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Foto: Luisa Crobelatti
Foto: Luisa Crobelatti

É apenas um menino na rua querendo ser palhaço

Com esse mote, Cia. Paideia põe em cena mais uma vez – e com o mesmo encantamento – o personagem Pepé, criança em situação de rua, com dificuldades para ‘atuar’ na faixa de pedestres de um farol na cidade grande

Crítica Por Dib Carneiro Neto

– Voltei!

Fiquei imaginando como seria o início de uma peça infantil que é a continuação de outra, com o mesmo personagem. Confirmei logo de cara uma lição. Em certas situações, não adianta ‘mirabolar’, ‘caraminholar’. Não adianta querer reinventar as regras da narrativa: o simples e o direto funcionam melhor do que qualquer invencionice forçada. Um bom dramaturgo sabe disso. Como Amauri Falseti, em cartaz na sede da Cia. Paideia com seu Pepé e Carmela, continuação de Pepé, O Pequeno Palhaço, de 2021.

Foto: Luisa Crobelatti

Pepé entra em cena e simplesmente diz “voltei”. Não haveria jeito melhor. Uma única palavra já faz borbulharem na nossa mente todas as aventuras desse personagem em sua jornada anterior. E, para quem não viu o outro espetáculo, isso não vai fazer diferença. Um bom dramaturgo – como Amauri Falseti – também sabe que as continuações precisam se sustentar por si sós. Pepé e Carmela não depende que você tenha visto Pepé, o Pequeno Palhaço.

A julgar pelo que a gente vê no cinema, as sequências raramente são melhores do que o filme original. Por isso cheguei naquela tarde, à sede da Paideia, em Santo Amaro, com um pouquinho de receio disso, embora, conhecendo tanto a trajetória de autor e diretor de Falseti, algo já me dizia que Pepé e Carmela não me decepcionaria. Dito e feito. Que agradável e emocionante fim de tarde eu vivi mais uma vez, naquele templo de teatro jovem, carregado de frescor e bons ventos. Uma companhia teatral que soube construir uma história resiliente em seu entorno e agora colhe os frutos de novas gerações abraçando os palcos com contagiante força cênica – ao mesmo tempo em que também soube almejar voos mais longínquos, cultivando intercâmbios internacionais de notável relevância e um longevo festival de reputação mundial, voltado para infância e juventude.

O peso da maturidade precoce

Mas voltemos a Pepé e sua nova amiga, Carmela. Vivido com acertada fisicalidade e intensa entrega por Ana Luiza Junqueira, Pepé vai encontrando pelo espaço cenográfico (Aglaia Pusch) objetos que fazem referência à sua história e ao espetáculo anterior. Ótima sacada de quem sabe começar uma peça. Como Amauri Falseti. Ali, naquele terreno abandonado, o menino “pratica” suas ansiedades e seus anseios, suas realidades e seus sonhos. A atriz carrega muito bem nas tintas do menino desconfiado, machucado pela vida, descrente e precavido. “Você é do juizado? Da polícia? Da escola?” Mas quando seus olhinhos brilham, aguenta coração. Que personagem forte, bem construído, que fica diante de nós se balançando o tempo todo na cruel gangorra que, de um lado, tem a infância latente, querendo brincar e brincar e brincar – e, do outro lado,  o peso da maturidade precoce, que lhe obriga a duvidar da esperança.

Foto: Luisa Crobelatti

Eis que surge Mel, moça que o segue por um motivo que logo ficará claro: ela o vê numa esquina fazendo números de palhaço e chega mais perto porque também é uma palhaça, Carmela. Melina Marchetti também cumpre com louvor o seu papel, alternando tons de empatia, afetividade, maternidade, compaixão e amizade. Carmela representa a solidariedade em forma de arte, o amor em ritmo de brincadeira, a liberdade oferecida em abraço. “Posso ter a chance de te chamar pelo seu nome?”, pergunta ela ao retraído Pepé, que, no início, se recusa a se identificar.

Pepé, então, ao saber que Mel é também Carmela, percebe que um nome está contido no outro. Assim, se o público tinha alguma dúvida de sua perspicácia aguçada de criança, agora – com esse exemplo simples relacionado às possibilidades de um mesmo nome – entende definitivamente toda a complexidade sagaz dessa figura arredia, em situação de rua. Pepé é sofrido, mas antenado com o mundo e com as diferenças – e está disposto a praticar a alteridade. Na primeira parte da peça, ele finge que não, mas está completamente interessado em descobrir/desvendar a nova amiga.

A construção de uma amizade

Desfila por nossos olhos, o tempo todo, a construção lenta e delicada de uma amizade. Um bom autor consegue dar conta disso. Como Amauri Falseti. As situações criadas entre os dois personagens, os diálogos muitas vezes adornados por silêncios ensurdecedores, o vaivém das emoções, as revelações cuidadosas, as insistências, as desistências. É muito eficiente a forma como dramaturgia e direção se entrosam para dar equilíbrio entre medo e coragem, o desconhecido e a confiança, a flama de querer e o ímpeto de ofertar. Só um experiente artista sabe desenhar em cena, pedrinha por pedrinha, esse caminho crescente. Como Amauri Falseti.

Foto: Luisa Crobelatti

A narrativa é tão bem construída que a gente percebe nitidamente a transformação e o momento exato em que a segunda parte da peça começa: quando Pepé finalmente pede. Isso mesmo, quando ganha coragem para pedir. “Você me ensina palhaçaria?” Todo mundo na plateia, não importa a idade que tenha, sabe bem como é difícil expressar nossos desejos, fazer nossos pedidos. Ou seja, externar abertamente nossa carência. Pepé pede, depois de toda uma primeira parte de calejada desconfiança. Como é lindo.

É quando um bom dramaturgo – como Amauri Falseti – aproveita e inverte o quadro. Agora é Carmela que, no jogo, recua: “Eu não tenho nada para trocar com ninguém!”, diz a Pepé. O esperto diretor – como é Amauri Falseti – entra em ação e faz os dois personagens trocarem seus bambolês, ‘ilustrando’ essa fala sobre troca com ação e brincadeira. Que delícia. Pensa que, na plateia, criança não percebe? Percebe, claro. Público de peça infantil é muito exigente e viajante. Sabe associar os dois sentidos do verbo trocar. Inclusive, antes disso, quando o verbo da conversa é “transformar”, imediatamente Carmela põe os bambolês nas costas de Pepé, feito asas, como se fosse lagarta transformando-se em borboleta. As crianças também são capazes de entender. Um jogo constante e simbólico entre palavra, imagem e ação. Coisa de bom diretor. Como Amauri Falseti. “Mas então já começou?”, surpreende-se Pepé. Carmela entrega o ouro: “Desde a hora em que eu cheguei.” Ah, que primor de diálogo. Um bom autor sabe nos enredar. Como Amauri Falseti.

Música encarnada

A peça vai seguindo, calmamente, e as atrizes acertam, o texto acerta, a direção acerta, a iluminação acerta (Rogério Modesto), a trilha acerta. Aliás, a trilha! Saiba – e não é spoiler – que a Música está em cena, como personagem, encarnada na atriz, diretora musical e musicista Margot Lohn. Numa peça que celebra a força da arte na vida de uma criança, fazer a Música ser personagem é muito incrível. Belíssima é a trilha da cena em que Mel vira Carmela, por exemplo. Um piano ao vivo para o nascer de uma palhaça. Que só começa realmente a ser, quando encaixa seu nariz vermelho no rosto. Tão significativo. E a beleza prossegue quando Carmela veste Pepé (figurinos de Aglaia Pusch) e a atriz se arma de toda solenidade possível para colocar nele o nariz vermelho. Como um batismo. Tão maravilhoso. E a Música ali, firme, palpável, presente, cuidando também de toda a sonoplastia, como na hora em que simbolicamente abrem a porta do imaginário. Impossível não citar também o trecho emocionante com o Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos.

Foto: Luisa Crobelatti

E, por falar em imaginário, Amauri Falseti ainda nos entrega uma terceira parte. Um livro entra na trama. Puxa, como esse dramaturgo sabe valorizar os livros em suas peças para crianças! Em várias de suas criações, o livro é objeto primordial. É um aspecto engrandecedor na trajetória desse autor/diretor de teatro, porque ele nos deixa claro que tem essa missão: precisa que as novas gerações – tão tecnológicas – não se esqueçam dos livros. E lá está ele em cena, o objeto-livro, sendo folheado e lido em voz alta. Essa terceira e última parte é toda construída na representação da obra O Flautista de Hamelin, porque o prefeito da cidade alemã não valoriza a arte do flautista, assim como as autoridades da cidade grande não entendem a pureza artística de um menino equilibrando latinhas para ganhar alguns trocados enquanto o sinal está fechado. É inteligente a associação que Falseti faz do conto popular alemão e sua fábula contemporânea paulistana. Mas é um único senão que tenho ao espetáculo: essa parte do flautista, ainda que incrível, se estende um pouco além do tempo. Pode ser encurtada, para que fique mais potente e não domine tanto assim uma história que já vinha sendo tão bem contada, a história do crescimento da amizade entre Pepé e Carmela.

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

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Dib Carneiro Neto

Dib Carneiro Neto

Jornalista, dramaturgo e crítico teatral. Começou a escrever críticas sobre teatro infantil em 1990, na revista Veja São Paulo. Foi editor-chefe do caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo (2003 a 2011). Atualmente, edita o site e canal do youtube Pecinha É a Vovozinha, que ganhou o Prêmio Governador do Estado em 2018, na categoria Artes para Crianças, além de menção honrosa no Prêmio Cbtij. Por sua peça Salmo 91, ganhou o Prêmio Shell de dramaturgo em 2008. Em 2018, ganhou o Jabuti pelo livro Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela.

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