Você está na cidade de:

Mágico de Oz segue imbatível como “peça de mensagem”

Versão em cartaz até o fim de outubro no Teatro Procópio Ferreira tem o brilho de Danielle Winits como vilã e a força do que os realizadores mais gostam nessa trama: a lição de que tudo se consegue com esforço próprio

Crítica Por Dib Carneiro Neto

Incontáveis versões teatrais de O Mágico de Oz já passaram pelo teatro para crianças, em todas as partes do mundo. Isso é facilmente explicável pelo fato de que a trama é um prato cheio para entreter a garotada e, ao mesmo tempo, transmitir “mensagem” – tudo de que os realizadores de teatro infantil mais gostam. Transmitir mensagens. Às vezes usam bonecos, outras vezes escalam atores, fazem como musical grandioso ou como contação de histórias mais intimista – e já virou até cordel.

Não há lugar como o lar. Essa é a base do que a história transmite. Valorizar nossa casa e nossa família. Mas tem mais: Oz, o mágico, ao fim e ao cabo, não tem poderes para conceder os desejos dos personagens – ele só os faz ver que conseguiram o que queriam (coragem, inteligência, afeto) graças a suas próprias trajetórias. A jornada de cada um é o que verdadeiramente leva à realização dos sonhos. Oz nunca deu nada que os personagens já não tivessem – bastava descobrir.

O filme de Victor Fleming de 1939, com Judy Garland (mãe de Liza Minnelli) como a menina Dorothy, divulgou para o mundo o livro do autor americano Lyman Frank Baum, que já estava morto havia 20 anos (morreu em 1919). O Maravilhoso Mágico de Oz foi publicado pela primeira vez em 1901. Frank seguiu escrevendo mais 13 livros baseados nos lugares e no povo da terra de Oz. Um dos pioneiros dos livros em série.

A versão em cartaz em São Paulo, no Teatro Procópio Ferreira (versão brasileira de Silvano Vieira e Sofia Bragança), é fiel a essas ideias morais do livro e do filme. Tem direção geral de Sandro Chaim e mais de 30 atores envolvidos. Fernanda Chamma foi recrutada para a direção artística e as coreografias. Mandou bem, como sempre. Daniel Rocha, na direção musical, comprova mais uma vez sua visão ventilada sobre o papel das trilhas nos espetáculos: ritmos variados, gêneros diversos, excelência nos arranjos. Adalberto Neto assina o que chamam de “roteiro do espetáculo”.

Espantalho (Mauricio Alves) – Foto: Caio Gallucci

O fato é que há na montagem uma boa transposição da trama para os dias de hoje. Não fica de fora nem mesmo uma referência rápida ao mundo dos realities audiovisuais, como Big Brother. Em uma das cenas, quando todos têm de procurar o óleo para “desenferrujar” o Homem de Lata (Vinícius Loyola, agora trocado por Adriano Tunes), alguém no palco comenta: “Parece a prova do líder!” Hilário também é ter um Leão leonino (Maurício Xavier), que pede aplausos, vaidoso como todos que nascem sob esse signo.

A montagem é vistosa, fácil de ver, boa de ouvir – exceto pela voz exageradamente aguda e infantilóide de Glinda, a Bruxa Boa, erroneamente interpretada pela youtuber Sienna Belle. É irritante cada vez que essa intérprete entra em cena. Caiu completamente no estereótipo fácil das personagens boazinhas. Empobrece o conjunto do elenco, que é forte. Não é culpa dela. Faz o que sabe fazer, do jeito que sempre fez na Tv e no YouTube. Faltou trazer mais personalidade para Glinda – tirá-la desse lugar enfadonho das heroínas melosas. Não se desafiou.

Ao contrário da tarimbada Danielle Winits, como a Bruxa Má do Oeste, que rouba as cenas de que participa. Seu texto é o melhor, o mais bem pensado e engraçado (vilãs proporcionam isso aos intérpretes). Sua respiração já é notada assim que surge. Sua expressão corporal é sentida. Sua voz é toda trabalhada na eficiência. Também tinha tudo para ser apenas um estereótipo de bruxa do mal, mas a atriz acentua o que tem de ser acentuado sem lançar mão de facilidades. Winits compôs uma personagem. É o que se espera dos elencos, mas sabemos que nem sempre isso se acerta. Winits consegue. Segura e controlada. A despeito de ter passado pelo trauma de despencar do cabo de aço em 2012, no musical carioca Xanadu, enfrentou de novo o desafio de voar em cena – e sua coragem (afinal, um dos temas de Oz) lhe rendeu a melhor cena do musical. Um voo impactante, majestoso, bem realizado. A cena final de seu desaparecimento também é muito bem-feita – graças à competência do efeito cênico. Só seu figurino (um vestido preto longo e pesado) às vezes exige dela um esforço incômodo para caminhar, o que não tira o brilho da figurinista Antara Gold, que acerta em todos os outros personagens e coros (ensemble), talvez com destaque para a criatividade imbatível na caracterização do Espantalho (Ivan Parente, agora substituído por Mauricio Alves).

Bruxa Má do Oeste (Dani Winits) – Foto: Caio Gallucci

Nos efeitos especiais, notáveis são as faíscas que brotam da vassoura da bruxa má e da varinha de condão da bruxa boa. Isso até pode ser considerado óbvio, mas, quando bem realizado, um recurso conhecido vira surpresa bem-vinda. O painel de LED, que reveza os cenários com competência técnica e um visual bem agradável, poderia ser outra armadilha e empobrecer a cenografia, como tantas vezes a gente vê pelos palcos, quando usam erradamente esse recurso moderno de videomapping. Mas aqui nesta montagem as projeções são harmoniosas e funcionais, como na cena da caminhada pela famosa estrada de tijolos amarelos, rumo ao palácio de Oz. Informam, no material de divulgação, que todo o palco é iluminado com fibra ótica – mais de 100 mil pontos que se espalham até pela plateia. Numa peça que, desde o começo, nos lembra que existe algo para “além do arco-íris”, é cuidadoso e atencioso oferecer no desenho de luz (Lucas Rodrigues) um efeito multicolorido, quando Dorothy (Duda Pimenta) canta seus desejos de perseguir um lugar onde não existam problemas. Arte se faz com esse apego aos detalhes.

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

Compartilhar em
Sobre
Dib Carneiro Neto

Dib Carneiro Neto

Jornalista, dramaturgo e crítico teatral. Começou a escrever críticas sobre teatro infantil em 1990, na revista Veja São Paulo. Foi editor-chefe do caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo (2003 a 2011). Atualmente, edita o site e canal do youtube Pecinha É a Vovozinha, que ganhou o Prêmio Governador do Estado em 2018, na categoria Artes para Crianças, além de menção honrosa no Prêmio Cbtij. Por sua peça Salmo 91, ganhou o Prêmio Shell de dramaturgo em 2008. Em 2018, ganhou o Jabuti pelo livro Imaginai! O Teatro de Gabriel Villela.

Siga o crítico

InfTEATRO em números

0 peças no site
0 em cartaz
0 colunas
0 entrevistas

Receba as nossas novidades

Ao se inscrever você concorda com a nossa política de privacidade

Apoios e Parcerias

Inf Busca Peças

Data
Preço

Este website armazena cookies no seu computador. Esses cookies são usados para melhorar sua experiência no site e fornecer serviços personalizados para você, tanto no website, quanto em outras mídias. Para saber mais sobre os cookies que usamos, consulte nossa Política de Privacidade

Não rastrearemos suas informações quando você visitar nosso site, porém, para cumprir suas preferências, precisaremos usar apenas um pequeno cookie, para que você não seja solicitado a tomar essa decisão novamente.