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“O Veneno do Teatro” discute o valor da representação levada às últimas consequências

Sob a direção de Eduardo Figueiredo, Osmar Prado e Maurício Machado protagonizam um jogo de manipulação de significados políticos e artísticos

Crítica Por Dirceu Alves Jr.

São muitas as camadas capazes de renderem leituras urgentes em O Veneno do Teatro, peça do dramaturgo espanhol Rodolf Sirera, que ganha montagem dirigida por Eduardo Figueiredo e protagonizada por Osmar Prado e Maurício Machado. Escrito em 1978, como resposta à recém-encerrada ditadura franquista, que dominou o país entre 1939 e 1975, o texto se expande para significados polêmicos que podem ser associados tanto ao campo político como artístico da contemporaneidade.

Em tempos de saudáveis discussões sobre o quanto um intérprete é a chamada “folha em branco”, aquele profissional que, guiado por técnica e emoção, pode criar qualquer papel apoiado em suas observações, saltam provocações na dramaturgia de Sirera. Enquanto nestas primeiras décadas do século XXI, tornaram-se praticamente inaceitáveis escalações de atores ou atrizes que podem ferir as regras da diversidade identitária, principalmente nos quesitos de gênero e raça – que é muito pertinente –, O Veneno de Teatro propõe um extremo ao abordar os limites entre a vida e a arte na interpretação.

Foto: Rafa Marques

Seria possível o ator Gabriel de Beaumont (interpretado por Maurício Machado) protagonizar uma peça apoiada no realismo em torno da morte do filósofo grego Sócrates sem ter experimentado a agonia desse instante tão radical? O pensador da Antiguidade Clássica, em seus últimos momentos, desacreditado pela sociedade e condenado sob a acusação de corromper a juventude, bebeu cicuta e morreu por envenenamento.

Diante de tal premissa, a obra de Sirera abre espaço para uma conversa sobre os limites da radicalidade e o encanto necessário para o artifício na apreciação da obra de arte. Quem criou a tal peça sobre Sócrates e convida Gabriel de Beaumont para o trabalho é o Marquês (vivido por Osmar Prado), sujeito nebuloso, contraditório, que, apesar do interesse artístico, não permite que uma possível sensibilidade abale a sua frieza e desacredita que qualquer apelo emotivo possa se sobrepor à exatidão.

A convicção do personagem rende um dos pontos mais interessantes ao entrar nos extremos de uma polêmica do que, na atualidade, é tratada como o “lugar de fala”. Na teoria do Marquês, um intérprete jamais estaria pronto para transmitir a verdade de um personagem como Sócrates se não experimentasse de perto uma sensação próxima da morte. Seria incompleto para o artista e geraria um profundo desgosto e a descrença do público.

Foto: Rafa Marques

Desde o primeiro contato com Beaumont, o ardiloso nobre coloca em prática um jogo de máscaras marcado para desestabilizar o seu interlocutor. O ator chega à mansão e, recebido por um mordomo, espera durante uma hora a ponto de perder a paciência. Aceita uma, duas taças do vinho preferido do Marquês e ameaça se retirar devido à falta de consideração do anfitrião ausente. A primeira surpresa, tanto para Beaumont como para o público, é que o serviçal se trata do próprio Marquês em uma atitude que mostra que, assim como ele enganou o convidado, a descoberta do artifício pode ser desagradável quando revelada.

“Eu estive atuando para o senhor. Eu criei um personagem… E o senhor, com toda a sua experiência, não foi capaz de perceber. O que significa que a minha atuação foi um sucesso”, afirma o nobre, em um de suas tantas contradições. Se Beaumont se sente indignado e salta da arrogância para um nervosismo quase descontrolado, o Marquês arma uma teia de manipulação para convencê-lo de que apenas o extremo realismo pode ter valor como arte.

Os diálogos abrem uma sucessão de desafios que, aos poucos, reforçam as inseguranças de Beaumont e transformam o Marquês em seu algoz. “Minha posição social sempre foi muito precária”, disse o ator ao criado, antes de a farsa vir à tona. “Depende da minha arte, e a arte depende dos gostos de cada época”, completa. O Marquês, no entanto, mais adiante, rebate o interlocutor: “Na vida, todos nós representamos, todos nós o tempo todo. Vou mais longe; estas representações diárias são vitais para a sobrevivência do status quo”.

O objetivo do Marquês com a peça que escreveu é criar uma obra de arte de caráter único, algo à frente do seu tempo, colocando o teatro no mesmo patamar de um quadro ou um livro que, apesar de estarem na parede ou na estante, transmitem mensagens definidas. O Marquês não quer uma peça que se transmuta a cada noite, de acordo com a energia do intérprete ou as reações da plateia e, sim, uma obra que apresente uma leitura, a dele, porque, em suas palavras, não existem duas visões de mundo. Só uma – que é a verdade.

Assim, salta uma outra camada do texto, o autoritarismo de quem detém o poder e deseja manobrar a todos, inclusive a classe artística, de acordo com os seus interesses. Se o Marquês investe insistentemente em uma representação diante dele, o ator se mostra cada vez mais vulnerável e, assim, tem seus frágeis argumentos derrubados diante daquele que se apresenta como o “dono da verdade”.

Neste ponto, entra a inspiração de Sirera em contraponto à ditadura franquista, que, no original, opta por uma ambientação nos anos que antecedem a Revolução Francesa (1789-1799) e, na montagem de Figueiredo, sugere, mas não determina, que aquele conflito se passa na década de 1920. O estilo rococó da decoração da mansão, em cenário idealizado por Kleber Montanheiro, pode bem ser associado a uma elite deslumbrada em voga na sociedade brasileira dos últimos anos.

A encenação de Figueiredo, em cima de tradução de Hugo Coelho, salienta a habilidade de dominação dos que estão no poder, lançando luz aos políticos e, neste caso, trazendo à tona a tentativa de apagamento da classe artística empreendida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em seus quatro anos no governo. A narrativa criada pelo Marquês pode remeter tanto às “fake news” amplamente divulgada pelas redes sociais como aos persistentes ataques aos artistas, questionando a seriedade de cada um no seu ofício, inviabilizando a realização de novos trabalhos ou, até mesmo, pondo em dúvida a autoria ou a relevância de obras fartamente conhecidas.

No momento em que só a visão do Marquês validaria o fim da história de Sócrates e, para isso, a vida do ator responsável pelo papel poderia ser sacrificada, entra em debate até que ponto chega a vaidade de um ator para atingir um grande momento em cena. Como cobaia desse “exercício fisiológico”, como é definida a proposta feita pelo Marquês, Beaumont seria o astro de uma encenação que o colocaria na história do teatro, mas, para isso, provavelmente pagaria com sua vida.

O texto de Sirera oferece dois grandes personagens, de perfis e estruturas diferentes, que são defendidos com garra pelos intérpretes. O mais difícil deles é o ator Gabriel de Beaumont, cheio de transformações do início ao fim, uma teia de variações que desafia Maurício Machado em nuances, como a arrogância, a soberba, a insegurança, o medo e desespero. Muitas vezes, Machado assinala uma canastrice como reforço à vulnerabilidade do personagem e o excesso de vaidade que, aos poucos, leva Beaumont a se perder.

Foto: Rafa Marques

Há quase dez anos longe dos palcos, Osmar Prado, por sua vez, se apoia na força das palavras em um grande desempenho que não chega a fazer sombra ao colega. Se, na ficção, o Marquês engana Beaumont como o criado, esse é o mesmo sentimento transmitido ao público, logo, fica a sensação de que Prado se apresenta como dois tipos distintos – até porque esse jogo dramatúrgico dá alguma variação ao seu personagem. Ao contrário de Beaumont, o Marquês é um homem calculista, e Prado explora muito bem as pausas das falas até como valorização das mensagens embutidas no texto.

A direção de Eduardo Figueiredo evita maiores interferências na dupla de intérpretes. A presença ao vivo do violoncelista Matias Roque Fideles estabelece climas durante a montagem, principalmente aqueles que necessitam reforços de dramaticidade e tensão, assim como a iluminação criada por Paulo Denizot, marcada por tons fortes, contribui para a intensificação do suspense.

O Veneno do Teatro, na concepção de Figueiredo, é uma peça de ideias, um daqueles espetáculos que deseja provocar o público com um texto que revela camadas inesperadas. A opção de levar ao palco a obra de Sirera prova a conexão de Figueiredo com o seu tempo na escolha dos projetos. Sim, ele pode ser tanto o diretor competente de comédias de qualidade que levam a plateia às mais sonoras gargalhadas como o encenador que se desafia em um texto difícil como O Veneno do Teatro. A peça pode não ter o mesmo retorno comercial de uma de suas comédias, mas provoca questionamentos tanto ao público como aos artistas que reafirmam o seu compromisso com a arte.

Foto Destaque: Priscila Prade 

Nota: As informações e opiniões contidas neste artigo são de inteira responsabilidade de seu/sua autor(a), cujo texto não reflete, necessariamente, a opinião do INFOTEATRO.

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Dirceu Alves Jr.

Dirceu Alves Jr.

É jornalista, escritor e crítico de teatro, trabalhou em Zero Hora, IstoÉ Gente e Veja São Paulo e publicou os livros Elias Andreato, A Máscara do Improvável (Humana Letra) e Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc).

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