumam também lançar mão de recursos estilísticos notáveis. Liana Ferraz tem cacife para tanto. E usou a artimanha da repetição como trunfo para aumentar o grau de encantamento e a cadência de sua narrativa. Quando ela abre a peça com uma mesma frase que será repetida muitas vezes pela personagem, ao longo de todo o espetáculo, a gente percebe a inteligência cênica e a potência da criação. Tem sempre o momento em que alguém apaga a luz – essa é a frase. No final, depois que a gente a ouve várias vezes, e sempre muito bem encaixada na trama, haverá uma mudança de verbo, que é melhor não contar aqui, para que você também se emocione ao ouvir. Quem sabe começar tão bem uma peça, e depois recheá-la de momentos memoráveis, não haveria de nos decepcionar ao final, porque também sabe como encerrá-la com impacto e brilho. Parabéns a toda a equipe. A propósito, qual foi o seu derradeiro ato de infância? Você se lembra? Pense nisso antes de dormir. E leve a família inteira para ver a peça.
Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.



