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Foto: © Joao Caldas Fº
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Brincadeiras com palavras e bonecos resistem ao tempo no repertório de encantos da cia. As Graças

Como se explica o sucesso de uma peça em cartaz há 28 anos? Não se explica, porque nada no teatro é cartesiano, tudo é incalculável – e só sobrevive quanto menos se tenta escapar do imprevisível da vida

Crítica Por Dib Carneiro Neto

Lá vem outra crítica emotiva da minha modesta lavra. Bom, como se já não fossem assim todas as que tenho escrito recentemente. Talvez nem seja mais adequado chamar de crítica, talvez um dia eu seja interditado por excesso de afeto. Mas o fato é que o que vem a seguir é um amontoado de comentários intensos, que mais saíram do coração e da alma do que do lado mais objetivo de meu cérebro de crítico. Mas vamos lá. Vou pôr em foco minha (re)visão sobre o espetáculo infantil Poemas para Brincar, da Cia. Teatral As Graças, em cartaz no Sesc Ipiranga.

É precioso poder envelhecer, acumulando parâmetros, construindo maturidades, diversificando os olhares. Digo isso porque já tinha visto esse mesmo espetáculo em sua temporada de estreia, há 28 anos, em 1996, portanto, no século passado. Estar vivo – ter sobrevivido – para revisá-lo tanto tempo depois é muito valioso. Essa revisita dirá muito sobre mim também, não só sobre o espetáculo com sua chancela de longevidade. Que se lasquem os puristas da crítica e do academicismo.

Na sessão em que estive presente, no dia 3 de março, um domingo, às 11 horas, a sala estava quase lotada. Pessoas das mais variadas faixas etárias, e, claro, muitos representantes do alvo específico da peça: as crianças até mais ou menos 8 anos. Foi um regozijo ver Poemas para Brincar ainda reverberar tanto. Ah, mas como assim?, é a geração tecnológica, a geração multi telas, a geração que não se concentra mais por tanto tempo numa coisa só… Sim, era essa a geração presente. Mas como curtiram. Como participaram. Como eu disse, é precioso ter sobrevivido para ver um espetáculo do século passado “funcionando” tão bem até hoje.

Foto: © Joao Caldas Fº

Qual o segredo? Afinal, não se trata de um clássico oral recolhido pelos Irmãos Grimm nem de uma fábula de Esopo tampouco de um conto de fadas de Andersen. Nesses três casos, o longo tempo em cartaz ficaria mais facilmente decifrável e explicável. Mas não. São “apenas” poemas. Poemas musicados. Poemas para brincar. Então, qual o segredo? Nenhum, ué. O teatro é imponderável e seu sucesso, mais ainda. Não dá para destrinchar um segredo, como se houvesse fórmula certa no teatro.

Emocionou-me, por exemplo, um certo jeito retrô de fazer espetáculo com bonecos. Os três manipuladores/atores não aparecem em nenhum momento, não conversam entre si nem com a plateia. Emprestam suas vozes para os bonecos/personagens e… só. Seus corpos ficam escondidos o tempo todo por trás das empanadas –  como são chamadas no teatro as estruturas desmontáveis que determinam a área de representação para os bonecos.

De 1996 para cá, ano da estreia, muita coisa mudou na hora de escolher o tipo de técnica e de linguagem de animação teatral. Manipuladores ganharam direito ao proscênio. Dificilmente se esconde, hoje, numa peça, o corpo do manipulador. O jeito de manipular bonecos e objetos à vista do público, revelando técnica e trucagem à plateia, virou opção predominante entre os grupos de São Paulo e até do Brasil. Acho que por causa disso o espetáculo Poemas para Brincar, por mais idoso que já seja, ganha assim paradoxalmente essa cara de “novidade” para as crianças de agora. E, por falar na empanada, ela surge aqui de forma duplicada, com duas áreas de representação, não apenas uma. A segunda fica um degrau abaixo da primeira, mais próxima da plateia. É um ótimo recurso para dar dinamismo ao espetáculo, fazendo os bonecos caminharem pelos dois espaços, e desaparecerem aqui para surgirem ali. Algo tão simples e que resulta tão magnético.

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Junte-se a esse acerto espacial cenográfico a vitalidade resultante de outra via: a detalhista direção de movimentos, assinada a partir deste ano por Marco Lima, convidado especial das Graças para atiçar ainda mais o frescor das cenas, no quesito específico da interação entre os bonecos. Repare na força de vida impregnada em cada boneco por cada um dos três manipuladores (Eliana Bolanho, Flávio Pires e Vera Abbud). Há sutilezas. Há cuidados. Há sincronias inteligentes de gesto e voz. E o que isso revela? Não só revela, mas nos escancara a firmeza louvável de uma companhia em querer se renovar, em fugir a todo custo da acomodação e das facilidades já enraizadas. Não importa o cansaço da sobrevivência, não importa o peso dos anos sobre o elenco, não importam as dores persistentes de saudade a cada soar dos três sinais – pela perda precoce, há três anos, de uma das fundadoras da companhia, criadora e maior entusiasta de Poemas para Brincar, Juliana Gontijo. Depois disso, nada mais lhes segura a vontade de prosseguir fazendo bem-feito. Por ela, a Ju, com certeza. Mas sobretudo pelas crianças. Nada mais que ainda aconteça conseguirá impedir uma companhia como As Graças de querer oferecer não menos do que o sublime para suas plateias mirins.

Foto: © Joao Caldas Fº

O jeito de brincar com as palavras é outro trunfo importante do espetáculo, talvez o maior. As palavras – quanto mais se brinca com elas mais novas elas ficam. Isso está no texto. Delicioso de se ouvir. A escolha dos poemas “brincalhões” do saudoso José Paulo Paes (1926-1998) é um fôlego que dará à peça o tempo de vida que o grupo quiser. Temporadas e mais temporadas, a se perder de vista. É uma questão de pureza. E a pureza é de todas as infâncias, não importa que o tempo passe e passe e passe.  Não importa se o iphone 100 já estiver à venda, se a inteligência artificial é que corrigirá as provas da escola. A água do rio será sempre água nova. E um dia será sempre diferente do outro dia. Isso também está no texto da peça. Tão sábio de se ouvir.

As temáticas escolhidas também explicam a longevidade dessa pérola cênica. Se os adultos se deleitam com o saudosismo de pipas no céu e bolas no quintal, as crianças são remexidas por dentro nas cenas pueris que provocam medo. Medo de caveira, de morcego, de cemitério, de túmulo. Sim, aqui jaz. Quer espaço mais libertário, para se retratar saudade e medo, do que o palco de um teatro? O frisson das crianças na plateia é de arrepiar. Elas gritam, querendo responder tudo o que os personagens perguntam. Um recurso simples do teatro infantil, tão batido, tão usado, que às vezes resulta tão empobrecido e esvaziado, mas que aqui consegue manter a mágica, o foco e o propósito – sem dúvida nenhuma, por força do sólido texto poético e da insistência do grupo em exaltar a inocência. Ah, essas crianças… Se este mundo fosse meu, seria paraíso de bichos, plantas e crianças, diz a moda de viola criada a partir de um poema de Paes, pelo compositor Madan (presença luminosa e decisiva para a criação deste espetáculo).

Foto: © Joao Caldas Fº

Bichos, plantas e crianças. É uma simplicidade atrás da outra, e é daí que vem a força de Poemas para Brincar. Do que é simples. Como, por exemplo, produzir uma cena em que as letras vão surgindo no palco e formando palavras parecidas, gato e rato, elefante e elegante. Quer algo mais simples? E, assim, na base da brincadeira insuspeitada, evoca-se com eficiência a fase de alfabetização das crianças. É tão empolgante vê-las tentando ler, soletrando, adivinhando letra por letra, felizes quando as palavras se formam. Tão lindo e tão puro. Uma cena curta, nada exagerada, mas que casa bem com tudo e ainda homenageia a matéria prima do poeta: palavras sendo formadas, agrupadas, até ficarem encantadas para sempre.

Ah, e que atrevimento delicioso da peça: fazer os adultos ouvirem, vindas dos bonecos, expressões divertidas que ficaram no vocabulário de outrora. Vá plantar batatas, vá ver se estou na esquina, vá caçar sapo, nem aqui nem na China. Que chance boa de conversar com as crianças sobre isso em casa ou na escola. Uma lição divertida e leve de como a língua é rica em imagens e possibilidades, como se solidifica para depois se desmanchar, como morre e renasce, renovada.

Pois é isso. É assim que, pela voz resiliente da cia. teatral As Graças, a poesia encantatória e eterna de José Paulo Paes grita seu “presente!” em pleno março do ano de 2024. E também é assim que, por essa mesma voz resiliente da cia. teatral As Graças, a emoção descontrolada de um veterano crítico mais uma vez se descortina sem pudor e sem juízo.

Ah, um último lembrete: onde foi que esconderam as mangas do colete e quem matou os piolhos da cabeça do alfinete?

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Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

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Dib Carneiro Neto

Dib Carneiro Neto

Jornalista, dramaturgo e crítico teatral. Começou a escrever críticas sobre teatro infantil em 1990, na revista Veja São Paulo. Foi editor-chefe do caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo (2003 a 2011). Atualmente, edita o site e canal do youtube Pecinha É a Vovozinha, que ganhou o Prêmio Governador do Estado em 2018, na categoria Artes para Crianças, além de menção honrosa no Prêmio Cbtij. Por sua peça Salmo 91, ganhou o Prêmio Shell de dramaturgo em 2008. Em 2018, ganhou o Jabuti pelo livro Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela.

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