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O Teatro e Suas Finitudes

Coluna Por Lena Roque

O TEATRO E SUAS FINITUDES

Por Lena Roque (@roque_lena)

Foto: “Pretas Ditas” espetáculo de circo contemporâneo para abertura FIC 2022 –Festival Internacional de Circo. Direção Lena Roque.

“(…) nós podemos definir o teatro como o que acontece entre o espectador e o ator”

Jerzy Grotowski (1933-1999)

O que acontece entre o espectador e o ator ?

Difícil compreender a duração das “coisas”, dos encontros, a duração das cenas, a duração das personagens.

Outro dia mesmo, eu em cena, quando depois da última fala, veio a escuridão no palco e a platéia entusiasmada começou a aplaudir, eu lá no meio do palco pensei: alguma “coisa” morreu, alguma “coisa” morreu em mim, foi levada/doada à platéia. Por outro lado, imediatamente respondi em silêncio a mim mesma: uma outra “coisa” acaba de nascer.

Eterno paradoxo.

Difícil explicar uma sensação. Quem está em cena está vulnerável. Sem romantismo, a personagem é uma paixão que a gente alimenta ou não. Pra mim a personagem é como um plástico filme que adere ao meu corpo, limita os movimentos cotidianos, impõe uma outra respiração e filtra a emoção que deve ou não ser exteriorizada.

São N os fatores que podem/devem compor a relação ator-personagem, mas um deles me toca pessoalmente – a “possessão” – de “uma energia” que eu invento. “Possuída” por outros trejeitos, outros ritmos internos, outro caminhar, outro olhar, e esta possessão consentida, provocada, estudada, é efêmera. Assim é a natureza do fenômeno teatral; com suas diárias, constantes, intermináveis finitudes.

Quando se pensa em teatro de forma amorosa, percebemos que foi lá na cena teatral onde se deu um encontro, ator e público, com dia, hora e endereço marcados, que pode ter sido bom, divertido, acolhedor, reflexivo, inesquecível, chato, tedioso… e que acabou. Nunca mais voltará. A próxima sessão, outras pessoas, novas e finitas relações.  Outras águas do mesmo rio. Ontem, è finito. Hoje de novo.

A finitude da arte teatral é o que faz dela única, preciosa e porque não dizer, necessária. Finito são nossos dias, nossas horas e nossas personagens. Tantos encontros, tantas despedidas e foi  este ciclo, que vai e vem, que me levou a querer sempre (que possível) estar em cena. Mesmo sendo difícil, exaustivo, desafiador. Quem disse que seria fácil ? Quem disse que você poderia estar diante de outras pessoas, responder as expectativas de diretores, produtores, público e sair ilesa ?

Pode-se até sair ilesa quando deixamos de lado a consciência da importância da relação proposta, o pacto que foi feito em cena, mas o espetáculo sempre dará a última palavra, de ter ou não, cumprido o acordo entre palco e platéia.

“(…) para que o teatro exista, basta um espaço, um espectador (que observa este espaço) e um ator (alguém que desenvolva alguma ação no espaço)” .

 Peter Brook ( 1925-2022)

A genialidade das palavras do mestre, pode nos levar a achar que é uma operação simples, uma troca, fruição estética, imaginação, intuição, emoção, enfim… evento que se dá no espectro da relação essencialmente humana. Existe um valor simbólico e a produção do imaginário que vão muito além de qualquer simplicidade. Aliás, o que é extremamente difícil: chegar à simplicidade e ao essencial, e que inevitavelmente vai finire dentro de uma hora ou um pouco mais.

Essa finitude da arte do teatro não parece justa, mas…

Se a vida fosse justa, estaríamos em cena sempre que quiséssemos.

Se a vida fosse justa, teríamos sempre uma bela cena a apresentar.

Se a vida fosse justa, o teatro e o ator seriam muito, muito, muito mais valorizados e bem remunerados.

Mesmo não sendo justa, a vida é a possibilidade que temos de buscar justiça, encantamento, beleza, respeito, amor, igualdade, paridade social.

Diante de tantas questões, insisto em acreditar na magia e potência da arte teatral, que se fazem presentes quando estamos em cena, por isso, sinto e acredito no ator como um dos condutores da vitalidade humana. O que não é pouca coisa.

Talvez o que aconteça entre o espectador e o ator, esteja situado no terreno do mistério, onde moram os sentimentos, os vazios, as buscas, as emboscadas, as dúvidas, as perguntas nunca respondidas…

Por hora, pondo fim às minhas divagações cênicas-existenciais, peço licença para encerrar,  fazendo minhas as palavras de Angela Davis (1944 – )

“(…) você tem que agir como se fosse possível transformar radicalmente o mundo. E você tem que fazer isso o tempo todo”

Vamos agir !!

“(…) se não agora, quando ? “

           Peter Brook

Infelizmente os textos também tem que ter um fim. Esse È FINITO.

Até o próximo.

 

FELIZ ANO NOVO!

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Lena Roque

Lena Roque

Atriz, formada em Artes Cências ECA/USP. Diretora Teatral, Dramaturga e Roteirista. Atuou (por 10 anos) em “Louca de Amor, Quase Surtada”, texto e codireção de sua autoria. No cinema, em “Domésticas”, de Fernando Meirelhes e Nando Olival (prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Recife), entre outros 13 longas. No teatro atuou em 22 espetáculos. Produziu e apresentou o Almerindas Podcast sobre literatura feminina negra. Atriz da série Sentença – Amazon Prime Vídeo (2022).

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