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A Epidemia do Ator-Verdadeiro

Coluna Por Chico Carvalho

A Epidemia do Ator-Verdadeiro

Por Chico Carvalho (@chicocarvalho)

 

Foto: Divulgação

Foi Walter Benjamin quem disse que a nossa capacidade de contar histórias está intimamente ligada à quantidade de informações que chega até nós. De uma forma mais clara, quanto mais sabemos, menos capazes somos de articular enredos, de inventar personagens, de, enfim, narrar qualquer coisa para outra pessoa curiosa em ouvir aquilo que contamos. Portanto, há aqui uma carência de imaginação que é fruto do excesso de informação. O mundo que nos localiza o tempo todo em suas coordenadas factuais é o mesmo mundo que subtrai nosso exercício fundamental de imaginar. Não havendo mistério, desconhecimento, assombro, o músculo imaginativo morre, e junto com ele morre o narrador que poderíamos vir a ser caso soubéssemos um pouco menos dos assuntos todos. Evidentemente que o “saber” de que Benjamin fala é um departamento que exige muito estímulo, voltando nossa atenção para o entendimento de que para se tornar um contador de histórias é necessário, antes de qualquer coisa, munir-se de experiências concretas, de ser alguém experimentado pela vida muito mais do que informado pelos mecanismos que nos convencem a adotar como urgentes para alcançar a tão aclamada lucidez, essa espécie de pote de ouro que só os muito dedicados e inteligentes dão conta de conquistar.

Não ocorreria o mesmo com o ator destes tempos invadidos pela informação? Porque me parece que há uma epidemia desse tipo de ator que busca a verdade o tempo todo, que precisa ser informado o tempo todo daquilo que ele é e precisa fazer para potencializar seu ser-ator (notem que ator que foge da terapia já sai defasado nessa corrida pela compreensão da sua essência verdadeira!). A busca pela tal da “verdade” é uma consequência daquele que necessita a qualquer custo povoar-se de informação e não se satisfaz em dar um passo sem carregar a sua lanterninha perscrutadora das alamedas mal iluminadas. O diretor quer a verdade do ator, o ator é ansioso por ser verdadeiro. A verdade do ator, por sua vez, clama pela verdade da sua personagem – e as boas personagens devem ser as personagens verdadeiras ainda que sejam almas penadas inventadas por uma mente imaginativa. Não importa! Há que se carnificar o fantasma para torná-lo mais real, verdadeiro, crível e verossímil a quem o observa. E quem observa é esse tal de espectador contaminado pela ânsia da verdade que não quer outra coisa senão a exposição fidedigna de algum evento passível de revelação. Não se fala de outra coisa senão da verdade da cena, da verdade do autor que verdadeiramente escondeu aquilo que quis que soubéssemos em cantos escuros que precisam ser descortinados na medida em que burilamos as suas ideias. E começa aqui um périplo atrás daquilo que fulano quis dizer, daquilo que é dessa forma e não poderia ser de outra sob ameaça de corromper com o fato verdadeiro motivador de tudo aquilo que nasceu sendo do jeito que é.

Nunca me convenci dessas estratégias de se passar dias, semanas, meses atrás de uma mesa para destrinchar um texto de teatro. Todo exercício de destrinchamento, a meu ver, é um excelente movimento rumo à pobreza daqueles que deverão se portar como narradores da história em questão. Além do mais, sempre achei que os bons autores são péssimos ludibriadores, incapazes de esconder qualquer coisa. São eles misteriosos, evidentemente, mas produzem seus mistérios para serem experimentados, nunca analisados nas tabelas de qualquer artista metido a elucidador dos fatos.  E minhas experiências provam que as boas personagens são tão translúcidas que qualquer tentativa que extrair o enigma da esfinge de suas entranhas é um convite para trazer à tona não a personagem, mas a vaidade suprema do ator que diante da plateia expele a sua arrogância analítica: vejam como sou um exímio arqueólogo das profundezas inauditas!

Vejam a história de Hamlet: papai foi morto por titio, que casou com mamãe, e agora é rei – mas será mesmo? O fantasma chega para pedir vingança. Estou louco, ou esse espectro tem razão? Pronto! Basta! Essa é a peça… Todo o conteúdo filosófico, poético, humano é de um manancial infinito, evidentemente, mas tudo isso necessita ser descrito numa planilha na ideia de tornar mais fácil (e potente) o trabalho dos artistas? Acho que não, voltem ao grande mestre que nos dá de cara a estrada das pedras: Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a tua filosofia, Horácio!

Todas às vezes que me perguntam quem é a personagem que eu represento no palco eu digo um tímido e sibilar “sei lá”. Quando as cortinas sobem eu preciso não ter a mais vaga ideia sobre a explicação daquela figura inventada que me deram a função de emprestar meu corpo e minha voz para que ela tivesse alguma ressonância no tempo e no espaço… Soubesse eu o que de fato esse evento miraculoso significa e estaria dando aulas sobre o tema, não encarando o problemão que é subir ao palco e contar uma história que não compete a mim qualquer movimento de elucidação. Talvez tudo isso seja culpa de um teatro dito sério e “importante” que se encantou com a modernidade e torceu o nariz para aquele teatro mais despachadamente popular que não tinha nenhum medo de fazer seus saltimbancos subir à cena para brincarem de ser outros. Nesses tempos de picardia explícita Stanislavski ainda não nos tinha convencido de que tudo tem um contraponto subjetivo, tudo tem uma entrelinha, todo texto tem seu subtexto. Acho um inferno essa palavra: “subtexto”. Porque basta espocar um tal de “subtexto” e lá aparecem os divagadores do significado daquilo que está por trás da pilastra, por trás da cortina, por trás do biombo. E eu adoro mesmo é a pilastra, a cortina…, o biombo. Explicou muito…, e já me canso.

Chico Carvalho.

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Chico Carvalho

Chico Carvalho

Ator, radialista e apresentador da Rádio Cultura FM de São Paulo. Formado em Artes Cênicas pela Unicamp e em Comunicação Social - Rádio e TV - pela Fundação Cásper Líbero. Mestre e doutor pelo Departamento de Artes da Unicamp.

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