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Foto: Joao Gabriel Monteiro
Foto: Joao Gabriel Monteiro

“Dias Felizes”, da Armazém, prova que cada um pode enxergar o que quiser, por mais absurdo que pareça

Dirigida por Paulo de Moraes, Patrícia Selonk é Winnie, a emblemática personagem de Beckett, e se sai melhor que atrizes acima de qualquer suspeita

Crítica Por Dirceu Alves Jr.

Clássicos que são clássicos renovam as leituras de acordo com o tempo em que são revisitados por artistas e a visão do público. Sob este ponto, a Winnie interpretada pela atriz Patrícia Selonk em Dias Felizes, adaptação da Armazém Companhia de Teatro para a peça do irlandês Samuel Beckett (1906-1989), provavelmente é uma bolsonarista. A montagem, dirigida por Paulo de Moraes, em cartaz no Sesc Pompeia, reforça ironias nas falas e nos gestos para sublinhar mais que uma resignação na personagem, mas um caráter conservador e um fanatismo facilmente verificado nos eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na obra de Beckett, lançada em 1961, Winnie é uma mulher na casa dos 50 anos enterrada até a cintura, apegada a rituais corriqueiros que a fazem alimentar as esperanças e acreditar na beleza de cada dia quando acorda. Ao seu alcance, tem apenas um bolsa em que carrega uma escova de dentes, um espelho, um batom e, mais tarde se descobre, um revólver que a ajudam em uma rotina de otimismo forçado. Há também uma sombrinha que pode protegê-la do sol escaldante ou de possíveis tempestades. “Mais um dia divino! Jesus Cristo, amém”, diz ela, de olhos fechados, mãos em sinal de oração, simbolizando a sua fé.

À direita dela, no começo do chão de terra, pode ser visto Willie (interpretado por Jopa Moraes, na sessão da sexta, 26 de junho, às 16h), o marido submisso, monossilábico e cúmplice da sua existência em colapso, que, segundo ela, só faz dormir. Não, Willie tenta subir o monte e alcançá-la, quase sempre sem sucesso, e, como um Sísifo, despenca, retornando ao ponto inicial para, quando der na telha, iniciar uma nova escalada. “Continue entre nós, querido, eu posso precisar de você. Sem pressa, sem pressa, só não saia do ar de novo”, provoca a mulher, beijando o revólver.

Foto: Mauro Kury

Winnie deve ter aproveitado para comprar a arma de fogo quando o procedimento andou um pouco mais facilitado, provavelmente entre 2019 e 2022. Acreditou que precisaria dela em alguma emergência para se defender de cidadãos do mal ou até resolver seus problemas. O batom está no fim, ela tenta ler as instruções em letras minúsculas de uma embalagem e, enquanto isso, Willie limpa os pulmões e escarra o catarro que enoja a mulher. “Qualquer cidadão de bem teria vontade de vomitar! (…) Se ao menos eu pudesse suportar ficar sozinha, quero dizer, ficar tagarelando por aí sem uma alma sequer para me dar ouvidos”, dispara ela, assumindo a dependência.

Enquanto Winnie fala, fala sem parar e reza as suas velhas preces, o tempo passa, um novo relógio desperta e, no começo do segundo ato, ela afundou mais, bem mais ainda. Agora, é só a cabeça que está para fora da terra. A bolsa e a sombrinha aparecem no mesmo lugar, e o revólver segue ali.

Winnie não consegue mais se maquiar ou olhar no espelho e perdeu o controle em relação à arma de fogo. O marido reluta em aparecer. Talvez, agora, já seja 2023 ou até 2026, algumas coisas deram erradas, e a protagonista não disfarça o sofrimento, a decepção. “Eu costumava rezar. Quero dizer, antes eu rezava. É, devo confessar que sim. Agora não. Não, não. Antes, agora… Como isso é duro para a mente. Ter sido sempre quem eu sou — e tão diferente de quem eu era”, lamenta.

Foto: Joao Gabriel Monteiro

Durante muito tempo, as peças de Samuel Beckett, mesmo constantemente remontadas por grandes encenadores, pareciam sem lógica, afinal, são representações do que ficou consagrado como o teatro do absurdo. Só que, de uns 15 anos para cá, tudo começou a ficar tão irracional no Brasil e em várias partes do mundo que a mensagem de Beckett renovou significados e pode ser decifrada com menor esforço.

Esperando Godot, publicada em 1952, é o título mais famoso do dramaturgo. Vladimir e Estragon são dois homens que esperam alguma coisa, talvez a chance de salvação, e ela nunca aparece. Só para ficar em exemplos mais recentes, a peça ganhou direções de Elias Andreato e Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023), respectivamente em 2016 e 2022. Paulo de Moraes comandou uma encenação para a Armazém Companhia de Teatro, em 1998, tendo Patrícia na pele de Estragon.

Fim de Partida, escrita em 1954, mostra a relação de dependência e autoritarismo entre dois homens em um cenário apocalíptico. Entre tantas versões, rendeu a montagem de Rodrigo Portella com os atores Marco Nanini e Guilherme Weber que estreou em São Paulo em abril e excursiona pelo país.

Foto: Mauro Kury

Se em Godot existe a esperança da espera, em Fim de Partida a passividade é desafiada pela possibilidade ainda que remota da fuga. Em Dias Felizes, parece que tudo está acabado e, para Winnie, só resta se iludir que a existência ainda vale a pena e aguardar o fim que já não está mais ao alcance de suas mãos.

A Armazém Companhia de Teatro foi fundada em Londrina, no Paraná, pelo diretor Paulo de Moraes, que, na época, em 1987, era ator e tinha 21 anos, Ele dava aulas de iniciação teatral em uma escola secundária e montou junto com os alunos uma adaptação da peça Nossa Cidade, de Thornton Wilder (1897-1975), disposto a valorizar os clássicos. Naquela fase, o teatro brasileiro aplaudia a ascensão da estética dos grandes encenadores, como Gerald Thomas, Gabriel Villela e Bia Lessa, entre outros. O texto parecia importar pouco.

O coletivo ganhou projeção nacional em 1994 quando, a convite do ator Paulo Autran (1922-2007), Moraes dirigiu A Tempestade, de William Shakespeare, e se sentiu estimulado a trocar o Paraná pelo Rio de Janeiro. O primeiro espetáculo na cidade foi justamente Esperando Godot e, sediados na Fundição Progresso, uma antiga fábrica desativada no bairro boêmio da Lapa, os artistas construíram um repertório que transita com vigor entre os clássicos e a dramaturgia contemporânea.

Foto: João Gabriel Monteiro

No terreno dos clássicos, a Armazém ressignificou Mãe Coragem e Seus Filhos, de Bertolt Brecht (1898-1956), Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues (1912-1980), Hamlet, de Shakespeare, e Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908). O próximo espetáculo é A Gaivota, do russo Anton Tchekhov (1860-1904), que estreia em 5 de agosto no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio. A Marca da Água, O Dia em que Sam Morreu e Inveja dos Anjos, dramaturgias de Maurício Arruda Mendonça e Moraes, são exemplos de investimentos em histórias contemporâneas.

Quase todas contam com o protagonismo de Patrícia Selonk, de 55 anos, uma das mais expressivas atrizes da cena brasileira e pilar fundamental para o reconhecimento da Armazém como sinônimo de técnica e rigor teatral. Ela vai da representação do príncipe Hamlet até a prostituta Geni de Nelson Rodrigues com inegável talento.

Em Dias Felizes, como falamos, Patrícia, claro, é Winnie, como será Arkadina, a dama do teatro, em A Gaivota. Sendo o Armazém um grupo e Dias Felizes uma peça para dois intérpretes foi adotado um revezamento para o papel de Willie que, além de Jopa Moraes, coloca o ator Felipe Bustamante e a atriz Isabel Pacheco, em dias alternados, na pele do antagonista.

Foto: João Gabriel Monteiro

Winnie é umas daquelas personagens dos sonhos para grandes atrizes e tão desafiadora que, algumas vezes, não se adequa mesma a intérpretes acima de qualquer suspeita. Só para citar algumas, Winnie já foi Fernanda Montenegro em montagem dirigida por Jacqueline Laurence (1932-2024) em 1996, Norma Bengell (1935-2013) sob o comando de Emílio Di Biasi (1939-2020) em 2010 e Sandra Dani na encenação de Rubens Rusche em 2013.

Nenhuma delas, com todo o respeito, chegou perto do que é Patrícia Selonk em cena, como nenhuma destas montagens se saiu tão bem-sucedida quanto a de Paulo de Moraes. Muito deste resultado se deve, claro, à sintonia entre diretor e atriz, que, além de quase quatro décadas de parceria profissional, são casados na vida real. O principal, entretanto, é uma maturidade e uma falta de reverência da dupla, sem em momento algum parecer desrespeito, em se apropriar e dar uma nova contribuição à obra de Beckett, dispensando uma fidelidade exagerada ao original.

Mesmo sendo uma peça para dois intérpretes, Dias Felizes é praticamente um monólogo – e um monólogo de uma personagem imobilizada. É regra que o corpo do ator fala, mas quem interpreta Winnie, além da voz, só pode se expressar da cintura para cima na primeira parte e, para tornar ainda maior o teste, apenas com os movimentos faciais e os olhos na segunda. Patrícia é uma atriz que explora muito o físico – seu trabalho como o príncipe da Dinamarca é um bom exemplo. Desta vez, ela investe na modulação da voz o tempo inteiro e convoca o público a embarcar em diversas sensações que jamais esbarram no tédio.

Foto: João Gabriel Monteiro

Dias Felizes chegou a São Paulo depois de mais de um ano de estrada, três temporadas lotadas no Rio e passagens pelos festivais de Porto Alegre, Curitiba e Xangai, na China. A comunicabilidade está mais que testada, e a intimidade de Patrícia e seu parceiro de cena a cada noite só deve abrir margem para que cada um fique à vontade com os personagens. A atriz parece confortável em sua posição quase estática e os outros colegas devem escalar com a mesma segurança o cenário criado por Carla Berri e Moraes.

Muitos falam que Beckett é dificílimo de encenar, parte do público pode até considerar suas peças chatas, mas, neste caso, o tédio passa longe. O fato de Moraes ter colocado dois atores e uma atriz no revezamento para defender Willie amplia as possibilidades de leitura, e esse painel se estende tanto que as interpretações podem variam a ponto de atingir outros extremos, inclusive o político.

Se, para alguns, Winnie pode aludir a uma bolsonarista, certamente vão existir aqueles que a enxergam como uma representante da esquerda enterrada na confiança cega da ideologia, talvez mais ainda nos dias em que Willie seja defendido pela atriz Isabel Pacheco. Dias Felizes, da Armazém, comprova a riqueza do teatro, aquela que permite a cada um enxergar o que quiser e, algumas vezes, isto é possível na vida, por mais absurdo que pareça.

 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

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Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

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