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“Breve Conclusão”: uma peça da luta palestina. Pesquisa e leitura dramática de Eduardo Campos Lima

Coluna Por Maria Sílvia Betti

“Breve Conclusão”: uma peça da luta palestina. Pesquisa e leitura dramática de Eduardo Campos Lima

Por Maria Sílvia Betti (@mariasilviabetti)

Ghassan Kanafani – Foto: Divulgação

Eduardo Campos Lima, pesquisador de teatro norte-americano e brasileiro, é também autor de “Coisas de jornal no teatro” (Outras Expressões, 2014) e jornalista internacional independente, contribuindo regularmente com jornais como o Middle East Eye, o Arab News e o site da Al Jazeera. Seus trabalhos como correspondente o levaram a registrar o impacto do genocídio palestino na faixa de Gaza, a escalada dos ataques realizados por Israel à sombra do belicismo imperialista dos Estados Unidos, a situação da luta palestina em face das ações de extermínio e de destruição sem precedentes e o sofrimento dos refugiados.

Desse acompanhamento jornalístico resultaram entrevistas, depoimentos de militantes e de cidadãos palestinos, e por meio deles Eduardo tomou contato com a peça teatral “Breve conclusão”, coletânea dramatúrgica de oito pequenos monólogos do escritor comunista palestino Ghassan Kanafani [1936-1972].

A peça foi recomendada a Eduardo por um dos integrantes de um grupo de palestinos radicados no Brasil. Em 2022 esse grupo, que assumiu o nome de Kanafani para identificá-los em suas atividades, publicou uma compilação de várias obras do autor sob o título de “Filhos da Palestina: Retorno a Haifa e outras histórias”, com tradução de Gercyane Oliveira e Gabriel Landi Fazzio pela Lavra Palavra Editorial.

Uma leitura dramática de “Breve conclusão”, sob a direção de Eduardo, está sendo preparada para uma apresentação seguida de debate em 2024 em local a ser definido.  A relevância política e histórica desse trabalho, assim como seu caráter inédito, são ressaltados nas palavras do próprio Eduardo, com quem realizamos a breve entrevista transcrita a seguir:

INFOTEATRO – Eduardo, fale um pouco sobre sua experiência como correspondente dentro deste contexto de escalada da violência contra a Palestina.

Resposta: Venho fazendo reportagens sobre religiões há alguns anos, sobretudo em sua interface com a temática dos direitos humanos. Comecei a colaborar com veículos do mundo árabe editados em língua inglesa para tratar das dificuldades vividas pelos refugiados sírios, pois parte deles veio para América Latina (sobretudo o Brasil). Em 2021, Cabul foi dominada pelo Taliban novamente e uma onda de refugiados afegãos procurou abrigo no Brasil nos meses seguintes. Continuamos sendo até hoje o único país com uma política de emissão de vistos humanitários para tais refugiados.

A causa palestina permeou meu trabalho ao longo de todo esse período, pois a América Latina tem ligações profundas com o Levante como um todo e com o povo palestino em particular. O Chile, por exemplo, é considerado o país com a maior comunidade palestina no mundo fora do Oriente Médio, com pelo menos 500.000 chilenos de origem palestina. O Brasil também tem uma comunidade grande, principalmente na região sul, assim como Argentina, Uruguai, Colômbia e alguns países da América Central.

Quem acompanha a situação na Palestina sabe que as agressões israelenses ocorrem diariamente há muitos anos. Colonos israelenses de extrema-direita têm o projeto de se assenhorar de todo o território palestino (e expandir Israel até o Iraque, na verdade). Toda semana, chegavam notícias de invasões de colonos a aldeias na Cisjordânia, sempre resultando em algumas mortes de jovens árabes.

Nas épocas de colheita das olivas, quando as famílias geralmente vão juntas para os campos, colonos têm praticado atos de terrorismo, alvejando palestinos a esmo. As revistas vexaminosas de palestinos por soldados sionistas nos checkpoints têm sido uma costumeira fonte de tensões e violências também. Tudo isso se intensificou no atual governo de Netanyahu, em que representantes dos colonos tornaram-se ministros de Estado.

Em 2023, ocorreu um ataque mais concentrado em Jenin, que já é na verdade um campo de refugiados que subsiste em condições precárias. É lá a sede do teatro palestino Freedom Theatre, que tem recebido artistas latino-americanos para estágios e vivências. Durante os ataques sionistas, o edifício onde fica o teatro chegou a ser invadido por soldados.

Após os ataques de 7 de outubro realizados pela resistência palestina, a política de extermínio israelense foi elevada à milésima potência. Os bombardeios devastadores a alvos civis, com a eterna desculpa de que eles escondem membros do Hamas, têm resultado na morte e amputação de milhares de crianças, mulheres e idosos. Mesmo setores sociais brasileiros que normalmente não se manifestavam sobre a causa palestina têm demonstrado seu horror diante da carnificina promovida por Netanyahu e apoiada pela OTAN.

Na América Latina como um todo e no Brasil em particular, a cobertura das agressões sionistas pela imprensa tem sido pautada por Tel Aviv e Washington, com o endosso frequente às operações israelenses e a tentativa de representar todos os palestinos – e muçulmanos em geral – como terroristas. Isso tem causado mais e mais casos de insultos e agressões contra membros das comunidades muçulmanas no Brasil.

INFOTEATRO – Como você resume as perspectivas colocadas pela peça de Kanafani quando escrita e agora?

Resposta: A peça me foi indicada pelo doutor Yasser Fayad, militante de esquerda de origem palestina, membro do Movimento pela Libertação da Palestina – Ghassan Kanafani, poeta e escritor. Graças ao trabalho de Fayad e seu grupo, algumas obras de Kanafani começam a ser conhecidas no Brasil.

Ghassan Kanafani foi um importante líder da luta palestina no século 20 e um dos maiores autores palestinos. Natural da cidade de Acre, ele teve que se refugiar ainda na infância com sua família na Síria, após a tomada da região pelos sionistas. Formou-se professor com a agência da ONU para refugiados e lecionou artes para crianças palestinas. Foi nessa época que começou a escrever contos, com o intuito de tratar dos temas cotidianos do campo de refugiados com seus alunos.

No começo da década de 1950, ingressou na universidade, tomando contato com George Habash, líder nacionalista árabe. Acabou expulso devido às suas atividades políticas e passou alguns anos no Kuwait, onde se dedicou ao estudo da teoria marxista e da literatura russa.

De volta à Síria e depois ao Líbano, tornou-se editor de jornais nacionalistas árabes e dedicou-se à escrita, lançando em 1963 seu romance Homens ao sol, sua principal obra.

Poucos anos depois, em 1967, junta-se a Habash e torna-se militante da Frente Popular para a Libertação da Palestina, organização marxista-leninista que defende a criação de um único Estado democrático em que árabes e judeus convivam em harmonia.

Em 1972, Kanafani foi morto em Beirute, ao lado de sua sobrinha, pelo serviço secreto israelense, que colocou uma bomba em seu carro.

Kanafani escreveu Breve Conclusão, um curto monólogo sobre a construção moral de um revolucionário palestino, ainda muito jovem, em 1958. A peça organiza-se em uma estrutura de lições aprendidas pelo personagem-narrador, Abdul Jabbar, que se apresenta ao público dizendo que foi criado por Kanafani e que ambos acabariam mortos pelas forças coloniais anos depois.

Abdul Jabbar é um jovem palestino que decide juntar-se aos revolucionários após ver os tanques israelenses destruírem a figueira de seus avós e compreender que “a morte é a conclusão da vida”.

Da mesma forma que algumas das peças didáticas do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, Breve Conclusão lida com as condições impostas pela luta revolucionária e com a necessidade de seus participantes entregarem-se completamente a ela, dando-lhe inclusive a própria vida.

Esse caminho, trilhado pelo próprio Kanafani, aparece em seus escritos e entrevistas de maneira recorrente. A ideia de abdicar de sua própria pátria surge na obra de Kanafani como capitulação inaceitável. Em mais de um momento, ele deixou claro que seria preferível morrer a sobreviver sem lutar pela Palestina.

Esta é a última das conclusões de Abdul Jabbar no monólogo: “Mesmo se um de nós morra, é importante continuarmos!”

Escrita apenas 10 anos após a criação do Estado de Israel, a peça faz o necessário chamado à luta coletiva palestina contra o invasor ocidental. Conclama sobretudo os jovens a deixar de lado seus projetos pessoais e unir-se aos rebeldes. Mas o faz com um sentido último quase transcendental. Diante da grandeza e do poderio militar e econômico do inimigo, Kanafani sabe que sua mensagem dirige-se sobretudo à posteridade. Daí o conteúdo didático-filosófico de seu texto. As lições de Abdul Jabbar devem continuar educando as gerações futuras.

Quando Abdul Jabbar é preso, um oficial sionista lhe pergunta se ele é rebelde. Ele responde: “É claro!” e toma uma bofetada. A lição que aprende é que “bater num prisioneiro é uma expressão de arrogância e medo”. A atual campanha sionista contra Gaza demonstra que 60 anos depois essa conclusão continua válida. O ataque orquestrado pelo Hamas expôs as fraquezas da máquina de guerra israelense, propagandeada há décadas como um colosso intrasponível. A reação bárbara que tem se seguido é, sem dúvida, “uma expressão de arrogância e medo”.

INFOTEATRO – Que papel tem uma leitura dramática dentro desse contexto e quais são as perspectivas para a realização de outras leituras futuras?

Resposta: Um grande texto teatral tem o poder de condensar, organizar e representar conteúdos da realidade histórico-social de maneira particularmente profícua. A leitura dramática permite ao espectador que escute tais conteúdos em vozes que não apenas as evocadas por sua própria leitura individual, o que provoca afastamento adicional do objeto e facilita a reflexão e a crítica.

O texto de Kanafani diz respeito a um período histórico em que os marxistas tinham papel destacado na luta palestina e os grupos de inspiração religiosa não eram centrais. O conflito entre tal realidade e a atual conjuntura pode levantar questionamentos fundamentais para a reflexão sobre os movimentos do imperialismo nas últimas décadas.

A leitura dramática de Breve Conclusão corresponde quase que à sua encenação, já que se trata de um monólogo cujas ações são todas narradas. É de se questionar, inclusive, por que ela ainda não foi feita, bem como a leitura de outras peças de dramaturgos palestinos, no contexto das atividades de apoio à causa palestina no Brasil.

INFOTEATRO – Como a realização dessa leitura em preparação se coloca dentro de sua trajetória de pesquisador?

Resposta: Como pesquisador de dramaturgia brasileira e norte-americana, aprendi com a professora Maria Silvia Betti, que foi minha orientadora no mestrado e no doutorado, que o texto teatral pode e deve ser lido individualmente, mas que ele só ganha a necessária concretude na boca do ator e da atriz.

É por isso que tivemos a ideia de estabelecer um programa de leituras dramáticas feitas por atores e atrizes em colaboração com um pequeno grupo de pesquisadores de teatro, organizados no embrião do que virá a ser um instituto de estudos de dramaturgia.

A leitura de Breve Conclusão será a primeira como parte dessa iniciativa. A ideia é fazer, ao longo de 2024, leituras de peças de autores norte-americanos e brasileiros, como Tennessee Williams, Clifford Odets, Oduvaldo Vianna (Filho) e João das Neves.

O programa deverá também, eventualmente, incluir textos que digam respeito a eventos contemporâneos que julguemos que precisem ser discutidos. Outras obras de Kanafani, por exemplo, podem vir a ser lidas.

INFOTEATRO – Muito obrigada, Eduardo! Muito oportunas todas essas leituras! Estamos torcendo para que aconteçam logo.

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Maria Sílvia Betti

Maria Sílvia Betti

Pós-doutora pela New York University, doutora em Literatura Brasileira pela USP. É professora da FFLCH-USP, atuando no Programa de Pós Graduação em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês, ligado ao Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Estudos de Teatro (foco em Dramaturgia), atuando principalmente nos seguintes temas: teatro norte-americano moderno e contemporâneo, teatro brasileiro moderno e contemporâneo, dramaturgia comparada (estados unidos-brasil).

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